O romance, escrito em 1881, nos fornece uma boa visão do meio maranhense da época. Raimundo é mulato, mas ignora a própria cor e a sua condição de filho de escravo. Sendo doutor, estudara na Europa, não consegue entender as reservas que lhe faz a alta sociedade de São Luís. O personagem é dotado de encantos e poder sedutor junto às mulheres.(Great Brazilian Literature Livro 13)
Era filho do português David Gonçalves de Azevedo e de Emília Amália Pinto de Magalhães. Seu pai era viúvo e a mãe era separada do marido, algo que configurava grande escândalo na sociedade da época. Foi irmão do dramaturgo e jornalista Artur Azevedo.
Desde cedo dedicou-se ao desenho através de caricaturas e à pintura. Em 1876 viaja ao Rio de Janeiro, a fim de estudar Belas Artes, obtendo desde então sustento com seus desenhos para jornais.
Com o falecimento do pai em 1879, volta para o Maranhão, onde começa finalmente a escrever. E em 1881, publica O Mulato, obra que choca a sociedade pela sua forma crua ao desnudar a questão racial. O autor já era abolicionista convicto.
O sucesso desta habilita-o a voltar para a Capital do Império, onde escreve incessantemente novos romances, contos, crônicas e até peças teatrais.
Sua obra é vista como irregular por diversos críticos, uma vez que oscilava entre o Romantismo açucarado, com cunho comercial e direcionado ao grande público, e outras mais elaboradas, pois deixava a sua marca de grande escritor naturalista.
Feito diplomata, em 1895, serve em diversos países, inclusive o Japão. Chega finalmente, em 1910, a Buenos Aires, cidade onde veio a falecer menos de três anos depois.
Um livro que certamente foi recebido como um afronta a sociedade da época. Abertamente abolicionista com com duras críticas a igreja, O Mulato é uma obra indispensável para se compreender a mentalidade das classes mais altas do Brasil império do século XIX. Obviamente, o texto está datado em alguns pontos, mas ainda assim é uma leitura recomendada e com um final corajoso e surpreendente para seu tempo.
Raimundo, filho de um branco com uma negra escrava, apaixona-se (e é correspondido) por Ana Rosa, branca. Se hoje em dia isso ainda pode ser visto com certo "olhar de lado", na época era praticamente um crime. A trama se passa no Maranhão, retratando a sociedade da época. Li duas vezes, uma para a escola e outra por puro prazer pois o livro é realmente excelente.
Acabei percebendo que "perco" muito tempo resenhando livros e tal, sendo que muitas outras pessoas definem muito melhor as obras que eu, tanto por conteúdo como por explanação. Por isso, queria unicamente agradecer ao grande Aluísio Azevedo por me fazer desfrutar tantíssimo desta obra. O Mulato foi uma experiência literária gozosa do começo ao final pelos seus personagens tão bem cuidados, dando especial ênfase a Raimundo. Raimundo pareceu-me uma figura realmente maravilhosa. Não recordo um protagonista da nossa literatura com o que me tenha sentido tão sumamente identificado! E o que falar das últimas páginas? O final é excepcional, revoltante e inesquecível a partes iguais. Tudo foi "resolvido" com uma maestria que poucas vezes tenho visto tanto na literatura brasileira, como da literatura universal em si. Enfim, para os que se interessam pela literatura brasileira e ainda não passaram por "O Mulato", façam-no e logo!
Leitura difícil por se tratar do léxico de dois séculos atrás, é uma obra que tem momentos empolgantes, porém tem muitos outros momentos tediosos. O melhor capítulo é o 11 ao trazer um encontro inusitado. A conclusão do livro é decepicionante, há uma mudança abrupta na caracterização da personagem. É uma boa obra para analisar os fundamentos machistas que são projetados sobre a figura do feminimo ao longo dos séculos.
Embora por vezes entregue a um excessivo uso de descrições que ainda demonstram um processo de amadurecimento do autor em relação ao segmento da própria obra (vê-se sua definição estilística plena alguns anos mais tarde no clássico "O Cortiço"), a mensagem da história, tal como a forma como a mesma é contada, faz jus à extraordinária profundidade dos personagens apresentados.
