A literatura russa tem fascinado leitores em todo o mundo, inclusive no Brasil, em função de seus relatos caudalosos, dramáticos e instigantes presentes em romances icônicos como “Guerra e Paz” e “Anna Karênina” de Liev Tolstói, e “Crime e Castigo” e “Os irmãos Karamazov” de Fiódor Dostoiévsky cuja leitura requer muita concentração e esforço por parte de quem se dedica à prazerosa mas trabalhosa tarefa de vencer as milhares de páginas que os compõem.
Otto Maria Carpeaux (1900/1978), jornalista, ensaísta e crítico literário nascido na Áustria e naturalizado brasileiro, acerca do importante papel da literatura russa na Rússia afirmou o seguinte:
“A literatura russa do século XIX teve que desempenhar várias funções, além da literária propriamente dita; era jornalismo num país em que não existia imprensa livre; era tribuna política num país em que não havia parlamento. Todas essas funções foram desempenhadas por homens de cultura que excluídos da vida pública, fizeram oposição sistemática, divulgando suas ideias em obras de ficção e de poesia, burlando a censura, reivindicando reformas e preparando revoluções”.
No entanto nem só de relatos caudalosos vive a literatura russa. A produção de contos desse gigantesco e multifacetado país é também riquíssima e merece uma boa conferida por todos aqueles e aquelas que apreciam boas histórias e esse “Clássicos do conto russo”, bela compilação a cargo da editora “34” vem a calhar para apresentar aos leitores brasileiros uma bela seleção de 24 contos de autoria de doze autores fundamentais da literatura russa, de Púchkin à Bábel, passando por Gógol, Turguêniev, Dostoiévski, Tolstói, Leskov, Tchekhov, Górki, Búnin, Andrêiev e Bulgákov, no período que vai de 1831 a 1931.
Arlete Cavalieri, ensaísta, tradutora e professora de teatro, arte e cultura russa e professora titular da FFLCH-USP na bela apresentação, de sua autoria, dessa obra assim avaliou a relevância da produção de contos de autores russos:
“A qualidade estética dos contos e novelas selecionados não pode ser explicitada por um simples traçado linear e historiográfico da literatura russa de viés cronológico, sociológico ou político. Trata-se nessa amostragem, como se verá, de uma sondagem mais ampla, multifacetada e multiforme, mas que encerra o mesmo eixo do movimento de uma identidade cultural, a mesma amálgama complexa de referências históricas e culturais conformada por uma consciência nacional construída durante séculos. Esses “gênios” da literatura russa provêm, assim, da maturação de raízes profundas e de uma vasta genealogia artística e literária, produto (e não simplesmente a soma) de etapas de um desenvolvimento cultural único e inigualável, que permaneceu desconhecido do mundo ocidental por longo tempo”
Leia e releia todos os contos que são, nessa coletânea, traduzidos por vários e várias especialistas diretamente do russo.
Mas, na minha avaliação, os melhores da compilação são o tragicômico “O chefe da estação” de Aleksandr Púchkin (1799/1837), os delirantes e algo surreais “Diário de um louco” e “O nariz” de Nikolai Gógol (1809/1852), o poético “Mujique Marei” de Fiódor Dostoiévski (1821/1881), o belo, intrigante e instigante “De quanta terra precisa um homem?” (História que já li várias vezes e que a cada leitura me impressiona mais) de Lev Tolstói (1828/1910), o poético “Brincadeira” de Anton Tchekhov (1860/1904), o acachapante “Vinte e seis e uma” de Máksim Górki (1868/1936) e o surpreendente “Um senhor de São Francisco” de Ivan Búnin (1870/1953).
Leitura obrigatória para quem gosta de boas leituras.