Sob o mesmo teto é a história de Calíope e João Augusto, que por uma força do destino, foram parar na mesma cidade, com a mesma blusa (com poema de Carlos Drummond de Andrade) e na mesma família. Confundiu? Deixa que eu desconfundo.
A mãe da Calíope, ao se apaixonar pelo terceiro marido, o viúvo bonachão João Otávio, convence os filhos a se mudarem do Rio de Janeiro para Assunção, no Paraná, onde ele mora, com a sua família. Assim, as duas famílias vão parar... sob o mesmo teto. Bem estilo os seus, os meus, os nossos. E já viu que as mudanças de cenário estão recorrentes, né? Essas famílias com mania de mudança...
Mas não é a isso que o título se refere, e sim à situação complicadíssima em que os dois irmãos postiços se encontram. Eu não desejaria isso para o meu pior inimigo. Quer dizer, qualquer um que tenha tido primos que se envolveram, sabe a confusão que dá, sem falar no clima chato, caso os dois se separem. Agora imagina morando juntos na mesma casa? Imagina isso em uma família recém-formada, com 12 filhos! Gente, só de imaginar ter 11 irmãos da noite por dia, minha cabeça já começa a zunir.
Não pensem que a bizarrice da situação passou batida para Calíope e João Augusto. A princípio, eles tentam sufocar os sentimentos e a atração mútua. Mas logo, a paixão toma conta dos dois e os dois fãs da série “De volta para o futuro” não conseguem mais esconder o que sentem um do outro. Beleza, agora só precisam esconder do resto da família.
Agora vamos à crítica. Do que eu gostei no livro?
Foto promocional, Duplo Sentido Editorial
Um: a narrativa e os personagens. A Bruna Fontes tem o dom de fazer com que a gente goste de todos os personagens, até os que eram para ser meio detestáveis, como a Stella e a Hipólita. Não existem vilões na história, a não ser as circunstâncias (bastante) desfavoráveis. Por falar em criar laços entre o leitor e a obra, a história também é crível. Não tem finais utópicos, bolsas de estudo mágicas que surgem do nada... as coisas que acontecem com eles podem acontecer com qualquer um, e as decisões tomadas pelos personagens não me deixaram com raiva nenhuma vez. Na verdade, a personalidade dos dois fez com que eu quisesse ser amiga do casal, e já estava me apaixonando pelo irmão da Cali, o Hélio.
Dois: A voz narrativa. A história é contada de dois pontos de vista e sotaques distintos, do João Augusto (Guto) e da Calíope, o que nos permite ter uma visão mais completa dos fatos.
Três: Sob o mesmo teto é cheia de referências nacionais e internacionais, e nem falo de músicas aqui e ali, porque isso já virou lugar comum. As referências já começam pela Calíope e os irmãos, filhos de uma professora de História especialista em cultura Grega. Além disso, tem a banda Pixie Roxy, de outro livro dela, o La la Land (sim, igual ao filme, mas não é a mesma história, e é bem mais antiga do que o filme).
Quatro: Refletindo o jeito de pensar da própria autora, suas protagonistas são maduras, independentes e feministas. Digo isso porque me apaixonei primeiro pelo “Entre(o)postos”, que ainda se encontra na plataforma, o qual é uma continuação desse, mas funciona sozinho. Tanto a Calíope quando a Lavínia são maravilhosas, vitaminadas e empoderadas. Além disso, não competem com outra mulher (ou homem) por causa de macho, porque, né? Caído isso.
Cinco: A capa. As cores são chamativas e atraentes. Os elementos principais das vidas de Calíope e João estão lá: O filme "De volta para o futuro", a pipoca, o ipod da Calíope e a sua coleção de balões em miniatura.
Sob o mesmo teto é um livro lançado sob o selo: Duplo sentido editorial. A Duplo Sentido foi criada por cinco mulheres de áreas distintas, com uma nova proposta no mundo editorial. A logo é um arroba com um gatinho, justamente um símbolo da interação do jovem do século XXI com a internet e a literatura vivida por ele. Não se trata de uma grande editora, é até bem nova, sendo lançada em julho de 2016), mas os seus livros são de excelente qualidade, também em termos de material (falou a viciada em cheiro de livro novo).