O livro consegue um olhar interessante para eventos do Brasil Colônia inicial. Quem busca compreender as biografias de figuras-chave do começo de nossa história, e a articulação das tramas interpessoais que eram a matéria-prima da política da época vai encontrar aqui um prato cheio.
Como trabalho introdutório, a obra cumpre muito bem a função de traçar um panorama vivo e despertar o interesse por meio de narrativas. A bibliografia do final também ajuda bastante quem não é especialista, mas quer pesquisar pelos mais diversos motivos - escrever um roteiro, ter algum insight sobre a economia cotidiana da colônia, pesquisa para jogos, etc. Há fontes primárias, citadas junto com estudos importantes, como Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial, do Schwartz.
Não há como negar que o livro acaba transpirando um pouco superficialidade nas entrelinhas. Ao insistir em explicar as mazelas brasileiras por causa da "cultura do jeitinho e do apadrinhamento", por exemplo, o autor acaba recorrendo a um senso comum que poderia ter sido evitado. Talvez Bueno fez isso para agradar leitores, talvez realmente lhe falte formação histórica. Uma leitura de clássicos como "A história da vida privada", volume I, Paul Veyne, sobre o Império Romano, mostra como praticamente qualquer sociedade pré-industrial se organiza com base em relações interpessoais, bem parecidas com o esquema brasileiro, sem que isso tivesse prejudicado seu desempenho ou progresso naquele contexto. Se hoje, no Brasil cada vez mais industrializado do século XXI, a corrupção incomoda - e deve incomodar - aplicar retroativamente juízos de valor não é a melhor receita para compreender a história de um país.
De qualquer forma, os prós compensam bem esses contras. Em primeiro lugar, Bueno é um bom narrador, que tem facilidade em tornar a matéria interessante. Em linhas gerais, como ele mesmo ressaltou, seu trabalho consiste em rescrever os cronistas com uma linguagem atual e acessível. Não há dúvida de que nesse sentido, ele fez um bom trabalho.
Além disso, no Brasil, há um vácuo de narrativas históricas mais centradas nas biografias e tramas interpessoais escritas em linguagem atual. Nos anos 40, 50, 60 e 70 houve uma renovação nos livros de história, que passaram a enfatizar mais os processos do que os eventos. Se a profundidade das análises melhorou, por um lado, por outro houve certa caça às bruxas aos livros factuais, que bem ou mal têm sua importância. As pessoas continuam com sua curiosidade em entender quem eram aquelas pessoas, suas ambições pessoais, seu estilo de vida.
Para o leitor que quer conhecer as trajetórias dessas figuras, ou aspectos factuais como o preço de uma caravela, ou quem eram os funcionários públicos daquela época, o livro é o uma referência.