As peças geralmente são curtas, algumas bastante desconexas. Outras seguem um enredo mais ou menos coerente, ainda que saltando rapidamente de uma situação a outra, com personagens completamente diferentes de um ato ao outro. Em geral são situações, caóticas, absurdas e cômicas, alguns com diálogos rimados, que servem mais como meio para criticar o governo, impostos, costumes, crenças, religião...
Encenados, os textos devem ser muito mais coerentes. Mas acho que é só conhecendo a biografia do autor e o contexto em que viveu que se pode ter a real dimensão do que Qorpo Santo criou. Numa Porto Alegre de meados do século XIX, um professor de escola, conservador, aparentemente sovina, depois de passar por juntas médicas para que seu estado de saúde mental fosse atestado, acaba judicialmente interditado porque escreve compulsivamente. Alguns anos depois, já considerado são, mas contraditoriamente ainda interditado, escreve várias peças de teatro que, na visão das pessoas da época, só confirmava a loucura do autor.
Numa época de romantismo e conservadorismo, as peças de Qorpo Santo, muitas com toques autobiográficos, são um delírio onde homens e mulheres têm vários amantes e expressam abertamente seus desejos sexuais. Alguns diálogos parecem uma cacofonia de vozes, as personagens falam mais para si mesmos do que com os interlocutores. Para a época, uma loucura. Hoje também! Só que uma loucura sob um outro ponto de vista, como criação de algo completamente novo, revolucionário, antecipando em alguns aspectos o que Kafka faria muitos anos depois, criação esta saída da cabeça de um habitante de uma cidade que estava completamente longe dos grandes centros intelectuais da época, sem ter contato com ideias e influências que pudessem ajudá-lo na sua criação revolucionária.