Por que o Brasil ainda não deu certo? Quando chegou ao exílio no Uruguai, em abril de 1964, Darcy Ribeiro queria responder a essa pergunta na forma de um livro-painel sobre a formação do povo brasileiro e sobre as configurações que ele foi tomando ao longo dos séculos. A resposta veio com este que é o seu livro mais ambicioso, fruto de trinta anos de estudo: uma tentativa de tornar compreensível, por meio de uma explanação histórico-antropológica, como os brasileiros se vieram fazendo a si mesmos para serem o que hoje somos. Uma nova Roma, lavada em sangue negro e sangue índio, destinada a criar uma esplêndida civilização, mestiça e tropical.
Darcy Ribeiro (Montes Claros, Minas Gerais, Brazil, October 26, 1922 – Brasilia, DF, Brazil, February 17, 1997) was a Brazilian anthropologist, author and politician. Darcy Ribeiro's ideas of Latin American identity have influenced several later scholars of Latin American studies. As Minister of Education of Brazil he caried out profound reforms which led him to be invited to participate in university reforms in Chile, Peru, Venezuela, Mexico and Uruguay after leaving Brazil due to the 1964 coup d'état. Darcy Ribeiro was the son of Reginaldo Ribeiro dos Santos and of Josefina Augusta da Silveira. He completed his primary and secondary education in the town of his birth, Montes Claros, at the Grupo Escolar Gonçalves Chaves and at the Ginásio Episcopal de Montes Claros. He is best known for development work in the areas of education, sociology and anthropology and for being, along with his friend and colleague Anísio Teixeira, one of the founders of the University of Brasília (Universidade de Brasília) in the early 1960s. He also served as the first rector of that university. He was the founder of the State University of Norte Fluminense (Universidade Estadual do Norte Fluminense) as well. He wrote numerous books, many of them about the indigenous populations of Brazil. During the first mandate of governor Leonel Brizola in Rio de Janeiro (state) (1983–1987), Darcy Ribeiro created, planned and directed the implementation of the Integrated Centres for Public Instruction (Centros Integrados de Ensino Público), a visionary and revolutionary pedagogical project of assistance for children, including recreational and cultural activities beyond formal instruction – making concrete the projects envisioned decades earlier by Anísio Teixeira. Long before politicians incorporated the importance of education for the development of Brazil into their discourse, Darcy Ribeiro and Leonel Brizola had already developed these ideals. In the elections of 1986, Ribeiro was the Democratic Labour Party PDT candidate for the governorship of Rio de Janeiro (state), running against Fernando Gabeira (at that time affiliated with the Workers’ Party PT), Agnaldo Timóteo of the Social Democratic Party (PDS) and Moreira Franco of the Brazilian Democratic Movement Party (PMDB). Riberio was defeated, being unable to overcome the high approval rating of Moreira who was elected due to the popularity of the then-recent currency reform, the Cruzado Plan (Plano Cruzado). Another defeat was in 1994, when he was Brizola's running-mate in presidential election; Darcy Ribeiro was also chief of staff (Ministro-chefe da Casa Civil) in the cabinet of President João Goulart, vice-governor of Rio de Janeiro (state) from 1983 to 1987 and exercised the mandate of senator from Rio de Janeiro from 1991 until his death – which was proceeded by a long battle with cancer that emotionally touched all of Brazilian society: Darcy Ribeiro, ever the ardent and controversial defender of his ideas, received during his long illness recognition and admiration not only from friends but also from adversaries.
"Fracassei em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei uma universidade séria, não consegui. Mas meus fracassos são minhas vitórias. Detestaria estar no lgar de quem me venceu" Palavras de Darcy Ribeiro
É o impressionante o sentimento que desenvolvi ao ler esse livro, como se peças fossem se movendo e finalmente se encaixando no lugar.
Ler esse livro é como tomar uma grande dose do remédio amargo da verdade, que deixa muitos nauseados e provavelmente questionando se os efeitos futuros serão benéficos.
Eu mesmo ainda assimilo esse sabor amargo no paladar.
Por outro lado, sinto-me tranquilo e confiante de ter tomado uma vacina contra o "sentimento de inferioridade" que tanto persegue os brasileiros e nos enche de vários questionamentos e dúvidas.
Esse mal não me contamina mais!
O Brasil tem tudo para dar certo e o primeiro passo para que isso ocorra é reconhecer como nos formamos e do que somos capazes. Por isso, penso que esse livro é mandatório e deve ser lido por todos os brasileiros. Assim como certas vacinas, o quanto antes, melhor!
"...o objetivo jamais foi criar um povo autônomo, mas cujo resultado principal foi fazer surgir como entidade étnica e configuração cultural um povo novo, destribalizando índios, desafricanizando negros, deseuropeizando brancos.
Ao desgarrá-los de suas matizes, para cruzá-los racialmente e transfigurá-los culturalmente, o que se estava fazendo era gestar a nós brasileiros tal qual fomos e somos em essência. Uma classe dominante de caráter consular-gerencial, socialmente irresponsável, frente a um povo-massa tratado como escravaria, que produz o que não consome e só se exerce culturalmente como uma marginália, fora da civilização letrada em que está imersa."
Very good. If you can read in Portuguese, this is a must read book to help understand the formation of this giant nation called Brasil. It is also a text that encourages the reader to believe that social changes are possible and that poverty is not necessarily a destiny for any country.
Somos um povo que, em busca de sua prosperidade, não sendo para si, é para os outros. ‘O povo brasileiro’ é a obra que encima a vida de Darcy Ribeiro — obra pela qual ele fugiu do hospital para completar. E que dádiva a todos nós foi essa fuga!
A linguagem do livro não é eminentemente técnica, mas não é exatamente acessível. Não poderia ser de outra maneira. Entender o Brasil, entender a nós mesmos… Ser brasileiro sempre foi questão de muito esforço. Ainda assim, não há como não enfatizar, nem tampouco condensar a grandiosidade desse livro em uma resenha. Ele é grandioso pelo período que compreende. Por tratar de todas as muitas transfigurações étnicas, de todas as nossas matrizes. Por explorar as causas endêmicas de nossa brutalidade repressiva: “A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce, ainda hoje, em tanta autoridade brasileira predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem às mãos”.
