Jean Bottéro – No princípio eram os deuses
E no princípio eram os deuses.
Este título reflete bem o espírito do conjunto de textos de Jean Bottéro, onde de forma elegante, envolvente e apaixonada nos descreve o que terá sido a primeira civilização com registo escrito dos seus costumes, hábitos e temores, marcando dessa forma uma linha temporal que separa a era do Homo sapiens num períodos antes e o outro, aquele em que espreitamos por cima do ombro e nesse registo escrito nos maravilhamos com a luminosidade dessa civilização.
Tendo como tema central a invenção do divino, a evolução desse conceito até aos nossos dias, e a forma como o homem se relacionou com os deuses, Jean Bottéro descreve-nos, ainda que sucintamente, como foram descodificados aqueles caracteres cuneiformes e de que forma a interpretação dos cerca de meio bilião de textos que aos nossos dias chegou contribuiu para o conhecimento que julgamos ter da civilização mesopotâmica.
A nossa cultura, as nossas raízes, tenham elas vindo pelos gregos ou pelos hebraicos têm origem comum nessa civilização que com mais de 5000 anos de existência, nos surpreende pela sua riqueza cultural e noções de urbanidade. É dessa civilização que as nossas raízes emergem e ganham a estabilidade sustentada na nossa civilização ocidental. É dela, das nossas raízes que nos refletimos numa imagem semelhante nos temores, anseios e objectivos em tudo idêntico ao que podemos no homem em cinco milénios de civilização.
Bottéro nesta sua coletânea de artigos publicados na revista L’ Histoire descreve-nos o quotidiano dessas gentes, o que bebiam, o que comiam, como cozinhavam, como festejavam e como celebravam as suas divindades. Dos seus registos em escrita cuneiforme, e dos quais o autor faz uma leitura clara, precisa, e uma interpretação isenta, mostra-nos a grande riqueza dessa civilização. Uma civilização que há 35 séculos tinha compilado o mais antigo tratado médico que se conhece. Um registo que abordava a doença tanto pelo seu lado médico, com o Asû (o equivalente ao médico contemporâneo) que prescrevia as mezinhas e os talismãs necessários à recuperação do corpo e do espírito, como pelo lado mágico através do exorcista (forma de tratamento da responsabilidade dos religiosos dos templos) os quais exorcizavam ao males e assim libertavam o corpo e espírito da acção de espectros e fantasmas (estes eram os habituais executores dos castigos divinos e os veículos pelos quais os deuses ofendidos faziam notar o seu descontentamento).
Mas é na forma como os homens “inventaram” Deus e na forma como esta invenção influenciou a nossa civilização, que se constitui o core desta coletânea de artigos, cuja leitura espelha de que forma o que seria a tradição cultural desses povos nesses tempos influenciou os registos escritos em obras como o “Gilgamés” ou “O poema do Supersábio” (1700 AC). A leitura destes textos transmite-nos uma ideia clara do que era a vivência espiritual desses povos, de que forma souberam ter na escrita uniformizar múltiplas narrativas, e de que forma esses textos acabaram por influenciar outras experiências de índole religiosa.
E no princípio eram Deuses. Uns os Anunnaki, a escol, os outros, os que trabalhavam e proviam as necessidades de todos, os IgIgi. E como sempre, sempre havia quem subsistisse à custa de outros, até ao momento que a revolta surgiu. Com esta os “Anunnaki” foram privados das suas mordomias. Incapazes de autossuficiência, e sob proposta de “Ea”, Deus da lucidez, inteligência e astúcia, propôs a Enil (Deus supremo), um plano astucioso para criar os homens. Feitos de argila, à argila deveriam retornar quando não fossem mais úteis (morrer significa regressar à argila!). Mami a Deusa sábia executa o plano e cria o protótipo. Quatorze deuses criam sete pares de exemplares, sete homens e sete mulheres. Curioso o número sete que se repete em várias lendas e narrativas dos mesopotâmios (como a representação do mundo com três planos acima, três planos no submundo e a terra com o plano dos homens), e também é assumido como os dias da criação no genisis.
Criados os homens tornaram-se tão barulhentos e multiplicaram-se de tal forma que os deuses não conseguiam dormir. Enlil quis então aniquilar a sua criação através de uma epidemia. Ea que tinha boas relações com os homens avisa Atraásis, o Rei Supersábio do que esta previsto e ensina-o de como provir uma solução - deveria desviar as oferendas todas para Namtar divindade das epidemias mortíferas. Os outros deuses mingaram nas suas oferendas e reduzidos à fome interromperam a epidemia mortífera. Mas Enlil, achando a sua criação insuportável volta á carga, e desta feita com uma seca. Ea seguindo o mesmo estratagema recomenda a Atraásis que reserve as provisões para Adad senhor das chuvas. Os outros deuses vergados pela escassez acabaram por ceder
Enlil, resolve então inundar a terra e dessa forma afogar todos os seres vivos. Ea, novamente do lado do Rei supersábio (Atraásis que tudo sabia, inclusivamente como contornar a ira dos deuses), recomenda-lhe que construa uma arca suficientemente grande para conter toda a família do rei e todos os seus pertences, bem como um casal de cada espécie animal, e suficientemente impermeável para durante 40 dias e 40 noites flutuar sem terra à vista onde pudesse atracar.
Esta mesma história do dilúvio repete-se na epopeia de Gilgamés, e a par de muitos outros magníficos mitos e lendas relatadas nestes registos desta civilização constituem os alicerces da nossa própria civilização.