Desesperado para fugir de Curitiba, sua cidade natal e cárcere pessoal, o jovem escritor Daniel Hauptmann se entrega obsessivamente à tarefa que acredita ser sua tábua de salvação: produzir uma obra literária definitiva sobre o Demônio, que afirma nunca ter recebido uma representação adequada na literatura brasileira. O resultado o consagra ao posto de fenômeno instantâneo e o leva à elite da cultura nacional. O custo de sua empreitada, porém, torna-se uma sombra que se intensifica quanto maior seu prestígio e sucesso, transformando o rapaz brilhante e carismático em criatura niilista, temperamental e destrutiva. Entrelaçando de forma magistral personagens e situações reais da história da literatura brasileira do final do século XX às “vítimas e sobreviventes” de Daniel Hauptmann, o autor constrói uma instigante narrativa não linear que aos poucos desvenda a ascensão e queda de um autor atormentado por seus demônios pessoais – e, há quem suspeite, pelo próprio Demônio.
Não vou me surpreender se Até Você Saber Quem É (Record), de Diogo Rosas G., ganhar todos os prêmios da literatura brasileira. Não só é o melhor livro escrito por aqui em anos como também de alguns componentes que costumam agradar os jurados velhos de guerra destes prêmios. Algo me diz, porém, e peço desculpas pela pretensão, que o romance vai ganhar os prêmios por todos os motivos errados. Mas é sempre assim, não é?
Não que eu ou qualquer outro leitor possa um dia almejar ter o dom da leitura certa. Nada disso. A questão é que romances com Até Você Saber Quem É escondem, sob um manto de muitas qualidades óbvias (obviedades que rendem reconhecimento e prêmios, como metalinguagem, intertextualidade, aquela coisa toda), uma espécie de “faísca primordial” que é praticamente incomunicável e, por isso mesmo, irreconhecível e impossível de premiar.
(E, sim, este é o maior elogio que faço a um livro em muito tempo).
Esta faísca, por sinal, quase me escapa. Por puro e tolo preconceito. Quando o autor, para mim um desconhecido dos meios literários com o qual eu interagia remotamente em redes sociais, me disse que tinha lançado um livro e sobre o que era o livro, confesso que fui o mais babaca possível. Revirei os olhos, fiz carinha de enfado para o apartamento vazio. Já no obscuro O Cabotino eu falo da repulsa que sinto por estas historinhas de escritores frustrados falando da vidinha pequena deles. Para minha sorte e para a sorte de quem ousar atravessar as páginas do romance, porém, acho que dá para dizer que Até Você Saber Quem É é uma pequena obra-prima envolta neste falso clichê. Não seja babaca como eu, leitor.
Ao acompanhar a vida, obra, glória e desgraça de Daniel Hauptmann e seu fiel escudeiro, Roberto, o leitor avançará na tentativa de compreender o que aconteceu numa fatídica noite de morte, isto é, na tentativa de compreender os fatos que levaram a tal desfecho, só para descobrir que os fatos não importam muito. Até porque “glória” é uma palavra associada ao divino que o autor habilmente disseca até encontrar sua raiz inequivocamente diabólica.
No meio dessa travessia, contudo, não há veredas margeadas por buritis, e sim calçadas de petit-pavé pontuadas por araucárias. Diogo Rosas G. constrói uma Curitiba que é bem diferente da “província, cárcere e lar” de Dalton Trevisan ou do nascedouro de trocadilhos de Paulo Leminski. Curitiba é um inferno espiritual e intelectual de onde só se pode fugir (nem sempre fisicamente) fazendo um pacto com o diabo.
Disfarçado como romance de formação que alguns até mesmo pensarão ser policial, Até Você Saber Quem É exige que o leitor duvide dos personagens e de si mesmo o tempo todo. E há algo de profundamente divino nisso. Ao transferir para o leitor a ambição tola, ilusória e fadada ao fracasso da autodescoberta, o romance desabrocha como uma das obras mais ambiciosas que tive o prazer de ler neste cenário árido que é a literatura brasileira contemporânea.
Até mesmo aquilo que no meio da leitura cheguei (num arroubo de Aracy de Almeida que me é peculiar) a considerar um defeito, isto é, o estilo quadrado, quase uma aula de catequese gramatical, acaba por se revelar como uma qualidade do romance. Ao se despir da sintaxe cheia de firulas, o autor acaba por criar um canhão de luz que obriga o leitor a atentar para o que realmente importa: a danação dos personagens.
Pareço impressionado? Talvez impressionado demais? Posso até pedir perdão (não muito) pelas hipérboles. Que o leitor, porém, não ignore meu aplauso entusiasmado: Até Você Saber Quem É é literatura como raramente se escreve por aqui.
