Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010, Ivone Benedetti lança pela Boitempo seu segundo romance, o arrebatador Cabo de guerra, que invoca fantasmas do passado militar brasileiro pela perspectiva incômoda de um homem sem convicções transformado em agente infiltrado. No final da década de 1960, um rapaz deixa o aconchego da casa materna na Bahia para tentar a sorte em São Paulo. Em meio à efervescência política da época, que não fazia parte de seus planos, ele flerta com a militância de esquerda, vai parar nos porões da ditadura e muda radicalmente de rumo, selando não apenas seu destino, mas o de muitos de seus ex-companheiros. Quarenta anos depois, ainda é difícil o balanç como decidir entre dois lados, dois polos, duas pontas do cabo de guerra que lhe ofertaram? E, entre as visões fantasmagóricas que o assaltam desde criança e a realidade que ele acredita enxergar, esse protagonista com vocação para coadjuvante se entrega durante três dias a um estranho acerto de contas com a própria existência. Assistido por uma irmã devota e rodeado por uma série de personagens emersos de páginas infelizes, ele chafurda numa ferida eternamente aberta na história do país. Narradora talentosa, Ivone Benedetti tem pleno domínio da construção do romance. Num texto em que nenhum elemento aparece por acaso e no qual, a cada leitura, uma nova referência se revela, o leitor se vê completamente envolvido pela história de um protagonista desprovido de paixões, dono de uma biografia banal e indiferente à polarização política que tanto marcou a década de 1970 no Brasil. Essa figura anônima será, nessa ficção histórica, peça fundamental no desfecho de um trágico enredo. Neste Cabo de guerra, são inúmeras e incômodas as pontes lançadas entre passado e presente, entre realidade e invenção. Para mencionar apenas uma, a abordagem do ato de delação política não poderia ser mais instigante para a reflexão sobre o Brasil contemporâneo.
O romance apresenta uma estrutura de enredo cansativa e um narrador que não chega a ser cativante (falta um apelo emocional, tanto para o lado do amor quanto para o asco). Esses fatos acabam dificultando que a leitura do romance "engrene".
No entanto, recomendo esse romance para todos, pois considero de suma importância para nosso tempo. A recriação histórica da cidade de São Paulo, entre as décadas de 1950-1980, e dos diferentes agentes que participavam da ditadura, é primorosa, jogando uma luz sobre o que ocorria naquele período histórico. Para quem não viveu a época é interessante ver a relação entre militares, aristocracia paulista e o povo recriada no romance.
Outro ponto interessante é o narrador escolhido pela autora: um cachorro (gíria dos militares para o militante da luta armada que, traindo seus companheiros, punha-se a serviço da ditadura como espião), que permite o enredo se desenvolver entre os dois grupos (militantes e militares), além de desenvolver uma pergunta que assombra a cabeça de vários leitores: "Como alguém era cooptado para trabalhar para o regime, de maneira voluntária?".
Vale a leitura, para compreensão do período histórico e reflexões sobre como pessoas comuns participam de atrocidades (a banalidade do mal).
Quem quiser uma outra opinião, sugiro as breves palavras do Bernardo Kucinski:
O livro demora demais pra acontecer, mas melhora muito no final. O protagonista é muito bem construído para ser um narrador não confiável e uma pessoa horrível, que age apenas em benefício próprio e faz coisas horríveis por não ter convicção alguma e se deixar levar pelas circunstâncias. Provavelmente um dos mais complexos que eu já li. A ambientação no período da ditadura militar foi muito bem trabalhada ao longo da narrativa, e achei interessante o fato de a autora escolher esse contexto para desenvolver um personagem absolutamente impossível de simpatizar, mas que ao mesmo tempo não se resume ao que esperaríamos em vários momentos.
