Que bom que é voltar a ler o Gonçalo Cadilhe de "África acima". As pazes estão feitas e as vénias estendem-se até tocar o chão. Reencontrei o meu escritor-viajante preferido em frases como "Sinto-me no estômago de uma cascavel com soluços." ou "Um filho que cresce longe de um pai que envelhece.", e naquele familiar humor desconcertante.
"Planisfério pessoal" é o relato da viagem que quase todos gostariam de fazer. Não eu, que sou mais comodista e prefiro escalar as montanhas e atravessar os desertos pelos pés de Cadilhe. Perco-me nas palavras de quem sabe descrever como ninguém os contrastes deste mundo bizarro, porque os viveu. Ele esteve lá, teve a coragem de não virar a cara e agora tem o despudor de nos vir contar a nós, que nos sentamos no conforto do nosso sofá virado para a nossa televisão de 40 polegadas a ler sobre o miserável de La Libertad que vive numa casa de uma divisão, chão de terra batida e com chapas de zinco a cobrir metade daquilo que devia ser o telhado.
Cadilhe é obviamente um privilegiado, mas sabe que o é. E nós?
"O senhor Lei sente-se feliz com a nossa visita, serve-nos chá e anuncia que, em nossa honra, decidiu antecipar uma semana a matança do porco. Vai ser agora. Um coro de quatro vozes vegetarianas e uma voz em vias de o ser grita ao mesmo tempo: não, por favor."
"Atravessamos a fronteira. Procuro o habitual cartaz de boas-vindas, não encontro. Apenas um "Cuidado! Minas". Não sabem fazer turismo no Afeganistão..."
"Tenho duas promessas por cumprir, mas agora são contraditórias. Uma é a de só viajar por terra e mar. A outra, a que fiz aos meus pais, é a de regressar vivo. Aqui, no Afeganistão, terei de escolher uma e quebrar a outra. Decido manter a segunda: o respeitinho aos pais é muito lindo."