I really liked the book, I had ever only read one of his books before (O cortiço), it was obligatory reading at my school and I remember enjoying it although this book really should be the one we need to be reading in school. Even tho the book was written and is set in the 1800's still feels very modern, racism is still very much alive in our society and I think it would do some good to be talked about more openly in schools. I thought the book was really well paced, the characters felt very real and their stories, which shouldn't be a surprise in a naturalistic book but it was for me, I'm still a little shocked by that ending and a day wasn't enough for me to absorb it.
Este é o meu livro favorito da minha adolescência...
Me apaixonei pelos personagens... a escrita é envolvente, é possível sentir as emoções e imaginar bem as situações...
Para quem não gosta de finais infelizes esta não é uma leitura recomendada... na verdade... quer um conselho? Fuja para as montanhas, corra deste livro... por que é uma historia muito marcante... Eu costumo relacionar este livro com Romeu e Julieta de Shakespeare por causa do drama de amor mais final infeliz... porem, eu acho O Mulato muito mais rico e embasado em detalhes...
divertido e revoltante. a velha sogra do manuel me da uma raiva. freitas é um personagem curioso e que me encantou um pouco. me fez lembrar o crime do padre amaro, de eça de queirós, pelo crescimento, interrupção e desaparecimento abrupto de paixões. o final, pra mim, é muito característico do naturalismo, pelo caráter quase animalesco da ana rosa em substituição do seu passado.
Finalmente fiz as pazes com Aluíso Azevedo, mas às coisas que acontecem são tão injustas que, por mais legal e bem estruturado em sua mensagem o romance seja, queria dá um soco na cara do autor.
Um Fervor Anômalo e o Rito da Marginalidade Mesclando a tão famigerada modernidade, com seus toques de romantismo, O Mulato (1881), de Aluísio de Azevedo, é uma obra equilibrada, de caráter único, que retrata uma das diversas faces que a discriminação racial traz como consequência desde as mais baixas, até a mais alta camada da sociedade.
Sendo uma obra de cunho político, o autor nos insere em ocasiões que permitem o exercício do pensamento crítico, sobre como a sociedade pode ser mesquinha, frágil, e hipócrita, tudo girando em torno de questões raciais, do qual Raimundo, o protagonista da obra, acaba por ser alvo por sua simples existência.
A princípio, a retratação brasileiresca do Maranhão foi muito bem ilustrada, e é importante para auxiliar o leitor a se situar em meio ao ambiente onde ocorrerá a trama. Precisamos saber onde estamos, com quem estaremos lidando, e como estás pessoas agem em seu dia-a-dia, portanto, com base nisso, o autor não mede escrúpulos ao descrever as pessoas, independentemente do aspecto físico que possuem, e esse é o aspecto modernista de nossa obra, que foge dos padrões estéticos, retratando a realidade, seja no cotidiano, ou no comportamental.
Tão importante fora a apresentação inicial, que já de início foi possível identificar um forte aspecto cultural a ser retratado pelo autor, referente a toda a cultura maranhense por volta da segunda metade do século XIX.
Todavia, apesar da cultura ampla a ser retratada, o principal aspecto a ser mostrado por Aluísio de Azevedo é o preconceito racial instaurado em toda a sociedade maranhense; fruto este advindo da escravidão, ainda forte no Estado.
Curiosamente, o autor nos dá algumas ênfases de como até os mais devotos ao cristianismo também possuíam escravos, o que, na prática, não é coerente com o que seguem. Para acrescentar, estes mesmos donos de escravos, majoritariamente religiosos, maltratavam seus escravos.
Vivenciando um pouco da trajetória apresentada em O Mulato (1881), tive mais certeza que a injúria e o preconceito racial é uma base de educação ensinada por meio dos hábitos rotineiros, de acordo com o cenário da época.
Ainda assim, sendo, para mim, o caráter mágico da obra, problemas sociais não é a única coisa mostrada na obra. Como que sendo o mais alto requinte, pleno em fervor, temos o privilégio de contemplar o aspecto da alma que existe em um coração, abrasada pelos desejos, pela vontade, pelo violento amor que destrói barreiras e em instantes dissolve angústias. Um ato puro de entrega.
“O homem da sua casa, o dono do seu corpo, a quem ela pudesse amar abertamente como amante e obedecer em segredo como escrava“
De início, o autor ganhou-me por sua abordagem direta e precisa, revelando parte da natureza humana, que no consciente, não é observada e nem revelada, mas no âmago, é uma das vontades que regem os seus passos.
