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A Morte da Mãe
Vénus, nascida das águas, sorridente e húmida, era do melhor que se podia encontrar do lado dos rostos femininos. Juntamente com a Virgem Maria, que nunca me atraiu, sempre com aquela garantia de ser a única mulher completamente asséptica, sempre pintada de louro e de azul e com uma expressão expectativa que atingia a estupidez. Só mais tarde tentei decifrá-la.
368 pages, Paperback
Published January 1, 1989
About the author
Maria Isabel Barreno
40 books32 followersMARIA ISABEL BARRENO nasceu em Lisboa, a 10 de Julho de 1939. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Faculdade de Letras de Lisboa. Trabalhou no Instituto Nacional de Investigação Industrial, foi jornalista e Conselheira Cultural para os Assuntos do Ensino na embaixada portuguesa em Paris (1997-2002). Publicou um total de 24 obras, entre as quais dez romances e quatro livros de contos. Participou também em diversas antologias de contos e recebeu os prémios Camilo Castelo Branco e do Pen Club Português para o livro de contos Os sensos incomuns, e o prémio Fernando Namora para o romance Crónica do tempo. Em 2009, publicou o seu último romance Vozes do Vento, sobre a história dos antepassados do seu pai em Cabo Verde. Publicou ainda ensaios de índole sociológica sobre a condição dos trabalhadores e, em especial, da mulher. Foi condecorada, pela Presidência da República, com o Grande-Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique, em 2004. Faleceu a 3 de Setembro de 2016.
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Community Reviews
Displaying 1 - 3 of 3 reviews
June 4, 2021
Por causa do título, "a morte da mãe", comecei a ler este livro equivocada sobre o assunto de que trata. Tenho verificado com alguma surpresa que há vários livros sobre a morte do pai, contudo, só conheço um sobre a morte da mãe, "Uma morte suave", de Simone de Beauvoir. No caso de "O estrangeiro", de Albert Camus, a morte da mãe serve apenas para caracterizar o protagonista. Admito que possa haver muito mais livros escritos sobre a morte da mãe, que desconheço, mas esta quase ausência surpreende-me.
"A morte da mãe" é um ensaio (há quem fale em romance-ensaio) em que a autora, Maria Isabel Barreno, tenta justificar ou perceber a génese do sistema patriarcal no qual vivemos, e fá-lo percorrendo a história e os mitos, em diálogo com autores, como Marx e Engels, ou contestando Freud e até alguns contos infantis, como o Bambi. Em diálogo também com mulheres, algumas que a acompanham na sua procura, outras que dela divergem.
Enuncia logo na primeira página o objetivo que a norteia quando pergunta, depois de repetir a história ou as palavras que lhe ensinavam e ela aprendia:
- ONDE ESTÃO AS MULHERES?
E depois de lhe explicarem que as mulheres têm ficado em casa, fazendo filhos e tricot, pergunta porque é que as mulheres ficaram em casa e porque é que desapareceram nessa sombra linguística. Já adulta, quando interpelada pelo filho pequeno, percebe que a História dos homens está nos livros; mas a história das mulheres só é decifrável ao longo de cada vida. A primeira, a história dos homens começa com maiúscula, ao contrário da história das mulheres, remetendo-nos a primeira para a história retida e ensinada, pública, ao contrário da outra, privada, escondida.
Ao longo do percurso encontra e aponta as causas para a secundarização e privatização das mulheres e reclama o direito à história, à presença e às palavras:
"Deixadas sem discurso, nós, mulheres, deveremos apropriar-nos de todas as palavras. Apropriação do sexo, do prazer, da designação culta, da designação oculta, do palavrão. Toda a escrita é tentativa de inscrição no real: do já dito, do sussurrado, do silenciado. E aqueles que verbalmente chegam ao espaço público têm de se apresentar suficientemente confiantes, suficientemente amparados num "nós" coletivamente reconhecido, para que suas palavras possam ser entendidas."
E mais à frente, ainda a propósito das palavras, escreve:
"As palavras, embora subordinadas à racional construção da frase, muito continuam a significar e a prometer. A nova ejaculação racional é a invenção do "neutro": texto que trata do "Homem", com dimensão de ser humano, e que na verdade apenas se refere aos homens."
“A morte da mãe” acaba com o que Maria Isabel Barreno designa de “Os caminhos das mulheres”:
“Podemos imaginar o contrário. Que um dia seremos tocadas pela visão (…) onde tudo é ao contrário. As mulheres mandam e têm capacetes e dinheiro, e são elas que fazem viagens interespaciais; porque os orgasmos femininos se tornaram, nos sonhos, nas visões de “ficção científica”, indispensáveis à produção.”
Apesar de ser um livro datado, gostei bastante de o ler, talvez porque me identifique com aquela pergunta inicial: ONDE ESTÃO AS MULHERES?
Gostei também pelo facto de o ter descoberto na biblioteca dos meus pais e perceber que a minha mãe o tinha lido e sublinhado partes que me pareceram especialmente relevantes, como se mas estivesse a mostrar.
