As convicções marxistas de Álvaro Cunhal levam-no a reduzir toda a realidade à luta de classes e a uma visão política do mundo em que todo o confronto e toda a divergência, de um modo maniqueísta, se consubstanciam numa luta estática (à maneira transcendente da luta entre o Bem e o Mal) entre fascistas e antifascistas, revolucionários e contra-revolucionários. A análise da realidade de Cunhal está contaminada por estes dogmas. O PCP (o Bem) esteve sempre certo; os outros (em especial, Mário Soares, o Mal) estiveram sempre errados. Como caminha no sentido certo e científico da História, o PCP está condenado a vencer, sejam quais forem as adversidades por que passe. O resultado final destes pressupostos é um livro muito fraquinho, escrito para dentro, para os fiéis, tentando segurá-los, num tempo em que eles começavam a desacreditar e a desertar. Pelo que sabemos hoje, o objectivo não foi alcançado, mesmo que algumas críticas de Cunhal fossem certeiras e pertinentes.
Pelo meio, há omissões e silêncios significativos. Acusa-se Salazar de nazi-fascismo, por ter uma fotografia de Mussolini na secretária e ter decretado luto nacional pela morte de Hitler, mas não se dedica uma linha ao pacto germano-soviético.