“Se o pretendente não tivesse o nariz, o olhar, o gesto, o conjunto enfim de que constava o padrão, podia, desde logo, perder a esperança.“
Nesse sentido, tratando-se de âmago, temos de um lado a pulsão, e também a repulsão, onde na maioria das vezes a tradição, a cultura instaurada; a ideologia enraizada, perdura, levando o homem a ser mais uma marionete da sociedade.
Observei que a descrição dos personagens carrega um forte tom de seletividade, como se uma mulher, muito rigorosa, estivesse escolhendo o homem que irá possuí-la; e isto é proposital, pois evidenciado posteriormente, as mais velhas mostram-se ser muito influentes sobre as decisões de suas filhas ou netas, trazendo este ato da seletividade mais como uma questão cultural, do que Instintiva.
De início, a obra segue uma linearidade um pouco diferente, mostrando-nos a perspectiva de alguns personagens. A obra começa a ganhar um teor mais descritivo e narrativo na medida em que começa a relatar a história de José, e é aí que tudo passa a ficar mais imersivo.
Estando no âmago dos personagens, Aluísio de Azevedo faz questão de expressar o pensamento dos personagens, ora por meio de diálogos ou pela narração, e então ganhamos uma concentração de ideias que alguém normalmente evitaria expressar, por se tratar de assuntos com teor de ódio, inveja, desejos e tudo o mais que a sociedade busca refrear em prol da ética.
“Raimundo, se bem que muito novo ainda, punha-se a pensar e os véus misteriosos da sua infância assombravam-lhe já o coração com uma tristeza vaga e obscura, numa perplexidade cheia de desgosto“
O Mulato (1881), possui uma característica elementar predominante: temos assuntos complexos, e os sentimentos são expressos de forma profunda, sempre imbuídos de um teor de reflexão descrito e revelado de maneira muito bela, revelando um romantismo de alto grau, inserido pelo autor, para validar a trajetória dos personagens que, apesar de estarem em meio a um conflito – ou dilema – social, a realidade o que há de mais predominante é o sentimento que carregam e desenvolvem em meio a estes conflitos.
Ainda nas características principais da obra, ela busca fazer uma ponte com o passado, onde, por meio de nossas lembranças e reminiscências, pelo cheiro ou vivência, voltamos à nostalgia e ao passado. Afinal, é típico em nosso país tratar dos cheiros, dos alimentos, dos festejos, da casa cheia, das fofocas, tudo como uma característica única nossa, onde tratamos tudo isso de forma diferenciada. Mesmo o linguajar, aqui na obra, é típico da região, trazendo palavras que hoje nos é comum, e outras que não são.
Uma das partes mais extensivas, e talvez maçante, está na retratação do teor brasileiresco da "casa cheia", onde nos é mostrado diversas figuras em suas mais variadas diferenças, em pensamento e estética, compondo um cenário de fofocas, assuntos variados, fúteis ou não, que tomam boa parte da obra.
“— Que olhos! que cabelos! e que gestos!... olha, olha, menina! como ele brinca com o charuto!... olha como ele se encosta à grade da janela!... Parece um fidalgo, o diabo do homem!“
Reler esta parte do livro, após terminá-lo, me faz pensar em como somos fortemente dissuadidos pela sociedade. Entretanto, está questão, em específico, fica mais para o final. No momento, com está frase, observa-se que o aparente é muito mais importante e de impacto, pois é uma questão instintiva difícil de ser refreada. Por isso os personagens são validados por deus atos: buscam construir uma característica única, seja em aparência, hobbie ou eloquência em suas participações políticas. Desejam destacar-se, indo por caminhos normais, já frequentado por todos os outros.
Os personagens tentam construir sua imagem "brasileiresca" por meio de trejeitos de outras culturas, soando mais como uma imitação. Para complementar, os brasileiros criticam tanto os portugueses, mas alimentam-se do teor artístico europeu; buscam ser requintados e tentam construir sua imagem às custas de uma certa hipocrisia. Desejam uma p��tria consolidada para se sentirem à parte, definitivamente, mas não abandonam a ideia de seguir os costumes de outras nações, seja na religião, nas opiniões políticas, e em diversos outros aspectos culturais, cheios de fragilidade e falta de originalidade.
