Há campo nas nossas cidades. Plantações de beira de estrada e velhos pastores moram paredes-meias com varandas povoadas de vasos modernos, verdadeiros arranha-céus de plantas. As hortas são um retrato da cidade. Relatos do domínio do betão e da especulação imobiliária, do êxodo rural e do crescimento urbano. Da moda e do cuidado com o planeta. Histórias do regresso à terra. E de raízes.
"Há um segredo no terraço. Um dos mais bem guardados de Lisboa. A navalha sem sossego, um cacho e logo outro. A latada carregada e o calor de Agosto a apertar, é vindimar a manhã inteira. No pátio, dois homens no topo de um andaime - mãos a talhar cachos. Ao seu lado, pés assentes no cimento, outro homem - braços ao alto, a postos para receber os baldes carregados. As videiras na dança do vento, os dedos ao jeito de navalha: «Com as unhas apanha-se melhor.» O sorriso da vindima. Custa a crer que a vinha mora num prédio, paredes antigas no íntimo de Lisboa. Ninguém imagina que fica numa das mais movimentadas ruas do Intendente, a um passo do Martim Moniz e a dois do Rossio. Ao redor, tudo são prédios colados uns aos outros, vidas no trânsito da capital. Mas é outra a geografia da manhã. Com a mão nas uvas, os homens apagam a cidade. De novo, catraios na festa da labuta. No Minho que os viu nascer."
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"Pouco se lembra dos ensinamentos do pai, vale-lhe a experiência de hortelão e a fé no Borda D'Água. Todos os anos, compra o jornal na feira de domingo, dois euros pelo «verdadeiro almanaque», que tudo conta sobre o calendário e muito ensina sobre luas e sementeiras. Acende um cigarro, aponta os talhões em frente: «Ali tá um guineense, é só mandioca, o outro é de uns indianos, querem é malagueta, aquele é de um cabo-verdiano, não lhe falta milho, ..."
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"A ligação à terra é história de ventre, tão umbilical que não há betão que apague. Vem da saudade, mas também da falta de contacto. De algo tão misterioso quanto a natureza humana."
Um bom retrato das hortas urbanas em Lisboa e Porto, da varanda de gente rica às hortas como projeto social para pessoas sem-abrigo ou o último pastor da capital.
Um recurso estilístico da autora, lembrar acontecimentos da história mundial contemporâneos de datas citadas, pareceu-me uma distração dispensável, mas isso é só um pormenor.
Um conjunto de reportagens temáticas com muitas histórias reais e humanas que nos fazem pensar em como o campo afinal não está assim tão longe. Para pensar e sentir.