A fim de não reescrever em citação o livro inteiro, destaco três pontos que mais capturaram a minha mente e o meu coração durante essa leitura. O primeiro aspecto é o de ter me dado conta de que minha visão de Brasil — território, cultura e povo — era segmentada. Eu visualizava o caboclo, o caipira, o sertanejo, o sulista, o crioulo… todas as matrizes, mas cada qual em seus espaços geográficos e sociais, com suas migrações e histórias, em separado. Qual relação, por exemplo, teria o nordestino que se tornou seringueiro no interior do Acre com o colonato europeu que veio lavrar o Sudeste após a abolição e a proclamação da República? Mais do que apresentar painéis, Darcy compõe um verdadeiro diorama que integra todas as personagens que constituem nosso país. E é, com essa integração, que Darcy nos permite enxergar o Brasil como um povo, como uma nação, como uma identidade.
O segundo ponto é com relação à atualidade e a pertinência de sua análise. Embora publicado em 1995, ‘O povo brasileiro’ é atual. É tão atual que dói. Não há como não transcrever o trecho: “As circunstâncias fazem surgir, periodicamente, lideranças ferozes que a todos se impõem na divisão do despojo de saqueios. Essa situação é agravada por uma lúmpen-burguesia de microempresários que vivem da exploração dessa gente paupérrima e os controla através de matadores profissionais, recrutados entre fugidos da prisão e policiais expulsos de suas corporações. O doloroso é que esses bandos se instalam no meio das populações faveladas e das periferias, impondo a mais dura opressão para impedir que escapem do seu domínio. Isso é o que desejam muitas famílias pobres, geralmente desajustadas. Paradoxalmente, confiam é no crime organizado, que costuma limpar a favela dos pequenos delinquentes mais irresponsáveis e violentos e põe cobro à caçada de crianças pelos matadores profissionais. […] Ultimamente, a coisa se tornou mais complexa porque as instituições tradicionais estão perdendo todo o seu poder de controle e de doutrinação. A escola não ensina, a igreja não catequiza, os partidos não politizam. O que opera é um monstruoso sistema de comunicação de massa fazendo a cabeça das pessoas. Impondo-lhes padrões de consumo inatingíveis, desejabilidades inalcançáveis, aprofundando mais a marginalidade dessas populações e seu pendor à violência. Algo tem que ver a violência desencadeada nas ruas com o abandono dessa população entregue ao bombardeio de um rádio e de uma televisão social e moralmente irresponsáveis, para as quais é bom o que mais vende, refrigerantes ou sabonetes, sem se preocupar com o desarranjo mental e moral que provocam.”
Por fim, é tocante e transformadora a profunda paixão que Darcy Ribeiro nutre por esse país e por esse povo. É fabulosa a sua tenacidade frente a nossa história tão desabrida e cruenta. É comovente e contagiante a esperança que ele, verdadeiro brasileiro, nutre pelo Brasil. Uma esperança alicerçada na inabalável certeza de que “havemos de amanhecer. O mundo se tinge com as tintas da antemanhã”.
Daquelas leituras que você se pergunta a razão de não ter lido antes. Para quem procura entender o Brasil e suas mazelas , história e crenças, não há melhor opção.
Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Roberto DaMatta e muitos mais têm tentado responder a pergunta "Quem somos nós, os Brasileiros?" A resposta do antropólogo Darcy Ribeiro, um dos maiores brasileiros do século XX, destoa de todos os outros. Nós não somos nem os portugueses, os índios ou os africanos que aqui chegaram, mas também não somos simplesmente a mistura de todos eles. Somos o fruto de um processo progressivo de perda de identidade desses povos em um ambiente hostil aos portugueses, em um meio social hostil aos africanos e em um processo gradativo de dissolução da identidade étnica de cada nação indígena sob um movimento gradativo de "civilização", processo que serviu à associação entre o patriciado (os nobres e o Estado) e o patronado (os mercadores e empresários) para produzir um tipo de opressão que serviu a fins econômicos muito específicos: tornar o Brasil um dos negócios mais rentáveis da era moderna. O livro se divide em cinco partes. Na primeira, ele apresenta as matrizes que conformaram o Brasileiro no seu primeiro século, sobretudo índios e portugueses. Na segunda, analisa como as várias nações indígenas foram transformadas “no” índio, e como o elemento africano foi introduzido nessa cultura (impressionante, aqui, a descrição do cotidiano da escravidão - p. 107 e ss.). Na terceira parte, analisa como se produziu o Brasil entre o campo e a urbanização. Na quarta, fornece, como resultado desse processo, os exemplos máximos da opressão que por aqui se produziu (o crioulo do nordeste, o caboclo do norte, o sertanejo do nordeste, o caipira de São Paulo e Minas Gerais e o Gaúcho, o maturo e o gringo do sul), todos frutos de um empobrecimento da população quando o capital transferiu-se para outros locais, deixando para trás um exército de fome e miséria. Na última parte, uma breve conclusão, mostra que, apesar de todo o mal que aqui se produziu, temos um grande potencial para ser o que somos desde o início. Como ele diz, "Na verdade das coisas, o que somos é a nova Roma" (p. 411), capaz de redimir-se e competir em igualdade de condições com os povos transplantados (civilizações que, como a norte-americana ou a australiana, simplesmente se transferiram da Europa para outros locais). [A propósito, a grande distinção entre povos transplantados, povos testemunhos, como o México, cuja cultura primitiva resistiu às invasões, e povos novos, que nem são os povos originários do lugar, nem o invasor, como o Brasil, são talvez a grande contribuição de Darcy Ribeiro para a Antropologia. O tema, tratado em outras obras, é utilizado em todo este livro]. O mais impressionante do livro é que ele foi escrito, retomado, deixado de lado durante toda a vida de Darcy Ribeiro. Foi somente quando foi acometido de câncer que o autor fugiu do hospital (literalmente) para terminá-lo em sua casa de Maricá, com ele conta Prefácio. Darcy considerava este o seu mais importante livro.
O livro é ótimo, explica varios aspectos da formação histórica do povo brasileiro. Em varios momentos do livro são oferecidas respostas para questões que acontecem no nosso dia a dia e você pensa "Então é por isso que essas pessoas agem dessa forma!".
