One of the world's greatest sopranos tells her story, from her childhood growing up backstage at the opera through her debut at the age of 23 and her five-decade career.
Astrid Varnay (with Donald Arthur), Fifty-five Years in Five Acts – My Life in Opera, Northeastern University Press, Boston, 2007
Para qualquer amante da arte lírica e, em especial, de Wagner e Richard Strauss, o nome de Astrid Varnay é incontornável e sinónimo de profunda admiração. Varnay, com ascendência húngara, nascida na Suécia e criada nos Estados Unidos da América, foi uma das mais apreciadas e admiradas sopranos dramáticas do século XX, a grande Brünnhilde da década de 50 em Bayreuth, porventura a mais fascinante e maléfica Ortrud, uma Isolde muito apreciada (mas, infelizmente, raramente captada em disco), intérprete de eleição de Elektra e Salome e, em momentos posteriores da sua carreira, de Klytämnestra e Herodias. Mas também fora do repertório germânico Varnay granjeou grande sucesso em papéis como Mamma Lucia (Cavalleria Rusticana) e Lady Macbeth, sendo ainda grande adepta dos compositores seus contemporâneos, interpretando em palco muito regularmente obras de Orff, Werner Egk, Honegger e Kurt Weil. Toda esta vida riquíssima em experiências e reflexões podemos seguir nesta magnífica autobiografia. Desde o momento em que os pais se conheceram até à sua retirada dos palcos, acompanhamos 55 anos de carreira e, ao mesmo tempo, grande parte da história do século XX. Para além das experiências nos palcos e fora deles, das influências, amizades, supostas rivalidades, descobertas, desilusões, dificuldades, Varnay dá-nos o seu testemunho do contacto com figuras como Kirsten Flagstad (amiga da família e grande impulsionadora da sua carreira, por quem sempre manteve uma admiração incondicional), Mauritz Melchior, o seu marido e professor Hermann Weigert, Dmitri Mitropoulos, Hans Hotter, Gerhard Stolze, Martha Mödl, Hans Knappertsbusch, Helen Traubel, entre tantos outros. A difícil relação com o então director do Met, Rudolf Bing, que levou ao seu afastamento desse teatro durante longos anos, as vicissitudes da sua relação com Karajan em Bayreuth e mais tarde em Salzburg, a sua admiração profunda pelos irmãos Wieland e Wolfgang Wagner, de tudo dá testemunho, sempre com grande elevação, embora sem nunca amenizar os seus juízos críticos. Para além da vertente biográfica, Varnay aproveita para partilhar com o leitor as suas ideias sobre os papéis mais emblemáticos que encarnou, designadamente no repertório straussiano, bem como para explicar a sua preparação técnica e dispensar alguns conselhos para quem se queira lançar na carreira lírica. O livro foi escrito originalmente em inglês, ou melhor, em inglês dos Estados Unidos (a verdadeira língua materna de Varnay), o que é bem perceptível no recurso frequente a construções frásicas e a expressões tipicamente norte-americanas, o que confere um colorido especial ao discurso. O livro termina com um quadro de todo o repertório cantado por Varnay, com a indicação do número de vezes que cantou cada papel, bem como com uma discografia virtualmente completa. Em suma, uma leitura extremamente interessante para quem se interesse pela arte lírica e por conhecer melhor a vida e contexto de uma das suas figuras mais emblemáticas do século XX.
One of the books I have had enjoyed the most this year . It is clear that Astrid's memoirs are substantially well served by Donald Arthur's skilled writing.