“Aquela indiferença de Raimundo doía-lhe como uma injustiça: sentia-se lesada, roubada, nos seus direitos de moça irresistível.“
Nos é possível dizer, também, que a cultura dos elogios exacerbados às mulheres é algo predominante em nosso país, e que isto coloca-as em uma posição orgulhosa, marrenta, de sentirem-se no poder de terem o que querem. Com a atitude anormal de Raimundo em ignorar Ana Rosa, independente de seus dotes, algo fora despertado nela.
Finalizando o prefácio da obra, ganhamos a certeza de quem é o real protagonista, e como a trama irá discorrer. Com esta breve apresentação e já introdução da vida de Raimundo no Maranhão, como que sendo um estrangeiro, o teor brasileiresco da obra fica explícito.
Não se vê algo assim em obras de outras culturas: a fofoca, a algazarra, os relatos, tudo simultaneamente. É interessante, apesar de cansativo. Senti-me como o Raimundo em meio a essa zorra, mas no final, com o cair da noite e com a memória do dia agitado, vem o conforto. Acredito que o Aluísio quis passar essa ideia: um dia frenético, para no final ver a nova vivência desbloqueada, diferente de todas as outras.
Dentro da obra, o narrador emprega um tom ligeiramente poético e único ao expressar o estado dos personagens, e o mistério é parte da construção romancista. Ele tempera os eventos. Cativa à primeira vista. Aluísio sabe como nos prender à trama, e o que propicia isto é a romantização, afinal, é algo que carregamos em nosso âmago.
“Mas logo tornava a si com a ideia do porte austero e frio de Raimundo. Esta indiferença, ao mesmo tempo que lhe pungia e atormentava o orgulho, levantava-lhe, na sua vaidade de mulher, um apetite nervoso de ver rendida a seus pés aquela misteriosa criatura, aquele espectro inalterável e sombrio, que a vira e contemplara sem o menor sobressalto.”
Nessa linha de ideia, Raimundo proporciona uma quebra do padrão ao instaura-se no Maranhão, pois ele chega com dotes diferenciados de recusa à normalidade, se destacando dos demais, e assim, fazendo surgir em Ana Rosa algo excepcional. Dessa relação instintiva, de orgulho de mulher ferido, e de instinto masculino, no intrínseco de Ana Rosa, assim como ocorre em muitas outras mulheres, há o reconhecimento, quase que como sendo uma vontade animalesca de ver-se dominada frente uma força única e diferente de todas as outras.
O grau do desafio engrandece a vivência em vida, e Raimundo possui algo de único. Achei interessante a relação de dominação expressa, e parte da excepcionalidade da obra está no poder exalado pela paixão dos devotos. A convencionalidade não funciona, neste caso, pois as jogadas conscientes sobre a natureza das pessoas acabaram por gerar um descontrole nos sentidos para ambos que tentaram ter o controle.
Progressivamente, de acordo com o transcorrer da trama, a obra ganha um ritmo diferente e tudo fica melhor, pois o autor consegue analisar a subjetividade dos sexos e expressar isso como se fosse a revelação de um mistério. Para acrescentar, ele nos coloca em meio ao aspecto cultural, de forma que também façamos parte das sensações de Raimundo, e temos por evidência as seguintes ocasiões: há muito papo sobre o costumeiro. Festas, comidas, remédios, formas de tratamento, superstições e religião. Então a pergunta é: como sair dessa trivialidade sem ser tratado como estranho, ou até mesmo desrespeitoso?
Isso possibilitou que eu refletisse sobre como é curioso o fato de que, por meio da ignorância, seja ela vindo ou não pela cegueira religiosa, superstição ou alienação, alguns pagam o preço. Buscamos atribuir culpa àquilo que é diferente, ou até mesmo criticar, e Raimundo começou a ser alvo desta mácula.
É interessante ver como pessoas mais conservadoras, geralmente os mais velhos, possuem certa ignorância e relutância em aceitar o ceticismo alheio. Nesse caso, Raimundo e Manuel travam essa batalha, que é tão comum de se acontecer aqui no Brasil, tratando-se de religião.
