Da autoria do líder do Partido Comunista Português Álvaro Cunhal, sob o pseudónimo de Manuel Tiago, o livro trata da resistência dos comunistas à ditadura de Salazar e Caetano e das prisões políticas e as perseguições da PIDE/DGS.
Pseudónimo literário de Álvaro Cunhal, que com ele assinou obras de ficção, designadamente Até Amanhã, Camaradas (1975), Cinco Dias, Cinco Noites (1975) e A Estrela de Seis Pontas (1994, adaptado para cinema por José Fonseca e Costa). A verdadeira identidade de Manuel Tiago só foi confirmada aquando da publicação deste último romance. Durante anos, muito se especulou acerca da autoria das obras.
Gostei do livro por ter sido lido em conjunto com a suspeita do costume, Cristina, e por ser do Álvaro Cunhal, autor que nunca tinha lido, e que foi uma importante figura da resistência à ditadura.
Em termos de história, ou melhor de histórias, já que o que este livro nos traz são algumas das facetas dos presos encerrados n' A estrela de seis pontas e do funcionamento da prisão. Nada de muito aprofundado, apenas temos uma pequena ideia dos motivos pelos quais foram presos, do que vão fazendo na cadeia e das relações com os outros presos. Houve uma história que fixei e que me deixou de boca aberta quando se deu uma reviravolta, para mim, inesperada. Mas é muita gente e muitas histórias e, sinceramente, não fixei o nome de ninguém. Ah, talvez do Mata-a-velha.
PT Um pequeno livro que demorou a conquistar-me, e só mesmo na parte final começou a satisfazer-me como leitora. No início, os curtos capítulos funcionavam quase como vinhetas, caracterizando um ou mais presos, o seu crime ou passado, ou narrando situações avulsas. Eram "imagens" fugazes que pareciam não se entrelaçar numa narrativa coesa. A quantidade de personagens e situações tornou difícil fixar nomes, alcunhas, números, o que claramente me impediu de me envolver nestas páginas.
No entanto, aos poucos, e apesar de nada mudar na estrutura escolhida pelo autor, a visão de conjunto começou a formar-se para mim. Uma amálgama diversa de histórias de vida, experiências únicas num contexto marcado por privações em todos os níveis, desde os mais básicos até aos afetos. Trata-se de uma prisão portuguesa, do tempo da ditadura, cuja riqueza e complexidade na diversidade humana individual e social são únicas. Um livro e uma leitura conjunta (com a minha companheira de leituras de sempre - obrigada Fátima por mais esta!) que me enriqueceram muito enquanto leitora.
ENG A small book that took its time to win me over, and only in the final part did it start to satisfy me as a reader. At first, the short chapters functioned almost like vignettes, characterizing one or more prisoners, their crime or past, or narrating isolated situations. They were fleeting "images" that seemed not to intertwine in a cohesive narrative. The number of characters and situations made it difficult to remember names, nicknames, numbers, which clearly prevented me from becoming involved in these pages.
However, gradually, and despite nothing changing in the structure chosen by the author, the overall picture began to form for me. A diverse amalgam of life stories, unique experiences in a context marked by deprivations at all levels, from the most basic to those of affection. It is a Portuguese prison, from the time of the dictatorship, whose richness and complexity in individual and social human diversity are unique. A book and a joint reading (with my "lifelong" reading companion - thank you, Fátima, for this one!) that enriched me greatly as a reader.
A leitura deste livro produziu em mim diversas reflexões sobre um igual número de temas dos quais possuía opiniões relativamente condicionadas e pouco ponderadas. A minha visão sobre o cárcere e o seu significado, ou sobre a dimensão humana, inequívoca, do presidiário, por exemplo, foi sendo transformada ao longo destas páginas e acredito, sinceramente, ter-me tornado num melhor ser humano, mais justo e com maior sensibilidade, no final.
A construção do livro é inteligente e adequa-se na perfeição à transmissão da mensagem. Trata-se de um romance realista, muitíssimo bem escrito, com um formato de “álbum de fotografias”. Com efeito, a cada capítulo, um novo retrato é tirado a diferentes perspetivas do cenário. Este tipo de formato corre frequentemente o risco de produzir um texto conjunto sem unidade ou conexão o que, decididamente, não ocorre nesta obra. É como se, pelo contrário, cada fotografia se sobrepusesse à anterior e, assim, todas empilhadas, formassem um quadro rico em pormenor e detalhe, que nos permite extrair uma visão geral e, em última análise, uma mensagem clara e poderosa.
Num pequeno livro acerca da vida dos presos numa penitenciária durante o tempo da PIDE, Manuel Tiago (Álvaro Cunhal) consegue revelar-nos tanto as semelhanças com a vida quotidiana como os maiores contrastes.
Cunhal recorda-nos que por trás de cada prisioneiro está um ser humano (como diria Orwell, uns mais que outros), que têm as suas relações interpessoais e uma história por detrás. Condenados por uma lista finita de crimes, as circunstâncias que os levam à prisão são infinitamente diferentes. Já dentro desta uns definem-se pelo crime que cometeram, outros pretendem dar um rumo diferente às vidas deles. Mas todos são condicionados pelas condições desumanas do sistema.
A penitenciária é um espaço fechado, isolado fisicamente do exterior, mas que se consegue assemelhar a este em muitas formas ao espelhar as condições do sistema em que todos vivemos, o capitalismo. Apesar de todos viveram no mesmo espaço, o tratamento é diferenciado. As maiores críticas são dirigidas aqueles que procuram utilizar a religião para benefício próprio (contrariamente ao que pensam dos comunistas, o ataque não é ao religioso, mas aos vícios da religião), aos que se aproveitam de uma rede de conhecimentos que lhes concede uma estadia mais leve, e à forma como lidam com os opositores do regime instaurado, mais dura que ao maior dos violadores.
Variados os temas desenvolvidos nas conversas entre os reclusos, talvez os mais populares o amor e o sexo, que levam a situações humorísticas e deprimentes. Outro tema que apesar de não muito desenvolvido, foi a meu ver dos mais bem conseguidos, a ciência, com o confronto entre o informado e o ignorante.
Concluindo, uma leitura rápida, mas cheia de conteúdo, que nos apresenta uma visão singular da vida dentro de uma prisão, que só poderia ser oferecida por alguém que vivenciou em primeira mão as injustiças que lá dentro ocorrem, mas que não estão longe do que se passa na sociedade em geral.
O final do livro também é especialmente forte, principalmente nos tempos que correm.
This novel takes place in the Lisbon Central Penitentiary during the fascist years where the repression outside of prison walls was almost as fierce as inside. Unlike some of Manuel Tiago's (pseudonym of Álvaro Cunhal) other works, this is not a political novel but instead the portrayal of several lives behind bars. The author itself spent some time incarcerated at the same place where the action occurs, so some of the details are based in its own experiences. With a very simple and fluid writing, the narrator presents us several characters and the necessary facts for us to understand who they are and how that affects their behavior inside four walls. A simple book that will present a unknown face of life to many of the readers.