Abjeto Sempre ouvi falar com muita admiração de Darcy Ribeiro e dessa obra em específico, então foi um choque quando eu li certas coisas. A resenha vai ser longa porque o livro é longo e denso, colocarei algumas referências de páginas e aquilo entre aspas foi escrito tal qual está no livro:
Durante todo o livro, Darcy insiste numa dicotomia entre selvageria e civilização ao se referir aos nativos indígenas brasileiros frente aos colonos europeus. Há uma certa heroização do navegador português, descrito fisicamente como tendo “inocência e beleza encarnadas”. À jornada dos colonizadores é atribída certa seriedade (”para eles, a vida era uma tarefa sofrida, uma obrigação…”), como se representassem o adulto agindo frente ao indígena, eterna criança. Em diversas passagens, faz afirmações embasadas em darwinismo social: “as vitórias europeias se deveram principalmente à condição evolutiva mais alta das incipientes comunidades neobrasileiras” Diferentemente do europeu, os indígenas são tidos como primitivos e animalescos, referenciados por Darcy também como “humanidade edêmica”. Eles são, ainda, aos olhos de Darcy, seres em constante estado de confusão, sempre se perguntando o porquê de tudo, sem compreender os acontecimentos à sua volta. Ao mesmo tempo que se imputa essa inocência infantilizada ao nativo, acusa-o também de ser soberba, traidor dos seus, de agir por cobiças materiais em aliança com o colonizador. No que se refere à resistência indígena, Darcy diz que ela se deveu ao “atraso dos índios”, que tendem naturalmente à guerra, e que foi essa a causa do extermínio; para comprovar seu ponto, afirma que no México e no Peru houve maior pacificação porque lá os nativos foram menos resistentes. Darcy praticamente exalta os padres jesuítas, citando as loas do Padre Anchieta como grandes obras do orgulho lusitano. Destaca a proteção aos indígenas como se essa defesa viesse de genuína empatia e humanidade, e não pela necessidade da Igreja Católica expandir seus domínios, já que à época a Europa vivenciava as Reformas: “o propósito dos jesuítas não era destruir os índios”; “os jesuítas assumiram grandes riscos na defesa dos índios”. A missão católica é colocada como diametralmente oposta à colonização, quando na verdade se trata de uma outra forma de domínio, apenas não se embasa no campo econômico - ainda que perpasse por ele também, e o próprio Darcy sabe, tanto que afirma, lá pela pg. 150, que os jesuítas enriqueceram com as missões já que começaram a deter um grande número de casas e a receber aluguéis por elas. Mas, para Darcy, os missionários não queriam impor o modo europeu de vida, e sim levar humanidade e criar uma sociedade melhor, e ele chamou isso de “utopia socialista”. Novamente a visão paternalista justificando a dominação de um povo e tratando a questão a partir de um suposto embate entre bem e mal. Alguns termos usado para se referir aos indígenas (que o autor chama o tempo todo de “índios”) foram: selvagens, exóticos, atrasados. Além disso, refere-se ao europeu como em “posição evolutiva mais elevada”, sugerindo que, ao dominar os nativos, estaria “integrando-os” a essa civilização superior (pg. 66). Não é de se surpreender que o Positivismo de Comte tenha sido elogiado no livro (lá pela pg. 103). Quando se tratou do estupro sistemático das mulheres nativas, o autor chamava-o de “sexo” ou de “relação” e afirmava terem os portugueses “desejo de multiplicar-se nos ventres das índias”. Em dado momento, sugere ainda que as mulheres indígenas assediavam os portugueses (pg. 80). Na pg. 194, ele praticamente diz que gente pobre é feia, e em seguida sugere que a culpa da miséria da população negra é dela mesma, porque, quando da abolição, os europeus esforçados e trabalhadores foram ocupar os empregos, enquando os negros deixaram as fazendas e “só queriam a liberdade” (pg. 203). Na pg. 218, o autor diz que o cabelo das pessoas pretas é “duro”, enquanto o dos brancos é “sedoso”. Na pg. 219, sugere que as famílias pobres são matriarcais porque as mulheres pobres são promíscuas e têm múltiplos parceiros, o que as torna menos virginais, fazendo com que os homens fiquem “menos desenvoltos sexualmente e irresponsáveis afetivamente” por causa das relações interraciais (pg. 220). Há poucas boas reflexões a respeito de antagonismos de classe e sobre questões sociais ainda atuais, mas em geral desemboca num reformismo mais do mesmo. O livro não é tão antigo assim pra tantas visões e falas problemáticas e tão graves, ainda mais vindo de um acadêmico, uma pessoa estudada e tão influente. Ainda há valor no teor histórico, mas pra isso você tem que nadar nessa lama que é a narrativa do autor.
O Povo Brasileiro traz uma profunda reflexão sociológica sobre o país. Não apenas um estudo, mas uma investigação com capacidade de expor a identidade do Brasil em pouco mais de 300 páginas. Essa monumental obra, leitura obrigatória para todo brasileiro, expõe a miséria deste povo que é condenado desde o princípio até a atualidade a ser uma cultura servil e injusta, mas ao mesmo tempo privilegiada e iluminada por possuir sua única história e, portanto, um destino próprio.
Darcy Ribeiro carrega em peso seu nome neste livro por ter conseguido ser o brasileiro que melhor entendeu sobre o Brasil. Em uma combinação de análises por fatores históricos e socioeconômicos, o autor consegue unir os cinco brasis presentes, por meio da antropologia. O resultado disso é a recordação de que em cada ponta da nação, o povo sofre coletivamente da mesma chaga que perdura até o momento presente. Toda geração é fruto de um sistema colonial agroexportador e escravista que atravessando cinco séculos, nunca cessou em sua essência.
