dos melhores livros de filosofia que já li.
algumas notas que fui tirando sobre o livro:
PARTE I
um livro denso e exigente, mas capaz de nos fazer pensar de forma unica e minuciosamente detalhada sobre o "carater" daquilo que sentimos e apreciamos.
acho que das coisas que mais me fascina neste livro é o seu pensamento escorreito e profundamente objetivo de pensar estes temas (possivelmente até mais que o próprio tema abordado no livro)
Burke=fundador do conservadorismo moderno
o sentimento de indiferença com estado habitual do ser humano
o "raciocinio" dá nos a conclusao sobre o que gostamos (gosto primario: sentidos, gosto secundario: imaginaçao)
dor e perigo como forma de autopreservaçao -> sensaçoes mais poderosas de todas
o deleite e a reduçao ou a cessaçao da dor/ O deleite como forma de apreciar a dor sem sermos atingidos por ela.
beleza do sexo separa o homem do animal
a discussao do que é belo será sempre um assunto em aberto. burke oferece com esta investigaçao "linhas mestras" para melhor decifrarmos conceitos tao complexos como o de "beleza" ou o de "sublime"
humildade acima de qualquer tipo de pretensao: correçao do erro como forma de progresso.
a aquisiçao de conhecimento se nao for util, perde o seu objetivo.
usando as mesmas ferramentas de raciocinio enconrremos em conclusoes semelhantes.
deleite (remoçao da dor/perigo) != prazer (bem estar)
o fim do prazer origina indiferença, desilusao ou desgosto.
o desgosto é suportado voluntariamente (ao contrario da dor); o desgosto corresponde no fundo a ser dominado pela paixao
por darmos o nosso bem estar como garantido é que a dor nos custa tanto!
pelo facto de sermos naturalmente saudaveis e salubres, sao as paixoes da dor e do perigo (adversas a este estado), que constituem as paixoes mais fortes e poderosas.
sublime <=> emoçoes fortes (boas ou mas)
das paixoes que pertencem a sociedade: 1. sociedade dos sexos -> reproduçao; 2. sociedade 'geral' -> composta por homens, animais, natureza (relaçao do homem com o mundo inanimado)
se estivessemos constantemente e ininterruptamente satisfeitos com a nossa vida, seriamos refens da inaçao e da falta de iniciativa
a beleza do sexo está no acrescento das qualidades sociais que associamos ao nosso parceiro(a)
simpatia=partilha das preocupaçoes dos outros
razao pela qual somos fascinados pela tragedia: observar nos outros aquilo que nunca seriamos capazes de fazer por nos proprios
paixoes da sociedade: 1) tragedia 2) imitaçao
é a ambiçao que nos motiva a fazer mais do que imitar os outros!
tipos de paixoes: 1) autopreservaçao: dor e perigo (paixoes mais fortes/intensas) 2) amor (sociedade dos sexos) 3)simpatia/empatia 4)amor/beleza (sociedade dos homens e animais)
as paixoes enquanto "orgaos" da mente
nao é invulgar estar errado na teoria e ter razao na pratica
"quem trabalha para açem da superficie das coisas, embora possa enganar-se, limpa o caminho para os outros, e pode ate fazer com que os seus erros sirvam a causa da verdade" -> nunca é em vão tentar, pior do que estar mal é nao fazer nada (inépcia) (com as devidas exceçoes...)
PARTE II
assombro=paixao pelo que e grande e sublime na natureza; efeito do sublime no seu maior grau
o medo é o receio da dor e da morte
ficar 'atónito'=medo+assombro
"quando conhecemos a dimensao total de um qualquer perigo, quando podemos habituar a ele os nossos olhos, muito da apreensao desaparece"
as palavras sao a forma mais eficaz de traduzir emoçoes e a melhor forma de argumentaçao
as paixoes nao se regem pela logica do raciocinio nem pela objetividade.
todos os homens sao como as pessoas vulgarem em relaçao aquilo que nao compreendem
é a proximidade da infinidade que, entre outras coisas, nos impressiona a mente devido a tentativa de traduzir o impossivel em possivel!
porque tememos o touro e nao o boi (ou medo do lobo e nao do cao)-> devido a ideia de grandiosidade associada ao perigo
->admiramos aquilo que nao conseguimos controlar ou submeter à nossa vontade (exemplo: forças da natureza)
tal como referido no "Anticristo", a religiao (em especial a Cristã catolica) impoe se sobretudo atraves da intimidaçao, o medo é uma demonstraçao de poder.
principais privaçoes que afetam o homem: vazio, escuridao, solidao e silencio
no que toca ao efeito do sublime na vastidao: profundidade>altura>comprimento
na maior parte dos casos da nossa vida, o inifinito é uma mera ilusao
sucessao e uniformidade -> origem do efeito de 'grandeza' nas igrejas
a dificuldade (em realizar algo) como fonte de sublime devido a ardua realizaçao de algo/alguma coisa
a luz torna se escuridao se a observarmos atenta e ininterruptamente
as cores consideradas como produtoras do sublime: vermelho forte, cores tristes, cores foscas, preto, castanho, purpura intenso. cores suaves e/ou alegres nao produzem sublime.
sublime=sensaçao de assombro/admiraçao
som e ruido: para alem da visao, tambem a audiçao (sons) sao origem do sublime (gritos de uma multidao num estadio de futebol, manifestaçoes, concertos, etc)
inicio subito/subita paragem de um som tambem produz sublime
as transiçoes subitas de um extremo ao outro despertam a nossa atençao -> paramos para melhor observar
terrivel vs odioso: as coisas que sao sempre grandiosas sao terriveis; odioso- qualidades desagradaveis (mas faceis de ultrapassar) sao odiosas
a dor corporal produz sublime!