Conhecer o mundo expande a nossa mente, mas não significa que isso nos dá o poder de abandonar a conduta respeitosa. Não deveríamos ser prepotentes. Respeitando seus ideias e vontades, Raimundo, pelo menos, não satiriza a ignorância alheia.
Pelo teor da obra, não imaginei que haveria uma parte de mistério, mas ganhamos um na medida em que finalizamos a história de José do Eito. O início encaixou-se com a metade da obra e ganhamos revelações e apreensões que mantém apetitosa a leitura.
“Aquela simples palavra dava-lhe tudo o que ele até aí desejara e negava-lhe tudo ao mesmo tempo, aquela palavra maldita dissolvia as suas dúvidas, justificava o seu passado; mas retirava-lhe a esperança de ser feliz, arrancava-lhe a pátria e a futura família; aquela palavra dizia-lhe brutalmente: “Aqui, desgraçado, nesta miserável terra em que nasceste, só poderás amar uma negra da tua laia! Tua mãe, lembra-te bem, foi escrava! E tu também o foste!””
Agora tratando da questão emblemática e disruptiva que o termo "mulato" evoca, observei que em meio a toda essa trajetória dentro da obra, esse termo acaba por remeter a ideia de "o sem história", pela forma como lhe é atribuído tal adjetivo. O título tem muito mais a dizer sobre o passado sombrio, do que sobre a característica física, em si, de Raimundo. O "mulato" evoca as consequências de não ter um passado, e de ser uma prole oriunda da escravatura, tornando-o inadimplente entre os demais membros da sociedade, por ter seu sangue marcado, não pertencendo, assim, àquela terra que foi construída às custas dos esforços de seus antepassados. Nesse sentido, o título da obra também critica a concepção e ideologia presente no Maranhão, cuja segregação e marginalização é instaurada às pessoas nascidas de escravos.
O autor é muito preciso ao expressar seus pensamentos por meio de Raimundo, que está envolto em revoltas por conta da mediocridade de nossa nação em postular absurdos por algo que ele não tem culpa: ter nascido filho de uma escrava (e digo isso em um aspecto mais flexível, pois o preconceito racial, em si, junto à escravatura, também são absurdos). A forma como Aluísio expressa essa raiva e revolta é incrível, e para acrescentar, ele faz uma excelente conexão com o surgimento de um sentimento ainda maior: a vontade de ser amado. Portanto, parece-me uma característica romanesca em O Mulato (1881), onde primeiro nos é apresentado a dor da revelação, e então a insurgência de um sentimento ainda maior que o transponha.
O progresso da obra intensifica os conflitos, e nos dá uma experiência incrível. Me faz pensar que a cultura brasileira, apesar de estar pautada na época da escravatura, mesmo hoje, ainda não mudou tanto assim, pois ainda estamos repletos de pessoas cegas.
Nunca vi um autor fazer tantas alusões, relatando a profundidade dos sentimentos dos personagens. Isso traz vida à obra. Gosto de como o sentimento de Raimundo se aprofunda, e de como a razão é embaraçada frente ao amor, a ponto de pensamentos tão certos serem autossabotados pela frustrante realidade na não possibilidade de uma conquista. Sua euforia ganha toques romanescos, mas ambientando nos nuances do Brasil. É possível se identificar com a obra por sua característica realidade.
A obra evidencia a ignorância dos Brasileiros em fixarem-se em preconceitos e idealizações cegas, e também mostra a corrupção que vem de dentro da igreja, que usa do poder sacro para fazer com que os devotos se achem em estado de pecado por sentirem, desejarem, ou lutarem por aquilo que, segundo a igreja, é pecado. Neste caso, Ana Rosa teve sua pulsão condenada; mas apesar do teor dramático, é um momento de confronto de ideais onde os personagens encontram-se sujeitos a escandalizarem a sociedade para defenderem seus ideais.
Muitos discursos são pautados em falsas morais, baseados no egoísmo para fazer jogos mentais que trazem a culpa ao "infrator" das máximas regidas por homens.
Por fim, O Mulato (1881) nos proporciona um final de enredo eletrizante. Que conflito! Quanto embaraço! Fico pasmo em como este preconceito enraizado mostrou-se ser um grande impedimento para a felicidade, pois na sociedade, as aparências é o que vale mais, e muito mais vale manter-se bem visto aos olhos de um estranho, do que sujeitar-se à ideia de ser difamado por este por permitir a felicidade de um ente querido seu.
