A sociedade exigia menos a inocência do que a submissão. Era a sua natureza.
Somos Todos Assassinos (1952), romance escrito a partir do guião do filme homónimo de André Cayatte e Charles Spaak, centra-se em René Le Guen, membro da Resistência durante a Ocupação, o qual, acusado de vários crimes de homicídio no pós-guerra, é condenado à pena de morte, essa «sequela dos tempos da barbárie». Na prisão, René passa em revista os acontecimentos que o levaram ao cadafalso, e o leitor não sairá incólume da leitura desta obra. Uma terrível condenação da pena capital (abolida em França somente em 1981) e uma reflexão sobre a injustiça de um sistema por vezes dominado por regras absurdas, e tão perverso como os próprios homens.
Jean Meckert was a key figure in twentieth-century French literature, bridging populist novels and detective fiction. Know for his birth name for the books published in "Collection Blanche" by Gallimard Editions, for his pulp fiction works and noir detective novels he used several pen names such as Jean Amila, John Amila, Édouard, Edmond, Guy Duret, Albert Duvivier, Mariodile and Marcel Pivert. He also wrote theatre and screen plays. His work transpires a libertarian sensibility.
Nos dias de hoje, a ideia peregrina de escrever um livro baseado no guião de um filme, num claro confronto às boas normas da cultura, já é assumida com total naturalidade. Todavia, em 1952, quando Jean Meckert teve o douto pensamento de adaptar o filme homónimo, de André Cayatte e Charles Spaak, tal rasgo imaginativo teve de surpreender. Mais para mais pelo tema fracturante que apresentava: a luta contra a pena de morte.
A história é tão simples quão complexo pode ser o ser humano, com uma linguagem nua e crua. René Le Guen nasceu no seio de uma família para lá do disfuncional: um pai esquecido, uma mãe embriagada, uma irmã perdida para a luxúria paga e um irmão para o desgoverno irregrado. A fuga para a guerra pareceu ser uma saída fácil mas deixou-o mais acéfalo que outrora, levando-o a matar sem questionar as ordens que lhe impõem. Claro que tais atitudes irreflectidas não podiam acabar bem, com a culpa a cair não nos manda-chuva mas sim no cão amestrado que as pratica. Condenado à pena de morte, Le Guen é conduzido a uma cela que partilha com outros criminosos, à espera de um indulto vindo do juiz de carne e osso ou de um outro feito de madeira e aço (ao contrário das cordas representadas na simplista capa). Para preencher este tempo, em que os ponteiros teimam em não cumprir as regras da física, existem memórias passadas, episódios do quotidiano lá fora e conversas entre os seus amigos de cela.
Num tom mordaz, as palavras transcendem uma descrição d'"O Último Dia de Um Condenado", obra que aliás deverá ter servido de exemplo. A crítica à sociedade nao é feita de ânimo leve e toca em feridas que ainda hoje jorram sangue vivo por muita água oxigenada derramada em queda livre. Antes como agora, muitos daqueles que habitam os patamares cimeiros das escadas sociais olham de alto para os baixios e, ao invés de estenderem a mão, pontapeiam as migalhas do solo, não para alegrar os últimos mas para amansar o negrume que consome o coração dos primeiros. Quando as migalhas não chegam e, de baixo, surgem gritos de revolta, o que resta não são tijolos protectores de um frio interior mas uma condenação letal, para minimizar os estragos e conseguir algum estrume para adubar a terra. E numa tentativa de a salgar para purgar os pecados mal julgados, vem a religião também criticada pela pregação de um "venha a nós o vosso reino e vocês governem-se", sem explicar o transcendente que poderia oferendar alguma compreensão e esperança aos condenados. Para além disso, as descrições do espetáculo macabro que envolve os dias da guilhotina, fazem gelar: as partes do corpo aproveitadas para os velhinhos e os carrascos equiparados aos assassinos a decepar.
Uma manifesto contra a pena de morte com frases dignas de extensas introspecções, este é um livro sobre a submissão imposta à parte mais representativa mas com menos poder da sociedade, uma sociedade repleta de réus em potência, num tribunal onde a justiça destapa a sua venda. No fundo, nesta vida que é um autêntica farsa, somos todos assassinos, somos todos condenados à morre, somos todos humanos, com erros, culpas, defeitos e imperfeições. Podemos aceitá-los? Provavelmente, não a todos. Mas será pedir muito um pingo de humanidade!?
... perfilou-se diante dele a guilhotina, alta e hirta... Viu a prancha, o comprido cesto que ia conter o seu corpo... Estava já deitado, deslizava sobre a madeira, desvairado de horror. Num breve instante permaneceu com a cabeça enfiada na abertura... Depois a dor atroz e a impressão de cair, de cair... E, num último lampejo lúcido, a sensação de morrer, de morrer sem pressas, cortado em dois.
Guilhotina... a arma mais cruel para assassinar em nome da Justiça.