"uma observaçao que na realidade apenas exige uma atençao a natureza que pode ser feita por toda a gente"-> estes exercicios de reflexao feitos por burke estao ao alcance de qualquer um
o deleite do sublime (e de saber identifica-lo) requer grande atençao ao pormenor, bem como uma dedicaçao grande do nosso tempo
o sublime e uma ideia que pertence a nossa auto preservaçao. nenhum prazer com origem num causa positiva lhe pertence
PARTE III
amor=satisfaçao originada pel contemplaçao de qualquer coisa bela
desejo/luxuria=posse objetiva de algo que nao nos afet pela sua beleza, mas pela satisfaçao da 'energia da mente'
ha desejo sem beleza e beleza que causa amor mas nao causa desejo. pelo que desejo e beleza nao tem uma relaçao direta entre si.
é a satisfaçao despoletada pelos nossos sentidos que faz de algo/alguem belo aos nossos olhos.
proporçao é a medida da qualidade relativa
a proporçao nao é a causa da beleza (nos vegetais): olho humano nao tem a capacidade de realizar mediçoes precisas, pelo que a mente é neutra a proporçao quando considera um objeto como um objeto "belo"
a beleza reside na figura regular mais do que na proporçao.
proporçoes diferentes, contudo opostas entre si propiciam o belo (exemplo do cisne, pavao)
os passaros e as flores sao mais semelhantes do que pensamos
em certa forma, a beleza é a propria contemplaçao da natureza
importancia de questionar aquilo que damos como certo (no sentido de que Burke vem colocar em causa a origem da beleza que era considerada naquela epoca: a proporçao dos corpos/objetos/etc
Na verdade, nao é a medida, mas a figura a origem da beleza da forma
o homem é a medida dele proprio (molda o mundo a sua realidade)
->de notar que devemos enquadrar o presente discurso no contexto do seculo xviii, em que a ideia de proporçao como origem da beleza era muito comum, acabando este texto por ser uma critica a essas ideias (talvez uma consequencia tardia da forma de pensar do Renascimento)
o habito é a nossa segunda natureza
o nosso estado natural/comum é o de indiferença à dor e ao prazer.
somos vitimas dos nossos proprios habitos
a proporçao é banal na natureza, nao é condiçao suficiente para definir beleza
proporçao e beleza nao sao ideias da mesma natureza.
a razao de considerarmos a figura humana mais bela em detrimento das restantes relaciona se com o facto de convivermos mais com os homens do que com os animais (habito)
Amar nao é mais do que sermos afetados por uma vontade que nao controlamos
virtudes que causam admiraçao: fortaleza, justiça, sabedoria (entre outras semelhantes)
virtudes que causam paixao (virtudes "suaves"): delicadeza de temperamento, compaixao, doçura e liberalidade.
"a autoridade de um pai, tao util ao nosso bem estar, e tao justamente veneravel sob qualquer ponto de vista, impede nos de sentir por ele aquele amor pleno que temos pelas nossas maes, cujo carinho e indulgencia atenuam a autoridade parental. mas geralmente temos um grande amor pelos nossos avos, nos quais a autoridade é mais remota, e a fraqueza da idade transforma-a em algo parecido com a parcialidade feminina"
def. de beleza="alguma qualidade presente nos corpos que age mecanicamente sobre a mente humana atraves da intervençao dos sentidos"
o sublime causa admiraçao
submetemo-nos ao que admiramos, mas amamos aquilo que nos submete
"a beleza das mulheres deve se, de forma consideravel, a sua fraqueza ou delicadeza, sendo ainda mais reforçada pela timidez, uma qualidade analoga da mente" (sec. xviii, é bom nao esquecer...)
carateristicas da beleza: pequenez, lisura, suavidade de transiçoes, delicadeza, tunalidade clara
graça=ideia pertencente a postura e ao movimento
elegancia=partes lisas+forma regular
a beleza na musica nao suporta a intensidade e a força dos sons
a noçao noçao de "belo" está limitada aquilo que percecionamos
SUBLIME vs BELO:
sublime: objetos vastos, rugoso e negligente, aprecia a linha reta, escuro e sombrio, solido e massivo, fundador da DOR.
belo: objetos pequenos, liso e pulido, aprecia a variaçao da direçao das partes, nao deve ser obscuro, leve e delicado, fundador do PRAZER
PARTE IV
o objetivo desta investigaçao filosofica nao e alcançar uma conclusao, mas sim estabelecer relaçoes logicas entre as afeçoes da mente no corpo e as afeçoes do corpo na mente.