O cônego Diogo é a representação da subversão da moral. Um hipócrita. Matar, em prol de um bem maior? O personagem é convincente, seja por sua posição sacra na igreja, por sua compostura, e também por sua argumentação. É ridículo, mas muito condizente com a realidade a forma como muitos encontram meios de revirar a mente do outro, a ponto de fazê-los agir de maneira que normalmente não agiriam. Estamos cercados de lobos em pele de cordeiro.
Semelhante a Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880), de Machado de Assis, a obra não segue um final linear baseado na fantasia que desejamos ver. Pelo contrário: ela representa a realidade, e é isto que torna a literatura brasileira linda.
O final desta obra me enerva os ânimos. O que ele representa? Perdi-me em conjecturas para encontrar uma razão palpável. A nova vida de Ana Rosa seria a manifestação clara de que, todos nós estamos suscetíveis a ficar no passado, a ponto de que, aquilo que era incogitável, passar a ser deixado de lado para dar chance a um novo caminho outrora negado? Refiro-me, neste caso, sobre Ana Rosa e Dias. Aparentemente, um amor e carinho fora gerado, possivelmente depois de certa relutância. A pergunta é: o que a levou a este caminho? Por precisar de um pai para o seu filho com Raimundo? Por ter-se enchido de vida por carregar um filho de Raimundo, uma prole sua, a ponto de sentir que todo o passado deveria ser superado? Por, no fundo, ter aceitado a realidade que lhe apresentaram, abandonando todos os seus ideais, para aceitar que, de fato, o seu lugar e realidade era cabível com um homem branco, e não com Raimundo? De alguma forma a morte de seu pai e de sua avó influenciaram em seu julgamento? Ou foi a solidão? Pensa ela ainda em Raimundo? No fim, a maquinação do cônego Diogo gerou o resultado previsto. Vivemos em um mundo ardiloso e todo cuidado é pouco. Ainda assim, fico em um espanto.
Preferível mil vezes um final trágico de suicídios como em Romeu e Julieta, a esta realidade pesarosa, intragável para mim, que sabe os pormenores. Ana Rosa não sabe. Ela está no meio de um lobo, que roubou-lhe o seu primeiro e possivelmente o maior amor. Esses eventos aconteceram muito depressa, e cadenciados, e trazem-me espanto, dose de tristeza, diversas considerações e incontentamento.
Decerto que o mundo traz uma infinidade de revelações, mas para que tanta luta e sofrimento, em prol de um romance, de uma luta pela felicidade, quando que, no futuro, tudo será diferente.
O caráter da obra brasileira é magnífico por estes fatores. Gostaria de relatar meu profundo incontentamento com este final, mas, em partes, sei que é o mais provável. Uma desgraça! Mas é certo: nos apaixonamos, amamos, e então deixamos de amar. Memórias jazem, mas novos caminhos são criados.
This is a very good naturalism style novel in the mode of Emile Zola written in 1881. It has slavery, bigotry, love story, social comment, challenge of the clergy and family strife. Raimundo, the orphaned mulatto, is hated by his uncle Manuel, evil priest Diogo and prejudiced Don Barbara. He arrives from an education in Europe and to find who his mother/father were. He finds love in the daughter Anna Rosa - the family and church conspire to eject Raimundo from the town due to the social embarrassment of potentially having a "nigger" marry into the family.
There are ironies and 'blood boiling' hypocrisies abound in this tale leading to an exciting and perhaps unexpected ending. I liked this story and its well constructed setting, pace and overt plausibility. Yet again the church/priest demonstrate their so obvious earth bound, self-interested and shallow faith.
I'm not sure how it was received for its forthrightness but for 1881 novel I was struck by this line in particular (Domingas, slave and Raimundo's mother):- "Stretched out on the ground with her feet in the stocks, head shaved and hands tied behind her back, lay Domingas, completely naked and with her genitals parts burned by hot irons".
The story is in the ballpark of Zola's Truth or and A Priest in the House; or Eca's Crime of Father Amaro.
