«Conquistas, casamentos, alianças, fortunas... Neste início de 1502, em que tudo parece sorrir aos Bórgias, César não tem qualquer dúvida de que um diplomata o vai tornar imortal: Maquiavel. A vida do filho ambicioso de Alexandre [VI], em que tudo é astúcia, cálculo, diplomacia e brutalidade ou temperança, de acordo com as circunstâncias, servirá de modelo a O Príncipe, cujo autor confessará humildemente que não encontrou melhor figura para ilustrar os seus propósitos».
Toda a família Bórgia é, para mim, muito apelativa. Como é que no final do século XIV foi eleito um cardeal que se sabia ter filhos e amantes e que, ao ascender a papado, os instalou e favoreceu à vista de todos, tal como um grande senhor secular faria. Uma "pouca vergonha", à luz da época e à luz actual! Gostei deste livro por se tratar de um trabalho historiográfico centrado em César, o filho mais velho de Rodrigo, mas que faz todo um resumo das figuras históricas que compunham a família. É sobre Lucrécia Bórgia que o meu "fascínio" recai, pois tão maltratada foi ela pela historiografia ao longo dos séculos, que a quis denegrir (e, através dela, à família), quando ela mais não foi do que uma espécie de joguete ao serviço dos interesses políticos do pai e do irmão (como de resto, não é de estranhar, pois era mais ou menos o papel destinado às mulheres daqueles tempos). Primeiro casaram-na com Giovanni Sforza, para depois se desfazer o casamento com o argumento de que não tinha sido consumado (e na audiência do anulamento do casamento estava Lucrécia grávida, não do então marido, é certo, mas ainda assim grávida). Devido às pretensões de César relativamente ao reino de Nápoles, casaram-na seguidamente com Afonso de Aragão (irmão da mulher de Godofredo Bórgia, por sua vez irmão de Lucrécia), o qual veio a ser assassinado por... César! Finalmente, casaram-na com Afonso de Este, duque de Ferrara (um viúvo de 24 anos), com quem se manteve casada até ao fim da vida quiçá apenas porque entretanto Rodrigo e César morreram!
Enfim, histórias da História que acho interessantes por me causaram alguma perplexidade. A ideia que perpassa é a de que Rodrigo e César eram homens sem grandes escrúpulos, movidos simplesmente pelos seus interesses pessoais... E se pensarmos que um era Papa...!