o instinto da paixao impede nos de a racionalizar
medo->perceçao da dor->corpo sugere perigo
terror->perceçao da morte->mente sugere o perigo
o trabalho é a superaçao de dificuldades->soluçao para os problemas da mente
o esforço da mente afeta o corpo e o esforço do corpo afeta a mente
graus de sublime: assombro>respeito>admiraçao
porque é a unidade necessaria a vastidao: é a necessidade de identificar/entender o significado dos objetos que nos faz dedicar maior atençao e assim provocar o efeito do sublime sob a forma de admiraçao/contemplaçao (ex. arranha ceus)
"se pudermos compreender claramente como as coisas operam sobre um dos nossos sentidos, sera muito menos dificil imaginar como elas afetam os restantes"
um unico impulso nao nos impressiona tao profundamente como uma sucessao de impulsos similares
negrume=escuridao parcial
corpos negros enquanto 'espaços vazios'
exemplos de 'desfasamento' entre a mente e o corpo: "quando tentamos sentarmo nos numa cadeira e ela é muito mais baixa do que se espera, o choque e bastante grande, muito maior do que se poderia imaginar numa queda tao pequena como a que pode causar a diferença em altura entre uma cadeira e outra. Se, depois de descer um lanço de escadas, tentarmos inadvertidamente dar mais um passo como os anteriores, o choque é extremamente forte e desagradavel, nao havendo maneira de o reproduzir artificialmente, quando o esperamos e nos preparamos para ele" (exemplo da cadeira e das escadas)
o habito reconcilia-nos com todas as coisas
a causa fisica do amor: a beleza faz relaxar as fibras do nosso corpo, fazendo-nos sentir relaxados ->'materializaçao' do amor
efeito fisico do amor: "cabeça inclina se ligeirmanete para um lado; as palpebras fecham se mais do que costume e os olhos giram docemente, inclinando-se para o objeto; a boca entreabre se e respira lentamente, emitindo, de tempos a tempos, um suspiro discreto; o corpo acalma se a as maos caem molemente para os lados"
a doçura corresponde à "beleza" do paladar
objetos angulosos impedem o relaxamento das 'fibras oticas', dai que raramente sejam belos.
especiosidade=beleza associada a objetos de grandes dimensoes no mundo animal e vegetal
PARTE V
Entre outras coisas, as palavras associam objetos a sentimentos
As palavras podem ser divididas em 3 classes:
1) palavras agregadas=representam ideias simples (homem, arvore)
2) palavras simples abstratas=caraterizam ideias simples (alto, verde, redondo)
3) palavras abstratas compostas=caraterizam relaçoes entre as duas anteriores, nao constituindo essencias reais (virtude, honra)
os termos gerais ocorrem antes das ideias
"sabio, valente, generoso, bom e grandioso (...) Estas palavras, nao tendo aplicaçao, deveriam ser ineficazes. Mas, quando os termos reservados as grandes ocasioes sao usados, somos afetados até mesmo sem aquelas ocasioes"->somos afetados antecipadamente pelo significado das palavras mesmo antes de conhecer o contexto em que sao usadas! Ou seja, dizendo "bela casa", somos levados a considerar a casa como "bela", mesmo antes de verificarmos essa propriedade de "beleza" na casa
as palavras podem afetar nos sem suscitar imagens: "por mais estranho que possa parecer, muitas vezes somos incapazes de saber que ideias temos das coisas ou se, acerca de determinados assuntos, as chegamos a ter de todo". Exemplo do poeta Blacklock, cego de nascença -> "poucos homens abençoados com mais perfeita visao conseguem descrever os objetos visuais com mais vivacidade e precisao do que este cego"
"Mas e provavel que para ele, as palavras vermelho, azul, verde, servissem os mesmos propositos que as ideias das proprias cores" -> como imaginará um cego as cores?
a 'magia' da poesia está na sua subjetividade
a poesia sugere-nos ideias, enquanto a pintura oferece uma ideia clara das proprias coisas
a poesia nao imita a realidade pois sempre havera um distanciamente entre o significado das palavras e o verdadeiro significado da realidade.
a força da poesia para retratar emoçoes esta na conjugaçao da palavra, enquanto a forma mais eficiente de expressao, e na subjetividade, enquanto forma de comunicar sentimentos abstratos
"Pode se observar que as linguas muito requintadas e aquelas que sao louvadas pela sua superior clareza e perspicacia sao em geral desprovidas de força. a lingua francesa tem esta perfeiçao e este defeitoo. ao passo que as linguas orientais e a maioria das linguas faladas pelos povos nao cultivados sao possuidoras duma grande força e energia de expressao, o que e perfeitamente natural. os povos rudes sao observadores medianos das coisas e nao as distinguem de forma critica. mas, por este mesmo motivo, sentem uma dmiraçao maior e sao mais afetados pelo que veem e, portanto, expressam se duma maneira mais ardente e apaixonada"
Esta investigaçao filosofica procura justificar a origem daquilo que consideramos belo/sublime atraves das propriedades naturais daquilo que observamos e a forma como se refletem nas paixoes da nossa mente.