This book should be read for its historical significance. It is not, by today's standards an amazing novel. The characters are not multi-dimensional, but instead are intended to represent "types" or particular cultural institutions (the church, the merchant class, etc). What makes the book interesting is that it was written contemporaneously near the time the book is set (rather than being historical fiction) by a Brazilian writer, so that it feels like one is getting a clearer picture of the political feeling of the time, much in the way one does when reading Uncle Tom's Cabin. I agree with other reviewers that the love story is pretty sappy, but it allows the author to highlight issues of race, color and prejudice with respect to a character that is clearly better educated than any other character in the book.
A mixture of anti-racism, anti-clericalism, and sappy love story. Some aspects may not go far enough for today (the main character is pretty white for a Mulatto), but was really controversial for the time (1880s). Interesting enough, but a bit sappy and not as interesting as some other books. (Port 404- Univ Senior)
Obrigatório pelo simples fato de se tratar de um clássico nacional. Necessário para se perceber o preconceito racial que moldou nossa sociedade durante tantos de escravidão.
Eu me lembrava de ter gostado bastante desse livro quando li pela primeira vez, quase 10 anos atrás. Quando consegui este exemplar, decidi reler para ver como ficava minha opinião depois de tanto tempo, e agora, estou pensando se ainda vale a pena revisitar essas leituras tão antigas. "O Mulato" é a história de amor trágico e proibido entre Raimundo, homem negro de pele clara que não conhece as próprias origens, e Ana Rosa, filha de um comerciante maranhense e também sua prima. Quando visita o Maranhão para conhecer e vender as propriedades do pai que nunca conheceu, Raimundo se apaixona pela prima e se depara com as barreiras de uma sociedade que não deseja ver pessoas negras em outro lugar que não seja o da escravidão e da subalternidade, pois não importa que ele seja rico, educado na Europa e que tenha parentesco com uma família branca importante, pois ser um "mulato" o torna mal-visto em todos os lugares. Meu primeiro problema com essa história foi não conseguir acreditar na ingenuidade desses personagens. Desde o início somos apresentados à história do nascimento e da infância de Raimundo e entendemos a circunstâncias pelas quais ele desconhece sua origem. Mas Raimundo chama atenção onde vai pela cor de sua pele e, mesmo quando é inserido numa sociedade escravista, sabendo que é filho de um homem branco, sequer suspeita que sua mãe foi mulher negra escravizada. E da mesma forma, Ana Rosa, que viveu toda a vida nessa sociedade e numa família que faz questão de manter a branquitude a todo custo, também não suspeita em momento algum da origem de seu primo "amulatado". Outra questão importante tem a ver com a construção de Ana Rosa, que foi incentivada pela mãe a só aceitar se casar por amor, e é a primeira a insistir num relacionamento com Raimundo. Toda a história prévia da mãe de Ana Rosa também é apresentada no inicio, dando a entender que Ana Rosa só se interessou por um homem negro porque não teve a educação "adequada" para um jovem branca e rica de sua época. Essa educação "errada" é o que provoca toda a tragédia da história e o que deixa Ana Rosa à beira da histeria nos acontecimentos finais. Além do casal principal nada convincente, é uma história que se arrasta com poucos pontos de tensão. Boa parte do enredo consiste em visitas de parentes ou conhecidos da família de Ana Rosa e contém diálogos inúteis que se estendem por páginas e mais páginas. Em certo momento, cheguei mesmo a pular um desses trechos. Minha conclusão, por fim, é de que o livro tenta denunciar as barreiras de uma sociedade escravista mas faz isso reproduzindo de forma violenta outras facetas da visão de mundo que critica.
Começo essa resenha com uma frase atribuída a Eça de Queiroz em uma produção global não apenas porque ele é mencionado na obra, mas por poder dizer que esse é o verdadeiro tema de O Mulato.
Aluísio Azevedo recria a sociedade maranhaense durante o Segundo Reinado criticando duramente a situação do negro em tempos pré-abolicionismo e a conivência, quando não dizer atividade, da Igreja Católica na opressão desse grupo.
O cônego Diogo (numa óbvia referência a nomenclatura "diabo") é o responsável por todos os dissabores e crimes ocorridos com a família de Ana Rosa e Raimundo. Quando não estava ativamente manipulando em proveito próprio, personagens de histórico similar assumiam seu lugar.
