A experiência da leitura deste livro aproxima-se à de um balé do qual se faz parte como espectador bailarino, deslizando-se da densidade de um encontro incendiário às lágrimas que inundarão os olhos em horas impróprias. Uma voz fala de contatos intermitentes (em palcos e na vida) como quem divide segredos e confessa um atraso. Mas, quando se expressa, reorganiza o tempo e já não há espaços vazios. Mesmo quando as engrenagens do corpo rangem, uma desmedida de afetos inventa o possível no romance impossível. Suspendem-se assim os hiatos entre a mulher de dedos longos que contam notas de dinheiro encharcadas e o homem que enxerga ali uma dança de Pina Bausch – e entre eles e nós.
Muito interessante a construção deste livro. Eu normalmente tenho implicância com a obsessão que a literatura contemporânea tem com relacionamentos amorosos, mas este foi um caso em que o tema não me incomodou. Muito bonito e triste. Gostei muito.
ficamos atentos ao murmúrio da saída do evento e algumas pessoas dizem, em tom de desprezo, "mas era só um livro!". mas precisa sempre ser algo além disso? não pode às vezes ser uma coisa só?