«Neste primeiro volume, Álvaro Cunhal é, durante parte do tempo, uma personagem secundária, e a sua emergência no centro do poder faz-se de uma forma tumultuosa. A sua biografia ainda não coincide com a do PCP, como acontecerá depois dos anos quarenta. […] A história que este primeiro volume relata é um reverso pouco conhecido do Portugal oficial do estado Novo - as pessoas, os eventos, as grandezas e as misérias são de um Portugal outro que é importante ver como comunica ou se desprende da imagem de uma país parado no tempo, onde nada se move e não acontece nada, onde o Bem prospera e não há conflitos. […] Quer como indivíduo, quer como representante de uma das grandes ideologias do nosso tempo, a sua influência na história do século XX compara-se à de Afonso Costa, Salazar, ou Soares. Como cada um deles, foi um referencial, uma figura de culto, objecto de admirações sem dúvidas e ódios longos. Espero que com esta biografia, por via do conhecimento da vida de um português raro, se possam compreender melhor alguns dos fios que teceram a história portuguesa.»
JOSÉ PACHECO PEREIRA nasceu no Porto, a 6 de Janeiro de 1948. Licenciou-se em Filosofia, em 1978, pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem ainda o Curso Complementar de Ciências Pedagógicas. Foi desde muito novo participante activo em movimentos políticos de oposição ao anterior regime. Recolheu, classificou, organizou e estudou de forma sistemática documentação sobre a vida política portuguesa. Foi deputado pelo Partido Social Democrata durante três legislaturas, tendo sido líder parlamentar deste partido. Foi membro da Delegação da Assembleia da República à Assembleia da NATO e Presidente do Subcomité da Europa de Leste e da ex-URSS da Comissão Política da Assembleia do Atlântico Norte. Foi também Vice-Presidente do Instituto Luso-Árabe de Cooperação e Vice-Presidente do Parlamento Europeu entre 1999 e 2004.
Primeiro de quatro volumes da monumental biografia política de Álvaro Cunhal, pelo historiador José Pacheco Pereira. O primeiro, de 1913 a 1941 foi publicado em 1999, com Cunhal ainda vivo. De leitura compulsiva, permite também uma ampla compreensão do contexto histórico e político de uma época marcada pelos estados totalitários e das ideologias em confronto. Mas sobretudo a clandestinidade dos partidos ilegais. Cunhal ainda desenvolveu uma vida “regular”, mas tanto os que o antecederam,assim como ele, acabaram por sacrificar as vidas particulares. Há o mito Cunhal, presente nas biografias apologéticas e partidárias, ao mesmo tempo que eram apagados registos dos dissidentes e opositores. Por isso este livro é importante, pela verdade que repõe e por ser muito difícil chegar a fontes que permaneceram muito tempo clandestinas e em actividade clandestina. Mas Cunhal foi também um intelectual, escritor e pintor - a ele se juntaram colegas da universidade. Com ele o partido mudou na década de quarenta, após um período de indefinição por força das constantes prisões. Este primeiro volume termina com a invasão da Alemanha nazi à União Soviética, em 41, o que após o pacto de não agressão foi um golpe. Mas Cunhal ainda acreditava na História
“Não esperarei de mim a paz! Quanto mais me afundo Maior é a minha ânsia de me salvar-me! Que quando mais um golpe me decepa Maior é a minha força de lutar!”
Em bom rigor, este livro é uma história do movimento comunista internacional, essencialmente dos anos 30-40, sendo que cunhal surge como verdadeira personagem principal apenas no seu início
Conseguia ter apreciado mais este livro se o Pacheco Pereira não tivesse escrito certos artigos de opinião para o público 🤪
Lúcido e abrangente como sempre, Pacheco Pereira faz uma biografia de Cunhal e do que o envolvia na altura, contando então também a História da repressão, das relações do PCP e suas organizações com a URSS, a História do próprio PCP e dos seus membros mais importantes: Bento Gonçalves, Pavel e José de Sousa.
O livro demonstra também o espírito mártir, de sacrifício extremo e quase religioso que os comunistas do Século XX tinham perante a revolução marxista. Espírito esse que se foi perdendo após o 25 de Abril.
Muitas conclusões podemos retirar deste livro, mas só lê-lo vale a pena.