A poemaria borgeana
Desconheço melhor tradutor de tantas coisas como Borges. A poesia sempre me pareceu mais espontânea do que qualquer outro tipo de escrita, e, para mim, era isso que tinha valor. Borges prova aqui que o espontâneo e o esforço podem andar juntos.
Dotado de um manancial de conhecimento aparentemente inesgotável, Borges traça aqui algo de extrema dificuldade: fazer com que cérebro e corpo sintam ao mesmo tempo, afetem-se conjuntamente. Poesia normalmente é para o corpo, é aquilo que te arrebata sem você entender, é algo íntimo e inexplicável - Borges nos leva por tudo isso aqui, mas também nos propõe charadas e labirintos (como as veredas que se bifurcam em suas Ficções) que elevam todo afeto causado pela intimidade de algumas de suas passagens. Sinto uma conexão especial, geográfica e cultural, com Borges - da minha cidade para a sua, pouco mais de 600km; suas referências culturais primárias coincidem com as minhas em vários pontos (é assim nessa grande pátria formada pelo norte argentino, todo Uruguai e Rio Grande do Sul): Martín Fierro, o tango, o campo e a milonga talvez sejam as mais expressivas delas; talvez até por isso tenha gostado tanto desse livro. Ele me propôs que eu me visse por alguém exterior, que, mesmo assim, possui convergências… imagino que todo bom trabalho literário tenha um pouco disso, até com autores que são de ambientes e possuem vivências completamente diferentes das nossas.
Comprei este livro na minha primeira semana vivendo sozinho, terminei ele há poucos dias; ele me acompanhou por vários momentos e fases nesse ano e meio. Foi para a estante, voltou para a cabeceira, foi inúmeras vezes para a bagagem de mão, e voltava à estante. Agora, retorna novamente para a companhia de seus compadritos argentinos na última prateleira, aguardando, tranquilamente, os momentos em que eu busque em suas antologias algo que não consigo expressar, mas preciso escutar.
Meu único reclame é concerne a tradução: peca em vários momentos, mas… sempre é assim com poesia. Por isso, sugiro esta edição bilíngue da Companhia das Letras.
Deixo vocês com um pequeno trecho de um dos meus poemas favoritos do livro, entitulado ‘1964’:
‘Ya no es mágico el mundo. Te han dejado.
Ya no compartirás la clara luna
Ni los lentos jardines. Ya no hay una
luna que no sea espejo del pasado,
cristal de soledad, sol de agonías.
Adiós las mutuas manos y las sienes
que acercaba el amor. Hoy sólo tienes
la fiel memoria y los desiertos díás.
Nadie perde (repites vanamente)
sino lo que no tiene y no ha tenido
nunca, pero no basta ser valiente
para aprender el arte del olvido.
Un símbolo, una rosa, te desgarra
y te puede matar una guitarra.’
Abrazos