A resenha entusiástica do Paulo Polzonoff deixa pouco a acrescentar a este livro que foi lançado sem alarde nenhum, e que só chamou a minha atenção quando reconheci o nome do autor, que sigo em redes sociais e que não tenho a felicidade de conhecer em pessoa. Todos os elogios que o Paulo fez são justos - talvez tenha apenas esquecido de dizer que uma ou duas personagens (o editor Weiss, por exemplo) parecem à clef. Acrescento, como crítica pequena e até inútil, que os não familiarizados com a topografia de Curitiba podem se sentir perdidos e incapazes de imaginar os roteiros dos passeios do protagonista, e talvez isso faça falta para entendê-lo melhor (talvez, não sei). E ainda não sei se a omissão da cura da cegueira do narrador foi boa ou má. De resto, uma surpresa excelente, inclusive por ser um page turner daqueles.
Se o livro de Diogo Rosas tem defeitos seria trabalhoso enumerá-los, pois o que há de sobra são qualidades. Incomodamo-nos uma única vez com o romance.
Há uma falta de sutileza, evidente justamente por ser uma exceção: Daniel, o protagonista da biografia fictícia contida no romance, não parece ser, de início, tão genial quanto descobriremos. Depois até nos esquecemos de que o narrador gastou mais palavras que o necessário com sua aparente revolta adolescente-universitária, com pais chatos e controladores, com sua fragilidade solitária e introspectiva. Isto é corrigido assim que o narrador deixa de focar essas memórias familiares, que para alguns gostos podem beirar a redundância, e volta-se para Daniel, deixando-o falar -- mas este redirecionamento corretivo vem de supetão; daí a falta de sutileza. Só a partir da página 62, depois do lançamento de seu livro, a partir do diálogo pelas ruas entre ele e seu curioso entrevistador, começamos a conhecer os contorno definitivos de Daniel.
Daí em diante a condução não mais nos violenta, e cada novo capítulo passa a ser a resposta de dúvidas "naturais" (em literatura: dúvidas induzidas habilmente pelo escritor) da trama. Até a conclusão tudo parece ser uma sequência orgânica (nas duas linhas temporais) de pessoas e acontecimentos, não mais uma névoa que exige-nos dose extra de cumplicidade com o autor, permitindo-nos que, sobre personagens, ambientes e acontecimentos, não reste dúvida. Sobra-nos, na falta da dúvida defeituosa, as dúvidas induzida e simbólica. Entender sempre o que há, mas ter de pensar no que significa.
As questões metafísicas de Daniel são fundamentadas o suficiente para fazer-nos crer não só na possibilidade, mas na probabilidade de que alguém assim pensasse (ou pense). Não importa se tudo se sustenta sob exame crítico; o que importa é que, na falta de certas informações, ou com a presença de determinados contexto e predisposição, é perfeitamente humano pensar e agir como Daniel. E mais: para quem conhece o mínimo de filosofia e religião, a questão colocada não se resume a loucura e fixação, mas engloba a dúvida razoável entre aquelas e o servilismo demoníaco (ou mesmo uma possessão).
O livro também sabe divertir e recuperar o passado recente brasileiro. A inclusão da disputa entre Bruno Tolentino e um comitê quase soviético de assinantes de abaixo-assinados, determinados a calar um crítico heroico (Tolentino) pela quantidade de signatários covardes crendo que isto é um debate intelectual normal, apoiados pelo editor de Daniel (André Weiss) com o uso de argumentos herméticos e, no fundo (ou nem tanto), vaidosos e conscientemente mentirosos, merece elogios. Daniel não se curva; André é submisso (faz parte do clube do dono da bola da rua, digamos); Roberto é um apaziguador inocente que, para não contrariar, aceita os argumentos de André como se fossem excelentes. Quanta coisa isto não representa?
O professor Raposo (segundo Daniel a única pessoa que conhecia a qual sabia o que queria da vida), por sua vez, é uma representação atenciosa do establishment acadêmico brasileiro entre 1950-1990 (tempo do livro, mas sabemos que isto continua até os dias atuais). A Academia costuma ser representada majoritariamente por burocratas-cientificistas que vivem de citações, com contribuições marginais ou mesmo nulas ao conhecimento, enquanto louvam-se como grandes doutores possuidores de dezenas de papéis pintados -- que fazem deles autoridade nisso ou naquilo. Isto é verdade, sim, mas aqui, em Raposo, Rosas dá atenção a um outro tipo: mais recluso, não tem essa fixação por papéis e "ciência"; no máximo alega este ideal de academia por provocação externa. Na prática, porém, não esconde quais são seus objetivos: estabelecer organizações que sejam braços de poder revolucionários. Fundar grupos de estudo e incendiar alunos que se destacam para liderar os demais. Ou seja, Raposo não é intelectual, não é ideólogo, mas um militante institucionalizado, alguém que recebe para fazer exatamente isto e que cumpre as obrigações burocráticas apenas para justificar formalmente o cumprimento de seus deveres (no caso, como professor e acadêmico de Filosofia do Direito). Isto se resume na orientação de Raposo a Daniel: que o inteligente aluno deveria parar de ler tanto e agir.