Há um certo romantismo no livro, nada exagerado já que estamos falando de um representante do Naturalismo, mas a sensualidade é o que transforma a escrita em algo moderno, pressagiando o erotismo de escolas literárias futuras.
A narração é impecável, muito similar em trama à casos reportados por jornais da época... assim, a impossibilidade de um Final Feliz fica aparente desde o primeiro capítulo. O triunfo do mal, essa realidade aviltante, deixa a obra com um sabor amargo, ainda que concordante.
O uso dos quadrinhos, mesmo que com enfoque lúdico para concessão de acessibilidade na simplificação da obra, não é deveras aplicado. Esse recurso, resume em pouquíssimas páginas um livro denso, com um enredo profundo e que se consolida pelas suas críticas e análises de cunho social. Porém, a essência da produção permanece visível nas questões raciais narradas, que envolvem históricos e resquícios de um longo período de escravidão nacional. O processo de estereotipação é preservado, na confecção de figuras cômicas.
Interessant ist dieser Roman vor allem wegen der Thematik: Der Autor greift hier den gesellschaftlich verankerten Rassismus in der brasilianischen Provinz des 19. Jahrhunderts auf, wobei das Werk schon 1881 veröffentlicht wurde. Den Rassenhass lässt der Autor meist von Frauen und Kirchenvertretern ausleben; die Männer von Stand kommen über weite Teile der Geschichte etwas besser davon. Schade ist nur, dass sich Azevedo zu viel Zeit lässt (erst ab Romanmitte kommt er richtig zur Sache), sich teils in Nebensächlichkeiten verliert, Frauen stereotypisch für diese Zeit darstellt (Ohnmachtsanfälle und Fieberkrämpfe allein auf Grund geänderter Gemütslagen) und manchmal Figuren etwas naiv handeln lässt. Unterm Strich eine durchwachsene Leistung, aber beachtenswert auf Grund des gewählten Themas und der Entstehungszeit.
Pode ser que "O cortiço" seja mesmo a melhor obra do Aluísio Azevedo, mas sem dúvida "O mulato" me divertiu e me entreteu muito mais. Deliciei-me com diversas passagens, tendo encontrado, inclusive, algumas inesperadas tiradas humorísticas, das quais destaco uma:
Há um chato exemplar no livro. Lá pelas tantas uma mulher tem um ataque. O pessoal se debruça sobre ela, desesperado, até que se conclui: "É um vólvulo!". Ao que o chato emenda: "Do latim volvulus".
Sem falar na ousadia que foi enfrentar o provincianismo da escravagista São Luís do Maranhão. Como obra realista ou naturalista, também me agrada bastante quando o desfecho foge do ideal.
O cônego Diogo parece ter saído diretamente das páginas de Decameron. Sem dúvida um dos personagens brasileiros que mais mereciam figurar lá.
Na minha opinião, Aluísio Azevedo é o maior escritor da literatura brasileira, e ele demonstra todo esse talento em todos os seus trabalhos. Nesta história, o excelentíssimo escreve coisas que anos depois continuam continuam sendo tópicos de conversa nas mais requintadas áreas do conhecimento. O modo como ele aborda o ser humano na sua pureza, tanto maligna como bondosa, continua a deixar um peso nos ombros de quem ler o autor. Além disso, o modo como ele discute o racismo numa sociedade limitada e afastada dos ventos da mudança é excepcional. Por fim, ele não deixa sempre de terminar as suas histórias de modo a cravar uma marca nos coração de quem lê.
Aluísio Azevedo é comparado a Eça de Queiroz, mas achei bem menos maçante. Gosto do realismo naturalista e ele tem o estilo parecido com Eça mesmo, fazendo descrições super detalhadas. A realidade do Brasil imperial é muito interessante de perceber nas sutilezas e no que ele deixa escancarado, como a questão racial. Só odiei o final pela ação da personagem, essa ingrata.
A obra, inserida no Realismo< traça um retrato bastante interessante da sociedade de São Luís no final do século XIX. É um libelo contra o racismo e a escravidão, além de criticar veladamente a Igreja Católica da época.
ainda estou impactada com esse livro, mesmo tendo lido ele há semanas. Aluísio Azevedo fez uma brilhante crítica à sociedade ao escrever essa obra. a leitura se torna um pouco cansativa, mas o final é completamente devastador. e que padre e sociedade filhos da puta