A rica tradição da literatura nordestina é revigorada nestas histórias de amor e de morte, de vingança e paixão, de solidão e ciúme, de coragem e traições. Em suas narrativas, quase sempre de final surpreendente, o cearense Ronaldo Correia de Brito explora os valores de uma cultura onde as relações entre as pessoas são determinadas por regras secas e duras. As catorze xilogravuras da artista Tita do Rêgo Silva, feitas especialmente para a edição, enfatizam o poder imagético dessa prosa.
Nasceu na cidade de Saboeiro, no sertão dos Inhamuns, no Ceará. Quando tinha cinco anos, sua família mudou-se para o Crato, na região dos Cariris. Aos 17, foi estudar Medicina em Recife. Sempre dividiu seu tempo entre o trabalho como médico e as atividades artísticas. Sua carreia artística envolve as mais diferentes linguagens, como literatura, teatro e música. São de sua autoria O baile do menino deus (teatro), Lua Cambará (disco em parceria com Antúlio Madureira), Faca , Galiléia (romance ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura) e o mais recente Estive lá fora (romance).
Estes contos de Ronaldo Brito são um primor de linguagem e, com as xilogravuras que separam cada um deles, compõe um tecido bruto e ao mesmo tempo doce da vida nos sertões que apenas conhecemos nos livros.
É uma realidade árida, de fogos de chão e 'causos' passados de boca em boca, o folclore grita entre as páginas e o sonho nordestino ganha cores e palavras fortes que nos fazem sentir ao lado de um fogo com um grupo de gente trocando histórias que talvez nunca tenham existido.
Há um certo ar fantástico, quase Borges se houvesse nascido na caatinga, Ronaldo dobra os conceitos e sons e traz um imaginário único aos leitor, os contos são balas curtas e certeiras que vazam a mente de, como o título, cortam a gente em dois.
Em dias de modernidade, computadores e voraz urbanismo, resta ainda espaço para a literatura regionalista, arcaica, retratando universos estagnados numa espécie anacrônica de medievalismo e cujo risco mais evidente é produzir clones falhados de Guimarães Rosa?
Se o escritor tiver qualidades, sim, como é o caso de Ronaldo Correia de Brito, autor de Faca (2003), um vigoroso livro de contos. Lançado originalmente há vinte anos, em uma edição belíssima com ricas ilustrações xilogravadas por Tita do Rêgo e Silva, a obra depois foi republicada pela Alfaguara unida em um único volume a outra obra, O Livro dos Homens.
Leia a resenha completa no blogue do Admirável Mundo Livro:
Contos fortes. Sertão, seca, personagens habitando na saga nordestina. Honra, duelos, anseios...tudo muito atrelado à raiz das pessoas. O termo "faca" resume bem as vidas ilustradas: cruas, densas, destinadas a serem a própria origem, cortando a vida com a força de ser fiel ao pouco.