A apaixonante relação de Maria com o anjo Gabriel num romance em verso.
Rendido à beleza de Maria, o arcanjo Gabriel, esquece a mensagem que tinha por missão anunciar-lhe. E uma tumultuada relação amorosa ganha corpo entre os dois. Anunciações, o romance, desenrola-se ao longo de 280 poemas e 14 estações (tantas quantas as da paixão e morte de Cristo), até à gestação do filho de ambos, Joshua. Tudo por entre os medos e a contrição do anjo, e a determinação e revolta de uma Maria dessacralizada, emergindo na dignidade da sua condição humana.
Maria Teresa de Mascarenhas Horta Barros was a Portuguese feminist poet, journalist and activist. She is one of the authors of the book Novas Cartas Portuguesas (New Portuguese Letters), together with Maria Isabel Barreno and Maria Velho da Costa. The authors, known as the "Three Marias," were arrested, jailed and prosecuted under Portuguese censorship laws in 1972, during the last years of the Estado Novo dictatorship. The book and their trial inspired protests in Portugal and attracted international attention from European and American women's liberation groups in the years leading up to the Carnation Revolution.
num crescer sem aparente tumulto e pergunto-me como irão iludir-te as asas...
Tu és a harmonia severa mas também o solfejo a ilusão do humano e a crueldade do anjo
Mas não sou eu que te invento Tu foste o anunciado o nomeado
Serás o chamamento?
Maria Teresa Horta
*** a partir daqui contém spoilers ***
Há poucos meses entrei numa livraria com o objectivo de colmatar algumas falhas que tenho na minha (modesta) biblioteca pessoal; Maria Teresa Horta, cuja poesia erótica é simplesmente divinal, era um dos nomes que estava no topo da minha lista... e este não era o livro que tinha escolhido comprar, mas algo me deteve. Num primeiro momento, creio que foi a vertente estética que me arrebatou: na capa vemos uma representação da Anunciação (uma reprodução de Botticelli... e eu tenho um fraquinho pelo Renascimento) que se assemelha a tantas outras pinturas sobre o mesmo tema, mas houve algo que feriu a minha sensibilidade - naquele instante em que pegava no livro, aquelas mãos não se tocando (o espaço vazio entre as mãos, o desejo, a potência, a latência), os rostos calmos, os traços delicados dos corpos e das vestes deixaram-me com uma curiosidade imensa. Ao abrir o livro percebi que vivia ali algo de muito belo, era quase como testemunhar uma passagem d' "O Cântico dos Cânticos", havia ali um esbatimento de fronteiras entre amor carnal e amor platónico, uma harmonização entre sagrado e profano que me levou a querer possuir este livro.
E li-o apaixonadamente ao longo destes dias e se, por um lado, as primeiras impressões foram reforçadas com a leitura, também é verdade que o livro não deixou de me surpreender: "Anunciações" é, de facto, um romance (como o subtítulo indica), os poemas vão narrando uma história, a história do envolvimento amoroso/afectivo-sexual entre Maria e o Arcanjo Gabriel, e este foi o elemento inesperado... há poemas belíssimos sobre a espera, sobre o desejo, sobre a entrega, sobre a paixão arrebatada, mas depois forma-se um vórtice qualquer em que sinto girar tudo em torno do mesmo (não desfazendo a qualidade dos poemas, que são sublimes na sua esmagadora maioria), e do qual sinto que se sai apenas quando chegamos ao fim, quando Maria é a única voz que se escuta (já depois do afastamento de Gabriel).
“Ele vai enumerando as tentações em que ambos sempre caem
entre o mal e o pecado a nudez e o desejo o beijo e o abraço
o prazer em que se cumprem e o gosto do recomeço”
Num encontro chocante, à primeira vista, entre o poder da poesia e uma das narrativas mais identificadas do Cristianismo – o anúncio do Arcanjo Gabriel a Maria sobre o nascimento de Jesus Cristo – Maria Teresa Horta, reconhecida pelo uso da palavra de forma a colocar a figura feminina em ponto de igualdade com a masculina, dá a conhecer em “Anunciações” (Dom Quixote, 2016) um novo ponto de vista sobre estas duas personagens. Um livro que vai de encontro não só à desobediência tão presente em todos os livros da autora – não tivessem “As Novas Cartas Portuguesas”, escrito em conjunto com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, provocado um processo político na época em que foi lançado ou, ainda antes, “Minha Senhora de Mim” provocado tão burburinho na época de publicação –, mas a uma beleza extrema, em que o deslumbramento e sedução habitam em cada poema.