Darcy explana a situação socioeconômica brasileira nos tempos de colônia como um sistema de organização novo, chamado de agrário-mercantil de colonização escravista. Nele não se imitava o modelo feudal europeu, mas sim um sistema inteiramente voltado à exportação e lucro, tendo como principais destaques a cana-de-açúcar, o ouro e o café. Os resultados eram o excedente fornecendo lucro à coroa, e uma forma eficaz de colonização de um território 92 vezes maior do que a sua metrópole. Portanto, muitas vezes em disputa contra outras nações, o sistema escravista de alta concentração de mão de obra nas plantations do Brasil português permitia tanto a repetida procriação entre os escravos - ocasionada pela falta de alternativas ao ócio -, quanto os abusos sexuais dos senhores sobre os escravizados. O sistema contava com a forte dependência da força de trabalho estrangeira vinda da África, o que foi essencial na influência daquele continente para a formação histórico-social do Brasil. A escravidão, no entanto, tornou-se um problema social em grande escala, criando uma sociedade servil até os dias de hoje, e com características racistas fortemente apoiadas na associação da cor de pele com base na posição socioeconômica do indivíduo.
A questão da escravidão, enquanto instituição, nunca acabou na prática. O legado cultural deixado por ela é notado diariamente na sociedade pelas diversas notícias sobre abusos salariais, jornadas excessivas e imposições descomedidas dos patrões com os empregados em um sistema arcaico de produtividade. Isso denota uma valorização desmedida - e até prazerosa -, por parte do patrão, ao romantizar a exigência de entrega do suor e sangue do empregado, mesmo que em troca receba um valor pequeno e insuficiente para suprir sua própria subsistência. Historicamente, a alta concentração de renda nas mãos dos privilegiados gerou um mecanismo de dependência dos marginalizados para com o seu senhor. Conforme o próprio autor cita, "Os privilegiados simplesmente se isolam numa barreira de indiferença para com a sina dos pobres, cuja miséria repugnante procuram ignorar ou ocultar numa espécie de miopia social, que perpetua a alternidade. O povo-massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido." Isso não afeta apenas uma pequena margem da população, mas sim o território todo. Do gaúcho e gringo sulista ao crioulo nordestino, todos fazem parte desse processo econômico desigual que desde o começo foi implantado para resultar em uma desigualdade social elevada século após século.
Denota-se que o problema, ao ser analisado em uma perspectiva de luta de classes, tem como resultado uma urgentíssima revisão no tratado de divisão de terras do Brasil. Citada diversas vezes por Darcy, e fortemente defendida por outros personagens importantes da história do país, a reforma agrária é uma questão problemática que dificilmente conseguirá ser resolvida. Diversas lideranças da esquerda brasileira, ao tentarem avançar com a proposta, sempre encontraram forte oposição da direita entreguista, que em conjunto com o capital estrangeiro, materializou sua indignação pela articulação do golpe de Estado de 1964, e garantiram a continuidade do sistema arrendatário de terras. Nessas circunstâncias, é no Brasil atual herdado pelo sesmeiro que o trabalhador rural continua enfrentando dificuldades relacionadas ao abuso salarial, escassez e sobrevivência, em um cenário pouco provável de mudanças que possam acarretar a prometida lei de concessão de terras.
Dentro do contexto da marginalização dos grupos que fazem parte do serviço para o latifúndio - sejam os bugres, caipiras, gaúchos, sertanejos, caboclos ou crioulos - ocorreu sempre na história um padrão curioso de tentativa de reunião dessas comunidades em um local para assentamento e produção própria de suas subsistências. Posteriormente existia a possibilidade de essas comunidades evoluírem para um formato agrário-mercantil justo, longe da exploração selvagem dos latifúndios. A finalidade era fugir da vida marginal gerada pela expulsão destes grupos em seus antigos locais de moradia, consequência gerada pela expansão dos novos detentores daquelas terras - reduzindo o proprietário antigo a mero marginalizado sem-terra, cuja nova condição o limitava a exercer trabalhos temporários nesses campos, recebendo pouco retorno financeiro.
Toda tentativa de independência dessas comunidades contra a economia de exploração colonial resultou em reações fortes e trágicas do governo aos seus assentamentos, pois controlado por esse latifundiário insatisfeito com os atos de emancipação justa do povo oprimido, ordenava a perseguição e execução deste. Exemplos concretos na história foram as revoltas do Contestado, Malês, Cabanos e do Cangaço nordestino.
Com este apanhado básico, que apresenta pequenos pedaços de um apanhado de assuntos, concluo que Darcy é capaz de mostrar que toda narrativa liberal sobre um brasil empresarial, puritano, "patriota" e de nula intervenção estatal é facilmente desmentida quando se analisa de maneira crítica o passado do país. Logo, as exceções não fazem frente à realidade.
Entre todos os problemas do Brasil, o essencial está contido neste livro. Nele são expostas as humilhações que perduram na alma de todo brasileiro, e é essa exposição que serve como base para entender e superar este destino amaldiçoado que nos espera caso perduremos neste caminho de status quo. Esta obra é uma importante plataforma que serve de lançamento para, talvez, uma mudança cultural profunda que vise um caminho brilhante para a nação. Um destino que apenas nós, o povo brasileiro, seremos capazes de alcançar.
Eu, há algum tempo, até sabia que os traços, as qualidades e, claro, os problemas do Brasil têm raízes mais profundas e em lugares mais inesperados do que uma breve e superficial reflexão ou a grande maioria das indevidas comparações feitas por nossa mídia elitista podem nos dizer. Como querem que o Brasil siga o modelo de Singapura? Ou da Suécia?
O livro, quase que exaustivamente, apresenta esses fundamentos históricos e nos propõe um caminho próprio, uma meta sob medida para o Brasil e não que sejamos mais uma tentativa frustrada de emular aqui uma sociedade europeia de qualquer tempo. Claro que buscar nossa solução ideal contraria desde sempre o mantenimento do status quo de agentes dominantes nem tão obscuros, que por sua vez sempre atentaram e atentam de forma implacável a essas soluções. Então, finalmente, essa obra brilhante esclarece os motivos pelo qual o Brasil não cabe no abismo em que esses agentes - e muitos dos quais, estão entre nós - insistem em nos jogar. Muito esclarecedor e emocionante!
Contexto histórico distorcido, sem análise isenta e, declaradamente, político.
