Joana Gorjão Henriques é, para mim, uma das melhores jornalistas de investigação portuguesas, e o mais absurdo é ter chegado a Racismo em Português depois de já ter lido outros livros seus, quando este talvez devesse ter sido dos primeiros. Enfim, nunca fui muito pelas ordens da vida. Há qualquer coisa no seu jornalismo que admiro particularmente: a capacidade de investigar temas enormes sem fazer desaparecer as pessoas dentro deles. Aqui, o colonialismo português é contado através de Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique, mas sobretudo através de quem vive com aquilo que ele deixou. E talvez seja precisamente isso que torna o livro tão desconfortável. Muitas das coisas que aparecem nestas páginas pertencem formalmente ao passado, mas é demasiado fácil reconhecer a sua continuação no presente.
Há uma ideia que atravessa praticamente todos os países do livro: uma política do esquecimento. Portugal parece ter conseguido construir uma relação extraordinariamente seletiva com a sua própria história colonial. Sabemos que tivemos um império, sabemos os nomes dos territórios, aprendemos os Descobrimentos, ouvimos falar da guerra colonial e das independências. Mas entre estes pontos existe um enorme espaço em branco. Quantos de nós aprendemos realmente como funcionavam aquelas sociedades? Porque é que nunca me ensinaram que em Angola e Moçambique existiram sistemas de segregação racial impostos pelo poder colonial português? Que as cidades podiam estar organizadas racialmente, com os brancos no centro urbano e as populações negras empurradas para as periferias? Que a assimilação significava também apagar línguas, nomes, roupas, formas de comer e referências culturais? Talvez parte do problema esteja também na forma como ensinamos esta matéria. Muito do primeiro contacto com o colonialismo acontece demasiado cedo para existir verdadeiro pensamento crítico e, quando voltamos ao assunto, voltamos muitas vezes à guerra e à descolonização, deixando décadas de organização racial da sociedade quase por discutir.
O capítulo de Angola foi dos que mais me impressionou. Descobrir a dimensão do papel da África Centro-Ocidental no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas foi daqueles momentos em que parei a leitura e pensei como é possível ter chegado à idade adulta sem saber isto. Mas talvez ainda mais perturbadora seja a descrição de uma sociedade colonial explicitamente organizada segundo a raça. A segregação era social, económica e espacial. E depois vinha a assimilação, essa violência mais silenciosa que obrigava alguém a aproximar-se do colonizador para poder ser reconhecido como suficientemente civilizado. O mais inquietante é perceber como algumas dessas hierarquias sobrevivem muito depois de desaparecer a lei que as criou. A ridicularização de roupas africanas, da comida, das línguas ou de determinados comportamentos mostra como a independência política não apaga automaticamente os valores culturais instalados durante décadas.
Foi impossível ler isto sem pensar também na minha própria experiência. Cresci com alguns colegas negros na primária, talvez um ou dois no liceu, e não me lembro de nenhum na universidade. A realidade mudou desde então, evidentemente, mas não tanto quanto seria desejável. E é aqui que a definição de racismo presente no livro me parece particularmente importante. Racismo entendido como um sistema de poder político, económico e social que beneficia determinados grupos raciais em detrimento de outros. Reduzi-lo exclusivamente ao preconceito individual permite ignorar precisamente aquilo que este livro documenta: instituições, leis, cidades, escolas, administrações e economias inteiras organizadas segundo hierarquias raciais.
Cada país acrescenta depois uma camada diferente a esta história. Na Guiné-Bissau, impressionou-me especialmente a questão dos nomes africanos que tinham de ser alterados e a posição particular dos cabo-verdianos dentro da administração colonial, criando uma espécie de intermediário entre colonizador e colonizado que deixou tensões para lá da independência. Também me ficou a reflexão sobre um sistema educativo feito numa língua estrangeira e a partir de referências que não pertenciam ao mundo de quem estava a aprender. Em Cabo Verde, é fascinante e perturbadora a discussão sobre mestiçagem, identidade e proximidade simbólica à Europa. A própria branquitude transforma-se em metáfora de sucesso e a tonalidade da pele chega a adquirir valor social e administrativo. A mestiçagem tantas vezes celebrada como prova da suposta tolerância portuguesa aparece aqui com toda a violência e desigualdade que essa narrativa convenientemente omite.
São Tomé e Príncipe talvez concentre alguns dos episódios mais brutais. O massacre de Batepá, em 1953, as condições das roças, o trabalho forçado e a hierarquia racial desmontam rapidamente qualquer fantasia sobre a excepcional suavidade do colonialismo português. E há uma ideia citada no livro que ficou comigo: o colonialismo estabelece uma relação de poder de uma cultura sobre outra. Parece evidente quando escrita assim, mas durante décadas Portugal conseguiu contar a sua experiência colonial através de palavras como encontro, miscigenação e intercâmbio, como se duas sociedades se tivessem simplesmente encontrado em igualdade de circunstâncias. Não estavam. Uma tinha o Estado, as armas, a administração, a Igreja, a escola e o poder de decidir qual língua se podia falar, quem podia ocupar determinados lugares e quais identidades tinham valor.
Moçambique volta a mostrar muitas dessas estruturas, da segregação à tentativa de substituição das línguas locais pelo português, mas também introduz uma reflexão interessante sobre o pós-independência e a tentativa de construir uma sociedade que não reproduzisse simplesmente a hierarquia racial anterior ao contrário. E algo se repete ao longo do livro: os antigos colonizados parecem saber muito mais sobre Portugal do que Portugal sabe sobre eles. Isto talvez seja uma das heranças mais reveladoras do colonialismo. Durante séculos, conhecer Portugal era necessário para sobreviver dentro do sistema; conhecer verdadeiramente aqueles sobre quem Portugal governava nunca foi uma obrigação equivalente.
Há também uma ideia de Hannah Arendt de que me lembrei várias vezes durante a leitura. Em As Origens do Totalitarismo, Arendt distingue o pensamento racial que já existia anteriormente da transformação do racismo numa verdadeira arma política do imperialismo. Essa leitura faz particularmente sentido aqui. O racismo colonial aparece menos como uma coleção de preconceitos individuais e mais como uma tecnologia de poder. Serve para classificar, administrar, explorar e justificar. Primeiro constrói-se uma hierarquia necessária ao projeto imperial e depois essa própria hierarquia passa a apresentar-se como natural.
Talvez seja por isso que considero Racismo em Português um livro tão importante. Porque obriga a substituir uma memória confortável por perguntas bastante menos confortáveis. E porque mostra como o famoso lusotropicalismo continua a funcionar mesmo quando já ninguém utiliza a palavra: na ideia persistente de que os portugueses foram diferentes, mais próximos, mais tolerantes, menos violentos, porque se misturaram com as populações colonizadas. A miscigenação, como este livro demonstra repetidamente através dos testemunhos que reúne, nunca anulou as relações de poder.
E talvez a pergunta mais incómoda fique precisamente para Portugal. A maior parte da sociedade portuguesa atual já nasceu depois do 25 de Abril e do fim do império, mas continua a herdar uma memória construída antes de si. Cinquenta anos depois, ainda conseguimos saber surpreendentemente pouco sobre Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe para um país que passou séculos a governá-los. Talvez seja essa a prova mais evidente de que a descolonização não termina quando se muda uma bandeira.
Cinco estrelas, sem hesitação. Um livro que eu devia ter lido muito antes e que devia ser lido muito mais.