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Trecho da obra:

"Já o rio liso o enervava, o estirão da ilha defronte, a marcha de uma barraca noutra margem Dentro do açaizal. Seu pai era o dono daquele rio, daquela terra e daqueles homens calados e sonolentos que, nos toldos das canoas, ou pelas vendas, esperavam a maré para içar as velas ou aguardavam quem lhes pegassem a cachaça. Na cidade, longe da vila, quanta noite de champanhe, espremido do suor e do sangue daqueles caboclos, dos vaqueiros que fediam a couro e a lama ouvindo nos campos os tambores do Espirito Santo.

Invejava em certas horas o que os Salmões faziam na fazenda em Chaves; as brutas farras com caboclas, delegados de polícia, promotores de justiça, tabeliães, tesoureiros municipais e carne de novilha gorda assando na brasa debaixo das árvores. Missunga sentia-se como aquela tarde, oco e morno. A pequena igreja olhando o rio, o coreto, os banquinhos do largo, dois benjamins que Coronel plantara no dia da Pátria e os guris jogando pião. Em Paricatuba o mato dava-lhe um receio sem nome. Naquelas verdes espessuras estava a fatalidade, espiando entre os paus, assobiando com os quinquiós. Missunga apanhara no ar a grande palavra: Fatalidade, para explicar os champanhes, o surdo-mudo que o seu parente Guilherme explorava, a morte do garçon e as crônicas do Manfredo.

Dois guris, que se atracavam por via do pião, o atraíram.

Missunga, vivamente, gritou como sempre gritava aos seus cachorros:

- Êta! Isca! Isca! Ei! Isca!

A gurizada fechou o círculo.

- Golpeia, Pedrinho!

Missunga divertia-se. Seus gritos excitavam os guris que rolavam na poeira, sujos e escuros como porcos."

***
“Marajó”, em qualquer língua, é literatura brasileira. Mas não é apenas pela sua fidelidade ao ambiente que merece apreço: mas pela sua força descritiva, plena de verdade e de beleza, pela sua maneira de fazer viver a gente que povoa as suas páginas, pela realidade com que traduz os laços sociais que a dominam. Tudo isso é literatura da melhor espécie.”
- Nelson Werneck Sodré, historiador.

“ … Dalcídio Jurandir é um mestre telúrico.
Marajó é um belo romance, pois ninguém melhor do que Dalcídio Jurandir nos comunica a sensação de deserto, do lobo, do calor deliqüescente daquela imensa solidão de nuvens baixas e verdes malhadas que é Marajó. O estilo empolga, com as suas asperezas, seus regionalismos, suas soluções poéticas de um primitivismo expressivo, sua ausência de malícia.”
- Sérgio Milliet, escritor.

“ Marajó é um volume feito com a verdade cotidiana, com a paisagem exata, com as fisionomias possíveis da existência. E o seu melhor elogio para um etnógrafo.”
- Luís da Câmara Cascudo

490 pages, Paperback

First published January 1, 1947

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About the author

Dalcidio Jurandir

15 books13 followers
Dalcídio Jurandir Ramos Pereira (Ponta de Pedras, ilha do Marajó, Pará, 10 de janeiro de 1909 — 16 de junho de 1979) foi um romancista brasileiro.

Estudou em Belém até 1927. Em 1928 partiu para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como revisor na revista Fon-Fon. Em 1931 retornou para Belém. Foi nomeado auxiliar de gabinete da Interventoria do Estado. Escreveu para vários jornais e revistas.

Militante comunista, foi preso em 1936, permanecendo dois meses no cárcere. Em 1937 foi preso novamente, e ficou quatro meses retido, retornando somente em 1939 para o Marajó, como inspetor escolar.

Escreveu para vários veículos e acabou como repórter da Imprensa Popular, em 1950. Nos anos seguintes viajou à União Soviética, Chile e publicou o restante de sua obra, inclusive em outros idiomas.

Em 1972, a Academia Brasileira de Letras concede ao autor o Prêmio Machado de Assis, entregue por Jorge Amado, pelo conjunto de sua obra.

Em 2001, concorreu com outras personalidades ao título de "Paraense do Século". No mesmo ano, em novembro, foi realizado o Colóquio Dalcídio Jurandir, homenagem aos 60 anos da primeira publicação de Chove nos Campos de Cachoeira.

Em 2008, o Governo do Estado do Pará instituiu o Prêmio de Literatura Dalcídio Jurandir.

Em 2009 comemorou-se o centenário do escritor.

Escreveu:

Série Extremo-Norte:

Chove nos Campos de Cachoeira (1941)
Marajó (1947)
Três Casas e um Rio (1958)
Belém do Grão Pará (1960)
Passagem dos Inocentes (1963)
Primeira Manhã (1968)
Ponte do Galo (1971)
Os Habitantes (1976)
Chão dos Lobos (1976)
Ribanceira (1978)

Série Extremo-Sul:

Linha do Parque (1959)

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Displaying 1 - 3 of 3 reviews
Profile Image for André Sá.
50 reviews1 follower
August 15, 2016
Nossa se o Chove nos Campos de Cachoeira é sobre chuva, Marajó é sobre raízes. O livro se enraiza na cabeça, no peito e no umbigo... Livrão
Profile Image for Gabriel Kovach.
Author 2 books13 followers
March 20, 2024
“Quem plantou as mangueiras que estavam ali em fila, misturando o luar nas seivas, colhendo a noite para curiosidade de suas raízes?

o Dalcídio sabia de muita coisa antes da gente
Profile Image for Neide Kertzman.
105 reviews7 followers
October 11, 2016
Um dos livros mais belos e mais difíceis que já li. Dalcídio Jurandir escreve de maneira torta e poética sobre a vida em Marajó, usando personagens complexos e muito interessantes. As relações entre brancos e não brancos, o poder do dono de terras sobre o povo sofrido, doente e desesperançado, tudo descrito em meio à natureza exuberante e violenta. O papel da mulher na sociedade e nos campos é bastante explorado e o sofrimento das mulheres pobres, ribeirinhas, pode quase ser sentido na pele durante a leitura.
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