Já de cara o livro se diz declaradamente político. Não isento. Está lá. Elogio o autor pela sinceridade, pois, está longe de ser um livro histórico mesmo. E, ao meu ver, vai apresentar uma teoria política da formação do povo brasileiro distorcida. Como é tudo em política. Se é isso que procura, defender uma teoria , um grupo, uma ideologia, sem bases reais empíricas, beleza. Mas se o leitor, como eu, busca entender a história de formação desse país, aí vai precisar ler muito mais livros, inclusive não só sobre o Brasil e América Latina, e com a cabeça aberta
Bem, superados os que só querem ratificar uma visão passada, erroneamente, desde a maioria das escolas, posso recomendar alguns autores e linhas a seguir. Sim, pois também tive que engolir esse tipo de simplificação mesquinha da realidade desde novo e inclusive na universidade, onde esperava história e análise técnica dos fatos, e sempre ouvia a mesma ladainha de opressor e oprimido, luta de classes, imperialismo, pureza e inocência do índio e vocês já conhecem o resto da novena.
O que ocorreu durante esses últimos séculos de colonização na América Latina e no Brasil foi terrível. Ninguém pode negar isso. Esse não é o ponto. Porém, o que aconteceu aqui, de modo similar, com peculiaridades, aconteceu na história da humanidade inteira em todos os lugares.
Não vou ir além disso. Meu ponto é, quer entender o povo brasileiro (como se não houvessem diversas formações distintas), vá estudar primeiro história (não ideológica) de outros povos pelo mundo. Boas biografias e livros mais específicos. Não pegue Eric Hobsbawm, por favor! Não seja preguiçoso. O autor também é declaradamente político. Peguem obras de historiadores mais isentos. Sei que não existe algo como 100% isento, mas há autores mais preocupados com os fatos e suas motivações específicas que super generalizações e teorias que abarquem tudo. Não funciona dessa forma.
Recomendo no Brasil o famoso peninha , Eduardo Bueno, e Jorgue Caldeira. Há muitos outros. Já é um começo. Só nessas obras você já verá que não é bem como esse autor defende.
Quase me esqueci. Fui até 13% do livro. Não aguentei a tortura mais do que isso. Não dei classificação, pois teria que classificá-lo na categoria de capacidade de manipular os fatos em benefício de um grupo político. Não é a área que me interessa. Se bem que, pelo número de pessoas que elogiam essa obra, deve estar por volta de 4,5 de 5 no grau de manipulação.
Uma ruptura profunda com tudo o que me foi ensinado e no que acreditei durante a maior parte da minha vida.
Obra extremamente densa. Leitura difícil, mas aprendi bastante coisa.
Para 30 anos de escrita, esperava uma edição um pouco melhor. A estrutura é confusa, o conteúdo se repete várias vezes, e ele insere páginas de fontes primárias e um longo trecho de um romance que escreveu.
Não faltam críticas à classe dominante do país, responsável por extrema violência, genocídio, etnocídio e outras atrocidades, e pelos nossos atrasos estruturais.
Não conheço ninguém de muito poder político aqui, mas cresci e convivi com muita gente da elite econômica do Brasil. Faço parte desse grupo e sou descendente de imigrantes recentes desse país.
No geral não são monstros vis. Mas são frequentemente preconceituosas e muito apegadas aos seus confortos.
Muitas vezes não são dinastias de longuíssima data, pelo contrário. Mas todas beneficiaram de um sistema que tornou sua ascensão muito mais simples em relação a outros grupos étnicos e/ou raciais.
Confundem o inevitável sofrimento da vida com prova de merecimento da abundância que gozam frente à escassez dos outros, a quem não dedicam muito pensamento.
Culturalmente, muitas vezes são empobrecidas e não-pertencentes. Veneram e se identificam com um exterior que as despreza.
Nossa história é muito conturbada. Vivemos num país complexo.
O livro nomeia coisas que eu sentia mas nunca soube nomear. Eu, muito novo, e educado por 15 anos em uma escola "americana" (vulgo imperialista), acreditava que emigrar era o melhor a se fazer para todos envolvidos. E talvez tenha sido mesmo, para que criasse uma visão de mundo e vivenciasse opressão que jamais sofreria se houvesse ficado.
Não sei, agora já foi. Sou brasileiro e doravante vou construir minha vida neste país, que tem sérios problemas mas também muitas virtudes ímpares.
Um livro fantástico e indispensável para quem quer entender o Brasil e o povo brasileiro. Mais um brasileiro que virei fã juntamente com Cândido Rondon. Sempre muito reconfortante se deparar com brasileiros que conhecem como poucos os problemas do país, mas que não duvida da grandeza dessa pátria amada e tem um discurso otimista de futuro. Adorei o livro e pode se dizer que é uma versão enxuta da história do Brasil do descobrimento até a ditadura militar. Adorei.
Esta é uma obra de leitura tão indispensável para o brasileiro, que qualquer agenda política fica em segundo plano. Há tantas camadas e ângulos que sinto precisarei relê-lo daqui um tempo. Quebra paradigmas do passado e discursa sobre o futuro como se tivera sido escrito ontem (o foi há 30 anos atrás).
Apesar de ter elementos problemáticos e que podem ser questionados frente a estudos mais recentes, merece sem duvida alguma sua posição de clássico, sendo uma das análises mais geniais da formação e dos desafios do povo brasileiro. Além disso, a escrita de Darcy Ribeiro é simultaneamente muito culta e clara, sendo um grande prazer de ler.
Interessante, até pela influência nefasta que teve em nossa esquerda, mas um fracasso. Propõe o Brasil como uma nova, e melhor, Roma. Embuste de autoengano de quem vivia em rebelião contra Deus.
O que não significa que não tenha algumas informações e análises úteis.
Excelente livro para entender com mais profundidade a história do Brasil e a formação da gente brasileira. Sai dessa leitura mais amante do povo brasileiro, mestiço, guerreiro, muitas vezes órfão e com uma história cheia de marcas.
