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Cães

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«- porque me está sempre a olhar?
- não estou sempre a olhar-te, tu é que apareces sempre no mesmo sítio.
- está então sempre a olhar o mesmo sítio.
- à hora a que chegas estou sempre a olhar o mesmo sítio.
- devia distrair-se.
- o que queres dizer?
- por exemplo, olhar de vez em quando o quintal.
- no quintal, nada acontece a horas certas. Não podemos confiar nele.

o homem fecha os olhos e muito lentamente ergue a faca do pulso: sente uma dor transversal.

- vai-te embora
diz a mulher

ele levanta-se, atravessa a cozinha, segue pelo corredor, abre a porta, e sai.»

184 pages, Unknown Binding

Published April 1, 1999

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About the author

Rui Nunes

47 books30 followers
Escritor português e professor de Filosofia, Rui Nunes nascido em Novembro de 1947. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Lisboa e enveredou pela actividade de escritor em paralelo com a de professor de Filosofia, na Escola Secundária Rainha D. Amélia, em Lisboa.
Na década de 60, passou pelos jornais, tendo visto censurados muitos dos trabalhos.
Com muitas dificuldades, publicou o seu primeiro livro As Margens em 1968, tendo que suportar as despesas da edição. Contudo, a sua actividade literária só assume continuidade a partir de 1976, quando, depois de ter regressado da Austrália, em 1974, publica Sauromaquia.
Imprimindo à sua escrita um discurso de características próprias, Rui Nunes não nega a influência de escritores que a vida lhe foi permitindo conhecer, nomeadamente Kafka. Temas como a dor, a doença e a morte são recorrentes nos seus livros.
Porém, e apesar desta temática recorrente que flúi na sua obra, o autor assume o acto de escrita como uma forma de sublimar a dor e com preciosos e comprovados (por ele) poderes terapêuticos. Por isso, gosta e tem prazer em escrever.
Leitor da obra de Agustina Bessa-Luís, Maria Velho da Costa, Maria Gabriela Llansol e de José Saramago, entre outros. Rui Nunes aprecia também outros géneros artísticos, nomeadamente o cinema (Bergman) e a música (Barroca e Jazz), admitindo que estes podem suscitar-lhe o gosto pela escrita. Premiado, em 1992, com o Prémio do Pen Club Português de Ficção, atribuído ao seu livro Osculatriz, os seus novos títulos foram sempre, saudavelmente, apreciados pela crítica literária.
Considerado por Manuel Frias, membro do Júri que atribuiu ao seu livro Grito, em 1998, o Prémio GPRN (Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE)), "uma das estrelas mais brilhantes da constelação literária portuguesa - ocultada, tantas vezes pelas nuvens do fácil e do óbvio", Rui Nunes entende que o sucesso de um livro não se prende com a quantidade das vendas, mas sim com o "espaço de cumplicidade" entre autor e leitor que é capaz de criar.

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Profile Image for Lee.
171 reviews
June 21, 2018
"o que vejo pela ultima vez és tu, morto, deitado, somente o sitio de um nome, a cama tão grande invade esse sitio, os vizinhos vêem televisão e tu estás aqui, morto, os carros descem a rua, travam bruscamente a experimentar os travões, e tu estás aqui, morto, as crianças brincam às escondidas, sobem a correr as escadas, e tu estás aqui, morto, as mães debruçadas do corrimão dizem caluda, e tu estás aqui, morto, e eu não sei o que hei-de fazer com a tua morte, eu tenho de a participar, dizer que tu morreste a gente que registará a tua morte e acabará toda a tua história, eu tenho que te vestir para que fiques verdadeiramente morto, porque neste momento que a morte te fixou num gesto de vida, é preciso que eu destrua esse gesto que sejam memória de vida, é preciso que fiques um corpo sem gestos, então, olharei para ti e pela primeira vez direi: estás morto, e sentar-me-ei na cadeira do quarto à espera, a ver-te nesta cama"

"não sei, por vezes invento que me deito com alguém, mas não consigo imaginar um corpo e dou comigo a dizer baixinho: estou deitado com um tipo, são unicamente palavras, ficaram-me unicamente palavras, quando choro é porque digo a palavra triste, é ela que me faz chorar, ou o teu nome, quando digo o teu nome recordo-me de mim a chamar-te, e o que me falta é a tua voz a preencher o silêncio do fim do teu nome, então só posso voltar a dizê-lo para que este corpo ainda sinta a vida ínfima da ausência, o mundo é teu nome que eu digo, a espaços, para não afastar muito essa palavra, para a conseguir recordar, tão pouca coisa"

"longe é uma palavra que me afasta de mim e me atira para um tempo, este, em que o desejo me torna um criminoso e adquire todos os nomes da acusação, eis-me sentado, as mãos sobre os joelhos, as pernas abertas, o cabelo a cair-me para a testa, linhas cinzentas que atravessam o mundo como finíssimas linhas de fractura, vejo-me respirar porque essas linhas movem-se no silêncio da minha visão, e olho em frente todas as palavras que me acusam, a idade torna-me um réu, já não posso amar sem um nome colado à cara, este corpo flácido, esta pele rugosa, este bloco de silêncio que se forma quando me calo, estes olhos engelhados por uma luz seca, não amam, só pervertem, sujam, conspurcam, se faço um gesto, esse gesto transforma-se numa nódoa, sobre a cabeça do rapaz uma nódoa indelével, a ternura tornou-se suspeita, a suspeita é o meu envelhecimento, leio nos jornais os crimes de todos os meus gestos e por isso os meus gestos não chegam a ser: ficam na paragem da intenção com medo de um nome,

pouco a pouco afastaram-me para um tempo parado, para a proibição dos sorrisos e dos gestos, e eu fico nesta cadeira a ouvir lá fora um burburinho, correrias, gritos e sirenes de ambulância, estou na cozinha e a luz entra pela janela da sala, vem pelo corredor e sai pelos vidros da marquise, é uma luz ruidosa que transforma a casa num lugar vulnerável, sem recantos nem zonas sombrias, exposta à denúncia, onde me abrigar neste interior de paredes friáveis, de vidros finos, de tinta quase branca onde a luz se deposita? esta casa tem fome de luz"
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