Devemos também evocar a Curitiba de Rosas. Conheci a Curitiba "moderna", por volta de 2010. O autor conseguiu nos levar à Curitiba nefasta de Daniel, dos anos 80 e 90, e depois contextualizar as mudanças para o progresso que depois seria propagandeado por todo o país. Não se limita, porém, a replicar a propaganda: deixa-nos saber a raiz materialista da mudança -- a mesquinharia que há em todo lugar, mas que muitas vezes só os locais conhecem (talvez regra invertida para casos como o Rio de Janeiro: todos sabemos o que há de podre, e precisamos que os moradores nos contem o que há de bom... se há).
De volta a André Weiss: Rosas superou a possível tentação de fazê-lo um clichê esperado, um Buarque genérico. Apesar de viver à base de amizades com gente importante, um esnobe chique que odeia o dinheiro enquanto ama tudo o que o dinheiro o permite acessar, André é uma pessoa realmente interessante e não mero mostruário de defeitos.
Daniel teve namoradas, com maior destaque para Juliana. Não há nada de muito envolvente acerca de nenhuma delas, que parecem funcionar em função de Daniel, pequenas luas de um astro atraente. Porém, para as dimensões e fins do romance, não cremos que seria necessário dar maior espaço a nenhuma delas. Cito para lembrar algo que ensina o professor R. Gurgel: escrever mais que o necessário não é uma qualidade (referindo-se a contos, mas percebemos que em um romance pode-se aplicar a personagens secundários sem nenhum problema).
Temos a impressão de que Daniel não agrada nem desagrada. O foco não parece ser a pessoa de Daniel, mas o movimento que o leva a ser e fazer tudo o que fez. A sucessão de fatos parece levá-lo como um fraco sem direção, embora seja um tanto impositivo a outras pessoas. Talvez esteja aí a desgraça de Daniel: embora fosse um carrasco, um torturador com suas palavras, um insensato, era também um escravo dos movimentos exteriores (ao que tudo indica, principalmente metafísicos). Perfeitamente resistente a pessoas (inclusive as que poderiam ajudá-lo), mas absolutamente incapaz de resistir às dificuldades da vida e às potestades. Ou ainda um voluntário neste processo de degradação pessoal, detentor de uma capacidade de escolher (com ajuda do demônio?) quase sempre o caminho errado. Rosas nos ensina com Daniel mais o que não devíamos ser e fazer do que o contrário, e isto parece-nos essencial.
Por fim, cremos que o romance é uma obra a ser comemorada, uma obra para "literatos" (segundo a definição de C. S. Lewis em "Um experimento em crítica literária"). Fornece-nos a vida e a metafísica, fornece-nos questões para resolvermos e, com elas, tomarmos esta ou aquela postura real, a mudança de vida que a Religião chama de Conversão. Em um país sem tradição cultural, cada volume de literatura que não seja "de aeroporto" deve ser comemorado, presenteado e, estamos certos, servir de inspiração para a escrita de livros ainda melhores -- como faziam os escritores do passado, considerando o que há de melhor como um desafio pessoal.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Nunca tinha passado pela experiência de ler um livro ambientado num lugar tão familiar quanto as ruas do centro de Curitiba, os arredores da reitoria, as praças, as livrarias. Li de uma vez só, com pausas ocasionais para buscar e folhear livros nas estantes - Grande Sertão, Tezza, história dos anos 90 - e entrar mais ainda na narrativa. Dá uma imensa curiosidade e vontade de ler o livro sobre que a obra fala, de Daniel Hauptmann - baita provocação do autor! Intertextos e referências prazerosíssimas pruma ex-estudante da reitoria, tipos humanos tão característicos dessa experiência! Leitura excelente, que terá de se repetir após uma releitura do Guimarães.
Estreia incrível. Bem ambientado no período e com personagens bem construídos apesar de ser curto.A ruína do personagem principal é angustiante e o desfecho por meio de narrativa não linear ajuda a manter o mistério. Recomendadissimo