As surpresas começam na identificação destas “Anunciações” como um romance. Há uma condução rítmica e lógica nos poemas de Maria Teresa Horta, divididos por catorze estações – tal como as que dão conta da paixão e morte de Cristo. Se os anjos habitaram desde sempre na obra da escritora, numa denotação clara de uma infância criada numa religiosidade extrema, o Arcanjo Gabriel é, provavelmente, a figura mais marcante de todos os anjos presentes na sua obra literária. Num momento em que se sente, com cada vez mais força, uma onda de revolução na Igreja Católica, graças a todas as mudanças trazidas pelo actual Papa Francisco e com o Prémio Pessoa 2016 a ter sido atribuído a Frederico Lourenço – que trará a maior tradução da Bíblia a partir do grego antigo -, estas “Anunciações” vêm colocar mais um dedo na ferida dos mais cépticos à mudança.
Anunciações, romance em poesia de Maria Teresa Horta, é uma reinterpretação do episódio da Anunciação que conta a paixão entre Maria e o Arcanjo Gabriel. Ao longo de 14 estações acompanhamos Maria, mulher antes de “puro ícone”, mulher que sente, ama e sofre. Maria Teresa Horta descreveu-o como um “livro de paixão”, paixão entre Maria e Gabriel, paixão da autora e do leitor por este romance e pela poesia. Uma leitura divina de uma poetisa maravilhosa!
A Anunciação (ca. 1450) Fra Angelico. Museu Nacional de São Marcos, Florença, 2015.
Não sendo o género de poesia que estou habituada a ler, é mais do que evidente a qualidade presente ao longo deste romance escrito em verso, relatando sucessivos encontros entre Maria e o anjo Gabriel, sob uma perspectiva tremendamente interessante.
Anunciações está escrito de uma forma tão cuidada, bela e poética, que se torna impossível não nos envolvermos fortemente com a história que nos é contada e com a poesia de Maria Teresa Horta.
Em verso se conta o romance do anjo Gabriel e de Maria. Enamoramento, Paixão e Distância que se desenrolam, num outro olhar sobre os mistérios feitos carne. Escrita divina, amores profanos.
Já se sabia que Maria Teresa Horta gostava destas aventuras celestiais. Os Anjos será talvez o mais conhecido exemplo desta tendência. Além das citações de Rilke, também essa obra de 1983 figura entre as citações do livro:
Têm todos os anjos o vício:
da queda?
Neste caso, em que a escritora é a autora plena, sem ter um colaborador, parte-se de um quadro. É a partir de Anunciação de Boticelli que se tecem estas anunciações. Mas o que anuncia o Anjo, nas suas múltiplas visitas a Maria? O que traz? Traz o eros . Não será por acaso que, de todas as anunciações que se poderia ter escolhido, foi a de Boticelli, o mais sensual escritor do renascimento, a eleita para figurar na capa. A palavra não serve para subverter a pintura, está em consonância com ela. O anjo, de joelhos, de ar devoto e submisso à paixão. Maria, num gesto ambíguo, com o qual parece querer afastar o anjo e enlaçá-lo num feitiço ao mesmo tempo. Este eros púdico é transplantado para o estilo da escrita de Maria Teresa Horta. O verso é curto, discreto, mas ao mesmo tempo musical, voluptuoso, querendo envolver-nos no mesmo feitiço em que Maria parece envolver o anjo. Nesta transformação da palavra em corpo, é inegável o paralelo da escritora com Eugénio de Andrade:
onde o fogo de um verão muito antigo
cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?) ("A boca", de Eugénio de Andrade) Sempre te esfumavas nos meus braços
mais bruma, mais ávido mais lívido mais pálido
meu brevíssimo amor imperdoado ("Elegia", de Maria Teresa Horta)
Se é inegável as duas estéticas se aproximam, também não podemos deixar de, ao longo dos poemas de Anunciações, constatar uma musicalidade absolutamente ímpar. A aliteração, a rima interna, todos os mecanismos fonéticos são usados para transformar o conjunto de palavras num só traço contínuo. Estas e outras coisas fazem deste livro único.
Interesse/comoção: 3 Escrita e estrutura: 3 Aprendizagem: 1
+ A organização dos poemas sugere a gradação e evolução do relacionamento e dos sentimentos das personagens. O mais interessante é a desconstrução do mito mariano: Maria surge numa versão humana e imperfeita, que não é serva nem submissa. - Apesar da premissa transgressora, há estereótipos que me cansam: a figura masculina que abandona a amante para não assumir o compromisso; a figura masculina imortal em contraponto com a mulher terrena. - A execução ficou aquém: o início promissor dá a vez a um desenvolvimento repetitivo em ideias e termos, e o interesse só ressuscita no final.
Um romance em verso que retrata a imaginada relação entre Maria e o anjo Gabriel, aquele que supostamente viria anunciar-lhe o nascimento de Jesus e que acaba ele próprio a ser o pai desse filho.
É brilhante este livro. Não só pela dessacralização de Maria, dos Anjos, de tudo o que a Deus diz respeito, mas sobretudo porque nos traz uma Maria sem vontade nenhuma de se transformar numa oração, numa imagem adorada, num ícone do sagrado, quando a relação com o anjo Gabriel, tornada carnal pela autora de uma forma sublime, é tudo menos divina.
Para quem quiser ler um romance em verso, controverso e escrito com mestria poética, não percam este livro.