Na pequena narrativa “A verdade sobre Sancho Pança”, descobrimos que Sancho Pança conseguira afastar de si o seu demônio oferecendo-lhe inúmeros romances de cavalaria e de salteadores nas horas do anoitecer e da noite. Assim ocupado com romances, e, portanto, na falta de um objeto predeterminado (que deveria ser precisamente Sancho Pança), o demônio, nomeado mais tarde D. Quixote, fora de controle, realizou os atos mais loucos, os quais, no entanto, a ninguém prejudicaram. Sancho Pança, um homem livre, acompanhou imperturbável, talvez por certo senso de responsabilidade, D. Quixote, retirando de suas variações um grande e proveitoso divertimento até o fim de seus dias. Genial essa reescrita em poucas linhas da monumental obra de Cervantes. Em “Blumfeld, um solteirão de meia-idade”, descobre-se a topologia kafkiana quando as duas bolas de celulóide se metamorfoseiam em dois jovens ajudantes que só atrapalham a organizadíssima vida do solteirão. Enfim, “Durante a construção da muralha da China”, o autor compara a forma como os chineses organizaram os recursos humanos para a planejada muralha contra os povos do norte e a forma que os recursos humanos, o alicerce, falhou durante a construção da torre de Babel. Teria algo a ensinar para os líderes ocidentais atualmente, quando assistimos como os chineses foram eficientes contra o COVID-19. Reencontramos o Kafka poeta e filósofo nessas peças que ele não quis publicar, a morte prematura teria impedido o aperfeiçoamento da forma escrita, imprimindo nas narrativas a sua marca, a brevidade, como é o caso do “Investigações de um cão”?