O livro cresceu muito para mim na última parte, mas foi muito difícil chegar até o final, tanto pela personalidade do protagonista (mesmo eu já esperando isso), que por vezes torna a narrativa um pouco repetitiva, como pela EXTREMA LENTIDÃO do começo do livro. O fato de os acontecimentos da sinopse só se iniciarem quase na metade do livro é um exemplo disso (até aí o livro se foca em situações que eu considerei desinteressantes, e só se tornam importantes no último terço da história). Também não tenho certeza se a alternância entre passado e presente funcionou para mim nesse caso, uma vez que eu senti que isso só me tirava da história.
Apesar disso, fiz muitas marcações, e reconheço que as temáticas abordadas são de importância fundamental atualmente, e que as reflexões que fiz enquanto lia me acompanharão depois da leitura.
A minha expectativa sobre Cabo de guerra era outra. Mais uma vez por culpa minha levei uma rasteira. Não é um livro ruim, mas o seu foco narrativo não me agradou. Talvez o livro em primeira pessoa tenha ajudado nisso.
A autora conseguiu construir um personagem extremamente comum para mostrar em certos aspectos a banalidade do mal. Ele estava ali fazendo o mal, mas não se importava muito. Era o seu trabalho espionar e denunciar. O foco não é construído nas violências, mas como pessoas comuns também podem fazer mal as outras.
Há poucas passagens onde são descritas torturas. Mas as poucas geram um incômodo significativo. Enfim, apesar de não ter curtido muito ainda considero o livro interessante.
Um livro histórico, especificamente sobre o período da ditadura no Brasil, com um personagem extremamente marcante. Um personagem "normal", sem nenhuma característica marcante -a não ser a normalidade e a falta de características marcantes.
O jeito de escrever da autora é bastante peculiar, de uma forma descritiva que foge do óbvio em muitos momentos.
gostei do livro mas acho que ele prometia ser algo mais. Na minha opinião muitas situações que mereciam destaque ficaram muito rasas, enquanto há relatos menos interessantes que se alongam mais. Faltou ainda explorar mais o grande mote do livro, o conflito moral de estar ao lado da ditadura e dos manifestantes...Bom livro mas deixou gosto de que poderia ser melhor
"Cabo de guerra?, de Ivone Benedetti, carrega dois pesos insuportáveis, amparados, ou melhor, desamparados pela guerra, que em nenhum lugar ou momento é positiva, amadora ou trivial, é sempre a força brutal que aniquila a vida e o espaço. Os pesos, humano e social, se chocam, como dois machados em riste, que eclodem a todo instante para extrair as variantes de uma ditadura, cultura e história, trazendo à tona uma representação e discussão mais avançada sobre esse período, revelando as consequências de existir diante as ruínas físicas, psíquicas e de pensamento. Ao tomar consciente o ato de existir onde precisa estar, Benedetti examina o ponto neutro da essência do que nos tornamos diante de um sistema político e histórico, que retrai tudo que somos ou podemos ser. O caráter, quando julgamos a personagem principal por denunciar e ser informante da Ditadura, resvala nessa neutralidade paradoxal. Claro que discuto aqui uma neutralidade mentirosa, farsante, mas é a palavra que consegue partir para outra escala, a que pretende chegar ao que a personagem evoca, a consciência dos que moravam na sombra, e, talvez, seja nesse breu o abrigo das verdades. Ao situar o leitor a partir da covardia, Ivone também recria um reduto de contrários ao criar mecanismos na linguagem que penalizam o leitor pelos julgamentos contra o "cachorro" - personagem principal -, tornando mais um exame sobre a condição humano no Brasil, que é - ou se torna - seguramente esquivo, pronto para atuar, sem torturas ou mansidão. O combate que a autora propõe é o da imagem que esse cachorro cria e recria, temporalmente, em nossas mentes. Nos fazendo enfrentar a realidade contemporânea. O jogo de palavras empresta ao horror impregnado nos escombros da memória ou do conhecimento, virtudes que não respeitam lágrimas ou rebeldia, mas criam atos de coragem para enfrentar esta história e a História, destruindo a inércia do pensamento literário ao contrapor com trevas a escuridão dos tempos de chumbo