Também o são? Ora bem, este livro foi uma boa surpresa. Tinha lido, anteriormente, o Golpes do mesmo autor e não tinha ficado convencido com a escrita do mesmo. Todavia, neste livro as virtudes do escritor realçam-se. Fiquei convencido e não o sou.
O livro aborda um tema intemporal que é o da pena de morte e, consequentemente, o valor da vida e a condição do ser humano na sua amplitude.
A sensibilidade é aprimorada e é-nos entregue tanto uma posição, como uma perspetiva humanista sobre o tema.
A dualidade de critérios, os direitos humanos, o escárnio social, a frieza impiedosa... Tudo junto e temos o culminar duma sátira dos intervenientes sociais que nos rodeiam no dia-a-dia.
Um livro que fica, seguramente, muito bem na madeira da vossa estante do IKEA. Leitura oportuna!
quando recebi este livro como presente de aniversário há uns meses, fiquei logo super interessada devido ao tema que aborda.
escrita em 1952, é uma obra de Jean Meckert e baseada num filme homónimo cujo tema central é a pena de morte e a sua justiça, ou injustiça.
a abolição da pena de morte em França (país do autor) aconteceu apenas em 1981, pelo que se considera um livro polémico à época e, consequentemente, muito à frente do seu tempo.
é, mais uma vez, um daqueles livros em que a história é muito simples, mas quase não é o mais importante. importa sim o que retiramos da mesma e as questões com que nos deixa na cabeça.
a personagem principal, René Le Guen, é um jovem analfabeto e que, nascendo no seio de uma família disfuncional, acaba por se tornar numa espécie de assassino por encomenda. as suas atitudes, manipuladas por gentes ricas, claro, levam-no a ser condenado à pena de morte, sem grandes oportunidades de uma absolvição. e porquê? porque é pobre, sem educação e vive à margem da sociedade.
a crítica à sociedade aqui presente é evidente (começando pelo título), e o autor presenteia-nos também com as várias histórias dos parceiros de cela de Le Guen, que são uns “criminosos inocentes”, no sentido em que a sociedade e as circunstâncias não ajudaram a que não estivessem nessa mesma situação.
os excertos em que o autor descreve a vida nas celas, durante a espera pela guilhotina são assombrosos e deixam apenas espaço para a introspeção - quer do leitor, quer das personagens.
penso que li esta expressão enquanto fazia a minha pesquisa após a leitura, mas este livro é realmente um ‘manifesto contra a pena de morte’, com um final totalmente em aberto, mas que nos provoca um peso na alma.
não é uma questão de defender criminosos, mas sim de defender que 1) a justiça deve ser igual para todos e que 2) há direitos humanos que têm que ser cumpridos. passado 70 anos da publicação desta obra, o tema continua a ser tão atual e tão debatido.
é daqueles livros que tenho a certeza que deixa qualquer um a pensar, e foi uma agradável surpresa para mim. apesar do tema tão sério, sinto que tem uma escrita meio divertida e meio irónica, com uma pitada de inocência devido à personagem principal.
Ao contrário do habitual, a ideia deste livro nasce de um filme. Seco e acutilante como em Golpes, Jean Meckert volta a não precisar de adornar para atingir o leitor. O livro cresce e termina como merece. Mais meia estrela pelas questões que semeia nessas últimas páginas.
A powerful plea against the death penalty. The story takes place in the cell where condemned men spend their last few nights. As soon as a third man is brought in, the other 2 know that one of them is going to be guillotined soon. Gino, a Corsican, is the first to go. Albert Dutoit, a medical doctor, who has been sentenced for poisoning his wife, still claims he's innocent. Bauchet, who massacred his 3 year-old daughter because she kept him up at night, can't understand why people recoil from him. René Le Guen is the main character, and most of the flashbacks recount his activities during the war. Apart from the Dutoit, all these murderers are uneducated guys whose values, according to Meckert, are understandably different from those of the bourgeoisie. Le Guen turned into an obedient and efficient foot soldier of the Résistance, cynically exploited by higher-ups who coveted medals but refused to take risks. In parallel to Le Guen's story we see his lawyer Philippe Arnaud. Young Arnaud sympathizes with Le Guen and tries to do a good job, but ultimately he is too weak to resist his greedy father and his small-minded fiancée Agnès. Arnaud Sr is so mean that he bullies a couple of working-class tenants to vacate their rented apartment without proper compensation so that he can house Philippe and Agnès without spending a penny. Agnès kids herself that she is big-hearted because she takes a passing interest in Le Guen's younger brother who is shamelessly exploited by peasants who are supposed to be his foster-parents, but behave exactly like the Thénardier. But all that interests Agnès is to show off, not to secure a better future for Michel Le Guen. What Meckert wants to show is that there's an abyss between the rich and the poor, and that it is monstrous for the former to inflict the death penalty on the latter. The demonstration could be a bit heavy-handed but Meckert's fluid prose carries conviction. The only character who straddles the class divide is Dutoit, who goes to his death with a lot of swagger, the issue of his guilt still unresolved for the reader.