É frequente que eu me veja em situações nas quais eu tento explicar, geralmente no bar, a partir de abstrações bastante ineficientes, o que esse livro tenta fazer com rigor acadêmico mas sem se esquivar de um lirismo que beira uma poética das explicações de origem. Quem é o povo brasileiro? O que nos torna iguais entre nós e diferentes de todo o resto? Partindo de uma narrativa histórica não linear, Darcy Ribeiro fornece hipóteses para essas perguntas a partir de um argumento rigorosamente revolucionário, procurando pistas na terra, na ecologia, no fenótipo, no subconsciente, na luta de classes e numa crítica inflexível às oligarquias e elites que sempre fizeram do Brasil o seu próprio projeto, excluindo um povo que tenta, ao mesmo tempo, se descobrir como entidade e se construir como nação. Em quatro partes principais, Darcy passa pela formação de uma “proto-etnia” brasileira gerada a partir da subjugação e consequente miscigenação de negros e indígenas, depois pelas situações locais, ecológicas e socioeconômicas nas quais essa proto-etnia foi posta, diferenciando-se localmente, chegando até os processos socioculturais (e sempre também econômicos) que imprimiram nesses brasileiros localmente diferenciados suas culturas, fenótipos, relação com a terra, com o trabalho, suas misérias e sua luta por uma busca por identidade. Finalmente, a partir dessa matriz, Darcy discute as, para ele, principais categorias socio-culturais-históricas brasileiras: os Crioulos, os Caboclos, os Caipiras, os Sertanejos e os Gaúchos e Gringo-Nipo-Brasileiros. Essa discussão volta a particularidades da formação de cada um e seu desenvolvimento históricos até a contemporaneidade. Deixa de lado explicações de conceitos como “preguiça”, “cordialidade” e etc, mas sim enraíza os modos de ser do brasileiro a partir da sua relação com a terra, com o ambiente e com o trabalho. Central, é como isso sempre foi marcado e definido por uma oligarquia latifundiária e, mais recentemente, também moderna, urbanizada e empresarial. Num país de dimensões continentais, essa oligarquia foi capaz de unir o brasileiro em denominadores comuns como a miséria e a dependência externa, reprimindo violentamente as incontáveis insurgências e lutas que tentaram buscar autonomia para a construção de um país voltado para seu próprio povo, e não para o capital estrangeiro. Surpreendentemente, mas intrinsicamente ligado a esse processo, o país mais diverso do mundo mantém uma coesão única que vai além da identificação territorial, mas chega ao nosso subconsciente. Vale a nota de que, como boa ciência, esse livro é uma hipótese. À luz importantíssima do continuado (e ainda pequeno) acesso de negros e indígenas no academicismo brasileiro, muito do que está colocado deve ser rigorosamente revisto, já que pode não só estar ultrapassado, como simplesmente equivocado. Meu amigão @thomazpinotti já me alertou de pecadilhos do ponto de vista antropológico.
Um livro esclarecedor e fundamental para compreender a formação do povo brasileiro desde suas origens. Darcy estuda como nossa miscigenação inicial se deu e como somos um povo que nasce da falta de identidade -- daqueles mestiços que não eram portugueses, nem índios, nem africanos, e tiveram que se reinventar e achar um lugar na economia.
O autor estuda também a formação dos nossos diversos tipos, como o gaúcho e o sertanejo, mostrando qual o processo político-econômico que os deu origem e seu papel na economia. Mostra como somos um povo de pobres e oprimidos que, como fruto de diversas escolhas políticas da elite, continuou a ser pobre e desprezado.
Na introdução, Ribeiro mostra que a formação de um novo povo, o brasileiro, deu-se pela confluência de índios, portugueses e negros africanos, resultando em uma etnia nacional própria, permeada de contradições, antagonismos e disparidades regionais e sociais. É um texto preocupado com a formação desse novo povo. Não é um livro de história, mas sim de antropologia étnica e cultural do Brasil, concentrado na época da colonização e seus posteriores desdobramentos étnico-culturais. Na primeira parte da obra, o autor diz que havia várias tribos fragmentadas à época da chegada dos europeus em terra brasileira. O povo tupi era a maior etnia e a mais fragmentada. Espanha e Portugal, com seu projeto de uma cristandade unificada, formavam macroetnias maiores e mais abrangentes. Os índios viam os europeus com curiosidade e desejo de partilha de um novo mundo. Já os europeus viam os índios como objeto de conquista e utilidade. Nesse contexto, a conquista dos índios se deu pela força, pelas doenças disseminadas pelos europeus, pela escravização e pela catequese. A igreja tentou criar uma “indiniedade cristianizada”, mas contribuiu nesse processo de subjugação dos índios. Portugal deu origem a um povo-nação peculiar e mestiço. A conquista e a catequização foram instrumentos para enriquecimento das elites. Com o tempo, novas mudanças tecnológicas, culturais e sociais foram sendo consolidadas com a penetração da influência portuguesa na colônia. Na segunda parte, o autor trata da “gestação étnica” brasileira. Diz que o cunhadismo, prática de casar índios com europeus, possibilitou ampla miscigenação entre os povos. Várias foram as formas de vencer os índios e implantar novas estruturas organizacionais e institucionais em solo pátrio. No século XVI, a maioria dos índios foi subjugada e exterminada através do processo de escravização. Com efeito, os brasilíndios (mamelucos), miscigenação entre índios e europeus, expandiram o domínio português na colônia. Já os afro-brasileiros resultaram da importação de escravos africanos com a miscigenação com as outras etnias. Surgiram neobrasileiros com novas comunidades urbanas e rurais incipientes caracterizadas pela miscigenação. A partir disso, tem-se uma identidade étino-cultural coletiva, a brasilidade, que passa a identificar o amalgama dos grupos individuais. O brasileiro foi tomando consciência de si paulatinamente. Ao longo dos séculos, índios foram sendo massacrados. Por meio da colonização e expansão das atividades econômicas (exploração mineral, açúcar, pecuária), a população brasileira se estendeu pelo território. Na terceira parte, Ribeiro trata do processo sociocultural. A terra brasileira sempre foi marcada por conflitos, mas com a chegada dos europeus, houve subjugação. As classes dominantes empresária, burocrática e eclesiástica possibilitaram o empreendimento colonial português. Os índios foram conquistados e transformados em brasileiros. O Brasil, desde seu início, começou a se desenvolver e se consolidar como cidades. Aceleração da industrialização e urbanização geraram grandes distorções sociais, tendo por resultado a deterioração urbana. Há muitos brasis estratificados em classes. As desigualdades sociais abruptas inviabilizam a mudança de classes. A raça é uma característica indutora de classe. Há muita segregação devido à cor e à classe, mas ainda assim se mantém um país com uma identidade nacional. O brasileiro tem por característica ser espontâneo e autônomo do domínio burocrático. O arcaico e o moderno convivem em meio ao desejo por modernidade e manutenção dos privilégios e estruturas de dominação. Várias etnias e culturas foram transformadas e aglutinadas dando origem à cultura brasileira. Na quarta parte, o autor trata dos brasis na história. Diz que os brasis não são fruto de um desenvolvimento linear, mas sim da confluência de fatores étnico-culturais que formaram uma nação plural e de identidade nacional própria. Ribeiro apresenta cinco brasis. O Brasil crioulo tinha sua economia centrada nos engenhos de açúcar em torno de uma grande casa e senzala. Era um sistema agrário-mercantil de colonização e de escravismo. Foram os escravos que se revoltaram. O Brasil caboclo tinha a prática extrativista do seringal. Os portugueses se consolidaram na Amazônia. Ao se envolverem com as índias, deram origem aos caboclos que avançaram com a prática extrativista para dentro da Amazônia. Já no Brasil sertanejo, houve o desenvolvimento da especialização do pastoreio de gado no nordeste, relações de dependência com o governo federal e liderança locais. Ribeiro ainda apresenta o Brasil caipira e os brasis sulinos: gaúchos, matutos e gringos. Por fim, Ribeiro diz que o Brasil se formou pela aglomeração de etnias que não são levadas em conta pelas elites, perpetrando injustiças e desigualdades abissais. Face a isso, é preciso uma união dos latinos em meio a suas diferenças.