"A morte da mãe" é um ensaio (há quem fale em romance-ensaio) em que a autora, Maria Isabel Barreno, tenta justificar ou perceber a génese do sistema patriarcal no qual vivemos, e fá-lo percorrendo a história e os mitos, em diálogo com autores, como Marx e Engels, ou contestando Freud e até alguns contos infantis, como o Bambi. Em diálogo também com mulheres, algumas que a acompanham na sua procura, outras que dela divergem.
Enuncia logo na primeira página o objetivo que a norteia quando pergunta, depois de repetir a história ou as palavras que lhe ensinavam e ela aprendia:
- ONDE ESTÃO AS MULHERES?
E depois de lhe explicarem que as mulheres têm ficado em casa, fazendo filhos e tricot, pergunta porque é que as mulheres ficaram em casa e porque é que desapareceram nessa sombra linguística. Já adulta, quando interpelada pelo filho pequeno, percebe que a História dos homens está nos livros; mas a história das mulheres só é decifrável ao longo de cada vida. A primeira, a história dos homens começa com maiúscula, ao contrário da história das mulheres, remetendo-nos a primeira para a história retida e ensinada, pública, ao contrário da outra, privada, escondida.
Ao longo do percurso encontra e aponta as causas para a secundarização e privatização das mulheres e reclama o direito à história, à presença e às palavras:
"Deixadas sem discurso, nós, mulheres, deveremos apropriar-nos de todas as palavras. Apropriação do sexo, do prazer, da designação culta, da designação oculta, do palavrão. Toda a escrita é tentativa de inscrição no real: do já dito, do sussurrado, do silenciado. E aqueles que verbalmente chegam ao espaço público têm de se apresentar suficientemente confiantes, suficientemente amparados num "nós" coletivamente reconhecido, para que suas palavras possam ser entendidas."
E mais à frente, ainda a propósito das palavras, escreve:
"As palavras, embora subordinadas à racional construção da frase, muito continuam a significar e a prometer. A nova ejaculação racional é a invenção do "neutro": texto que trata do "Homem", com dimensão de ser humano, e que na verdade apenas se refere aos homens."
“A morte da mãe” acaba com o que Maria Isabel Barreno designa de “Os caminhos das mulheres”:
“Podemos imaginar o contrário. Que um dia seremos tocadas pela visão (…) onde tudo é ao contrário. As mulheres mandam e têm capacetes e dinheiro, e são elas que fazem viagens interespaciais; porque os orgasmos femininos se tornaram, nos sonhos, nas visões de “ficção científica”, indispensáveis à produção.”
Apesar de ser um livro datado, gostei bastante de o ler, talvez porque me identifique com aquela pergunta inicial: ONDE ESTÃO AS MULHERES?
Gostei também pelo facto de o ter descoberto na biblioteca dos meus pais e perceber que a minha mãe o tinha lido e sublinhado partes que me pareceram especialmente relevantes, como se mas estivesse a mostrar.
August 5, 2025
Neste ensaio, a Maria Isabel Barreto tenta perceber a génese da sociedade patriarcal no qual nos encontramos e perceber o porquê das mulheres “desaparecerem na sombra linguística” dos homens. A autora pergunta em letras maiúsculas na primeira página “ONDE ESTÃO AS MULHERES?” e passa, de certa forma, o resto do livro a responder a esta pergunta e a dissecar e explorar as diversas conclusões a que chega, dialogando com variados pensadores contemporâneos (Marx, Engels, Freud).
Vou deixar aqui algumas das minhas citações favoritas.
“(...) Mas frisemos que todo o solo da civilização foi adubado e regado pelo suor, pelo sangue e pelas lágrimas das mulheres, e que a invenção única dos homens, grotesco paralelo da invenção do pénis na evolução da sexualidade dos animais machos, foi a da propriedade privada e da exploração.”
“(...) o grande perigo; muito mais assusta o acesso das mulheres ao equivalente geral.”
“Havia algum tempo que eu estava sozinha: obstinava-me em falar, mas ninguém me ouvia. Comecei a importar-me pouco com o que dizia: o que eu queria era produzir sons que me livrassem daquele silêncio.”
Gostei muito!!! Sou uma grande fã de cada uma das Três Marias.
Vou deixar aqui algumas das minhas citações favoritas.
“(...) Mas frisemos que todo o solo da civilização foi adubado e regado pelo suor, pelo sangue e pelas lágrimas das mulheres, e que a invenção única dos homens, grotesco paralelo da invenção do pénis na evolução da sexualidade dos animais machos, foi a da propriedade privada e da exploração.”
“(...) o grande perigo; muito mais assusta o acesso das mulheres ao equivalente geral.”
“Havia algum tempo que eu estava sozinha: obstinava-me em falar, mas ninguém me ouvia. Comecei a importar-me pouco com o que dizia: o que eu queria era produzir sons que me livrassem daquele silêncio.”
Gostei muito!!! Sou uma grande fã de cada uma das Três Marias.
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