"Nós, os Romanov" (título original: Once a Grand Duke" conta-nos a história de vida do Grão-Duque Aleksandr Mikhailovich, membro da família imperial russa Romanov, após se ter casado com Xenia Alexandrovna da Rússia, irmã de Nicolau Alexandrovich Románov, futuro Nicolau II e último Czar da Rússia. Este livro foi finalizado pelo autor em 1931, decorridos 13 anos sobre a execução da Família Romanov nas proximidades da Casa Ipatief em Ekaterimburgo. Este é um livro que nos transporta através das últimas décadas da Rússia Imperial e que mostra como as decisões que foram sendo tomadas após a morte de Alexandre III durante o reinado de Nicolau II levaram a Rússia a uma revolução e ao completo aniquilamento da Família Romanov, não tendo o último Czar deixado descendentes.
Antes de mais e ao iniciar a leitura deste livro, é necessário ter presente que se trata do livro de memórias de um Grão-Duque e não se focaliza somente na Família Romanov e nos seus últimos, como acontece com outros livros de ficção e de não-ficção (dentro deste tema e em ficção, sugiro a leitura do livro "The Kitchen Boy", de Robert Alexander e que retrata os últimos dias dos Romanov na Casa Epatief e que teoriza sobre o que teria sido se tivesse havido sobreviventes da execução da Família Imperial). Logo, haverá a descrição de acontecimentos, de pessoas e de locais que não apenas aqueles em que se movimentava Nicolau II e a sua família mais directa. Essencialmente, este é o livro de memórias de um homem que sempre acreditou que haveria um futuro melhor para a sua Rússia e que os seus netos poderiam viver num mundo melhor do que aquele em que ele viveu parte da sua vida adulta nos últimos dias do Império.
Na primeira parte da leitura deste livro, essencialmente até aos capítulos cinco/seis, senti alguma dificuldade em entrar na leitura e o livro parecia estar a seguir por um rumo que não me estava a cativar e, por momentos, pensei em colocar a sua leitura em stand by mas em boa hora não o fiz. Valeu a pena continuar a leitura e começar a conhecer um outro Grão-Duque, com vivências adquiridos em torno do mundo fruto da sua ligação à Marinha. Achei particularmente interessantes todas as suas descrições das viagens que fez enquanto oficial da Marinha, mas em que claramente sentia que não podia fazer tudo aquilo que podia por ser um elemento da Família Imperial e que acontecer-lhe algo poderia ter grandes repercussões em São Petersburgo. O capítulo sete, "Um grão-duque por sua conta", relata a vida de marinheiro de Aleksandr Mikhailovich, com as suas passagens por locais como o Brasil, África do Sul, Xangai ou Japão, país onde ele decidiu seguir os hábitos de outros oficiais russos e "casar" com uma jovem da aldeia de Inassa onde ele era chamado de "Samurai", fruto da sua posição da Família Imperial Russa.
Os capítulos seguintes descrevem os acontecimentos após a morte de Alexandre III e a forma como Nicolau conduziu o seu reinado e que ficou, desde cedo, marcado da pior forma como aconteceu com a tragédia de Khodynka, um banquete comemorativo celebrado por ocasião da sua coroação mas que terminou cerca de 1500 mortos e milhares de feridos, fruto de um rumor que se espalhou e de uma multidão descontente que não se conseguiu parar através da força policial. Como curiosidade, o reinado de Nicolau II ficou igualmente marcado por vários pogroms entre 1903 e 1906 (perseguição deliberada aprovado pelas autoridades) como resultado da propaganda antissemita que foi publicada pela administração de Nicolau II. Esta parte do livro, a partir do capítulo 7, conseguiu prender-me ao relato das memórias deste Grão-Duque e terminei o livro a gostar bastante. Este é um livro que mostra, acima de tudo, que houve sinais de que o tempo dos Czares estaria para terminar mas que não foram encarados pelo núcleo duro da família da melhor forma. Ressalvo que este pode ser um livro algo complexo para quem nunca tiver lido sobre o tema, por isso sugiro que se possam fazer outras leituras sobre este período histórico e sobre os Romanov antes de apostar na leitura das memórias de Aleksandr Mikhailovich. É um livro que nos faz um retrato não apenas da Rússia mas de toda a Europa pré-Primeira Guerra Mundial. Aleksandr chega mesmo a referir sobre este conflito: “Todos tinham razão. Ninguém estava errado. Naquele dia, não teria sido possível contrair um único homem lúcido nos países que de estendiam entre o golfo da Biscaia e o oceano Pacífico. No meu regresso à Rússia, pude presenciar o suicídio de um continente!” (pág. 290). São estas memórias que nos podem ajudar a compreender as dinâmicas familiares (afinal, todas as grandes famílias europeias estavam profundamente ligadas, Nicolau II era primo-irmão de Jorge V, Rei de Inglaterra), os laços de poder e os hábitos culturais de países europeus e que contribuíram, de alguma forma, para a Europa que temos nos dias de hoje.
Aleksandr Mikhailovich termina o seu livro de memórias escrevendo: "Não faria sentido eu escrever este livro se a sua lição moral não tivesse valor para pelo menos alguns dos seus leitores. Para mim, é uma lição cheia de significado e abundante em avisos. Volto a pensar nos companheiros da minha juventude, tentando visualizá-los não como eram nos últimos dias da tragédia, mas como os conheci nos dias mais brilhantes das nossas vidas. Nos meus sonhos, vejo muitas vezes Nicky, Georgie, Sergei e eu, deitados na erva alta e húmida do parque imperial perto de Moscovo, a conversar preguiçosa e alegremente sobre esse futuro misterioso e incrivelmente belo que tem o hábito de acender as suas fogueiras de sinalização no horizonte. Um pouco de paciência - e havemos de o alcançar, todos nós" (pág. 380).
Um livro que li para o projecto "Ler é respeitar a história" e que foi o livro do mês de Julho do Clube Leituras Descomplicadas, no tema "O fim dos czares da Rússia".