Embora hesite em me afiliar totalmente a alguns conceitos do livro, muitos dos quais não são definidos com precisão (ex atraso, civilização, etnia, matriz formativa, gênero humano, dentre outros), O Povo Brasileiro é escrito com o coração de quem ama o Brasil e com a desenvoltura de quem compreende bem os traumas e singularidades de nossa formação.
Há um esforço claro de forjar na alma do livro certa consciência e sentido, uma espécie de consenso relativo ou trabalho de síntese sobre quem somos. Acredito que por isso talvez O Povo Brasileiro seja uma salada tão grande entre tantas teses diferentes sobre nossa formação (embora não contraditórias, pelo menos nessa primeira lida). Nessas horas compreendo o porquê de Darcy ter sido criticado, por um lado, por ser marxista demais; e por outro, por ser marxista de menos. Não nego também que minha relativa dificuldade em assimilar alguns conceitos e teses se explica pela carência de contato com a antropologia como área de estudos, o que não me permitiu apreender com confiança algumas ideias expostas pelo Darcy.
Considero O Povo Brasileiro um esforço válido e bastante fecundo, sobretudo para os que estão tentando compreender "de primeira viagem" o que é o Brasil e o povo brasileiro. Por isso, indico totalmente como um texto introdutório. Darcy não deixa de dialogar com os nossos clássicos e por isso se insere na tradição sociológica brasileira sem rejeitá-la por inteiro, diferente do que tem feito alguns sociólogos contemporâneos com mania de grandeza. Acredito que O Povo Brasileiro se insere também, contextualmente, em uma série de escritos que depositam muita esperança na redemocratização, que ainda não tinha dito pra que vinha e que necessitava de braços para a sua futura construção. O Povo Brasileiro é, de certa forma, um "olhar pra trás pra prefigurar o Brasil que há de ser".
A quarta parte do livro (Os Brasis na História) foi sem dúvidas a parte que mais contribuiu com elementos novos pra >minha< interpretação de Brasil, pelo menos em comparação com a primeira e segunda partes (O Novo Mundo, Gestação Étnica e Processo Sociocultural). É possível argumentar mesmo que existem trabalhos mais completos discutindo a formação do Brasil como simultaneamente uma colônia voltada para fora, a brutalização do negro na sociedade de classes e a síntese do elemento nativo indígena com o invasor português (questões abordadas na primeira e segunda partes do livro). O que importa em Darcy, contudo, é mais uma exposição sintética dotada de sentido e significado para que ela possa dialogar de forma mais maleável com os muitos "Brasis" de hoje do que um longo trabalho de fôlego sobre o Brasil colonial. Aliás, mesmo não sendo uma exposição detalhada ou particularmente inovadora, essas partes ainda tem muito a dizer e apresentam elementos importantes pra pensar o Brasil. Nada a reclamar!
Ainda preciso quebrar a cabeça sobre certos pontos do livro (alô estrutura de classes esquisita). Certamente vou revisitar no futuro e talvez complemente com outras obras desse grande brasileiro que foi Darcy Ribeiro. Recomendo!
Ao longo das páginas, Darcy repete vários argumentos e analisa praticamente os mesmos objetos repetidamente, apenas por perspectivas levemente diferentes. De fato, há poucas questões novas a serem estudadas nas partes III e IV, pois quase tudo ali tratado já havia sido analisado, com mais ou menos detalhes, nas partes I e II. Essas repetições não parecem ocasionadas por uma circularidade temática intencional, como ocorre em Casa-Grande & Senzala; mas à pressa e à urgência com que Darcy escreveu esta obra.
Os indícios textuais da pressa são vários e se distribuem por camadas diferentes do texto. O mais evidente já foi mencionado: as repetições sistemáticas entre as partes, que sugerem um autor reunindo e sobrepondo rascunhos de épocas distintas sem tempo para uma revisão integradora que os harmonizaria. Um texto cuidadosamente revisado absorve suas próprias redundâncias ou as transforma em retomadas deliberadas, com função argumentativa clara; aqui, as retomadas simplesmente reaparecem, frequentemente sem acréscimos analíticos significativos.
