Um pequeno extracto, deste belo livro de Maria Isabel Barreno, para deliciar os leitores: «Para relatar a história dos meus, e a minha, as linhas que vieram determinando e colorindo nossas existências e também essas escuras cavernas do tempo que a memória não consegue explorar, recorrerei a todos os relatos que ouvi e li. Mas usarei sobretudo a minha imaginação, porque só essa luz de cada um de nós ressuscita os mortos e as sombras do passado. Meu pai julgava crer que a luz maior era a do raciocínio, mas este apenas nos conduz a um mapa, a um olhar distante. Penetrar a carne macia dos acontecimentos, o pulsar sanguíneo de cada segundo tal como de facto existiu nas veias de cada um, só é possível com essa parente etérea do amor, com esse espelho transparente e sublimado de nossas paixões, a imaginação.»
MARIA ISABEL BARRENO nasceu em Lisboa, a 10 de Julho de 1939. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Faculdade de Letras de Lisboa. Trabalhou no Instituto Nacional de Investigação Industrial, foi jornalista e Conselheira Cultural para os Assuntos do Ensino na embaixada portuguesa em Paris (1997-2002). Publicou um total de 24 obras, entre as quais dez romances e quatro livros de contos. Participou também em diversas antologias de contos e recebeu os prémios Camilo Castelo Branco e do Pen Club Português para o livro de contos Os sensos incomuns, e o prémio Fernando Namora para o romance Crónica do tempo. Em 2009, publicou o seu último romance Vozes do Vento, sobre a história dos antepassados do seu pai em Cabo Verde. Publicou ainda ensaios de índole sociológica sobre a condição dos trabalhadores e, em especial, da mulher. Foi condecorada, pela Presidência da República, com o Grande-Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique, em 2004. Faleceu a 3 de Setembro de 2016.
Muito parecido na estrutura a "Crônica do Tempo", há também aqui um fascínio pela personagem do "liberal empreendedor", neste caso a figura histórica de um governador de Cabo Verde durante o século XIX. A relação entre portugueses e escravos explora-se na simbologia e hierarquia que cada personagem vai ganhando na saga familiar. A família, que cresce e se espalha pelas várias ilhas do arquipélago, representa varias das contradições da história da colonização portuguesa.
Belo romance histórico que relata a vida de Manuel António Martins, colonizador de Cabo Verde que deixou profundas marcas e vasta prole naquele arquipélago africano. Por vezes algum excesso de informação histórica arrasta a narrativa, mas é uma leitura muito agradável.