O assunto do livro foi o que me atraiu para a sua leitura. A capa, quiçá mais apropriada para os romances histórico-eróticos muito em voga, garantia-me que não seria um compêndio demasiado académico, antes um livro de divulgação histórica. Quanto a isso não havia problema, até porque ao folheá-lo pude perceber que também não era História demasiado light.
Parti, então, para a leitura entusiasmado por ir mergulhar mais a fundo naquele mundo de ferro e sangue que terá sido o do início da Reconquista e, quanto a isso, as minhas expectativas não saíram defraudadas. Ia ler um texto sobre um assunto que, na historiografia e nos programas escolares de História portugueses, é tratado ou pelo menos sentido como algo que nos é exterior, o que sempre me deu a sensação de que por trás da nossa abordagem muito superficial e redutora haveria algo mais intimamente ligado a nós. Com efeito, tratado por um espanhol, este assunto ganha outra importância, pois é, afinal, o período que em Espanha consideram o início da sua História. Ler este livro deu-me uma compreensão mais aprofundada de algo que seria como nós descobrirmos mais a fundo o período da conquista da independência de Portugal. E, no entanto, é um período de tão grande importância também para nós, Portugueses. Confirmei o que já sabia, de resto.
Infelizmente, reconheço que fica muito por dizer sobre outros aspetos do período em causa, pois que se cinge essencialmente ao discorrer de factos políticos e bélicos, entrando por outros campos apenas quando estes eram imprescindíveis para enquadrar aqueles. Porém, o título é elucidativo: trata-se de recontar a grande aventura do Reino das Astúrias, pelo que é óbvio qual será a tónica do discurso.
Nota-se que o autor fez uma aturada pesquisa, o que é bom. No entanto, não deixa de se notar rapidamente qual é a sua facção: o lado dos cristãos - os bons - que se opunham aos árabes - os maus. Teria preferido um pouco mais de imparcialidade. A negação tão taxativa da boa convivência entre os 3 povos do Livro deixou-me definitivamente convicto de que, quem quiser ter uma visão mais completa deste período, terá de consultar outras perspectivas sobre o assunto...
A leitura foi mais lenta do que previa, perturbada por demasiadas marcas de oralidade e, especialmente, pelas excessivas repetições e recapitulações e resumos do que fora falado antes, que tornavam amiúde o texto enfadonho. Uma tradução muito fraca, a deixar transparecer a sintaxe espanhola no texto português, e a falta de revisão do texto, que se apresenta cheio de gralhas e bastantes erros, completam um quadro que não abona nada a favor da classificação a atribuir ao livro. Vale pelo interesse do assunto (abstraindo-nos da parcialidade manifesta do autor) e não pela beleza da escrita e do prazer que dá lê-la.