Há um segundo indício mais sutil: a oscilação do pulso dentro de um mesmo capítulo. Em vários momentos, a prosa científica e histórica, cedem abruptamente a passagens que têm a cadência e o calor de um discurso oral, quase de palanque (apenas alguns exemplos: pp. 108, 184, 187, 189, 201, e muitos outros). Isso não seria, necessariamente, um defeito de estilo; mas pode ser visto como um sinal de que distintas camadas de escrita, produzidas em diferentes momentos e disposições de espírito, foram justapostas sem uma revisão que as uniformizasse. O próprio Darcy oscila, por vezes na mesma página, entre o antropólogo que descreve e o militante que acusa. Um terceiro elemento é a desproporção entre a densidade analítica das partes I e II, e o caráter mais descritivo, quase catalográfico, das partes III e IV. A impressão é a de que o autor esgotou seu fôlego teórico nos fundamentos e, nas partes finais, correu para dar conta do material empírico que havia prometido tratar, sem o mesmo rigor de elaboração. É como se o livro tivesse dois centros de gravidade desalinhados: o argumento final é apresentado antes do texto terminar.
Por fim, outro indício que o próprio prefácio fornece involuntariamente. Darcy descreve o processo de escrita cercado por contextos de fuga, urgência e iminência da morte, e isso ultrapassa uma questão de ordem biográfica, evidenciado uma confissão estrutural. Um livro escrito às pressas antes que o autor morra é, por definição, um livro que aceitou ser incompleto. Que preferiu ser um ato imperfeito, à não-existência, numa eterna potência. O texto carrega esse peso, e o leitor atento o sente. “[...] Creio que nenhum livro se completa. O autor sempre pode continuar, por um tempo indefinido, como eu continuei com esse, ao alcance da mão, sem retomá-lo. O que ocorre é que a gente se cansa do livro, apenas isso, e nesse momento o dá por concluído. Não tenho muita certeza, mas suspeito que comigo é assim [...]” (p. 11 do Prefácio)
"O Povo Brasileiro", de Darcy Ribeiro, é uma obra monumental que busca compreender e explicar a formação do povo brasileiro. Publicado pela primeira vez em 1995, o livro é um testemunho da paixão e do compromisso de Ribeiro com a análise crítica da identidade nacional e da complexidade sociocultural do Brasil.
Darcy Ribeiro, antropólogo e sociólogo, utiliza uma abordagem interdisciplinar para dissecar a evolução histórica, social e cultural do Brasil. Ele traça a trajetória do povo brasileiro desde os tempos pré-colombianos até o final do século XX, investigando a confluência de influências indígenas, africanas e europeias que moldaram a nação. Ribeiro não apenas descreve os eventos históricos, mas também procura entender as dinâmicas de poder, resistência e mestiçagem que deram origem à singularidade do Brasil.
A obra é estruturada em torno de conceitos como a "matriz tupi", a "matriz luso-brasileira" e a "matriz afro-brasileira", que representam as três principais correntes étnicas e culturais fundadoras do povo brasileiro. Ribeiro explora como essas matrizes se entrelaçam e interagem, formando o crioulo, o caboclo, o sertanejo, o caipira e os sulinos, bem como resultando em uma sociedade marcada pela diversidade e pela desigualdade. Ele argumenta que a mestiçagem é a característica central da identidade brasileira, não apenas em termos biológicos, mas também culturais e sociais.
Um aspecto notável do livro é a forma como Ribeiro aborda a questão da resistência cultural e da luta pela sobrevivência dos povos indígenas e africanos no Brasil. Ele destaca a resiliência dessas populações em face da opressão colonial e escravista, sublinhando a importância de suas contribuições para a formação da cultura brasileira. Essa perspectiva desafia as narrativas tradicionais que tendem a minimizar ou ignorar essas influências, oferecendo uma visão mais inclusiva e crítica da história do Brasil.
Além de seu valor acadêmico, "O Povo Brasileiro" é também uma obra de grande relevância política. Ribeiro critica as desigualdades persistentes na sociedade brasileira e a exclusão social de vastos segmentos da população. Ele defende uma reavaliação das políticas públicas e uma maior valorização da diversidade cultural como meios para construir uma sociedade mais justa e inclusiva.
Críticos costumam a reclamar da generalização excessiva, do foco da mestiçagem olvidando especificidades de grupos sociais ainda presentes, da visão marxista, do viés politico e da idealização da sociedade brasileira.
Em suma, "O Povo Brasileiro" é uma leitura essencial para qualquer pessoa interessada em entender as complexidades da identidade nacional brasileira. A obra de Darcy Ribeiro é um convite à reflexão sobre as raízes históricas e culturais do Brasil, bem como um apelo à ação para enfrentar os desafios contemporâneos de desigualdade e exclusão. É uma contribuição inestimável para a antropologia, a sociologia e o pensamento crítico brasileiro.
Um livro canônico para entender a formação do Brasil e da matriz multiétnica que nos compõe como nação.
O Povo Brasileiro conta a história do Brasil desde seu descobrimento e mostra como índios, negros e colonizadores atuaram nesse caldeirão cultural. O livro tem 3 facetas bem definidas:
Primeiro pinta um retrato dos índios. Mostra como a região estava num processo prévio à revolução agrícola e formação de civilizações, onde diversas tribos de matriz Tupi (a língua compartilhada) se relacionavam sem formar um império de fato, competindo com tribos de outras matrizes linguísticas e diferentes costumes.
Em segundo mostra o impacto dos colonizadores (não só portugueses) ao entrar em contato com esses índios, mas também da massiva inserção de povos africanos. Daí nasce o brasileiro, miscigenação desses povos, e é daí que o Português substitui o Tupi como nossa língua oficial (não por mero interesse de Portugal).
Por fim, o livro nos conduz pela formação dos diversos brasis: criolo, caboclo, sertanejo, caipira e sulista, forjados por povos distintos, em condições específicas e resultando em diversas nações menores dentro de nossa pátria.
O Povo Brasileiro tem caráter não só historico/antropológico mas também político. Darcy como um dos mais renomados intelectuais brasileiros do século passado, nos conduz do descobrimento as atualidades, escancarando problemas que vão das tradicionais cartilhas militantes (minorias, reforma agrária, etc...) até problemas fundamentais (corrupção, a própria condição étnica que nos faz ter preconceito de nós mesmos, e por aí vai).
Longe de oferecer soluções ou só problematizar o Brasil, a obra é um ensaio fundamental sobre de onde viemos e o que somos. E para entender ou especular sobre nosso futuro é essencial termos a noção de que somos produtos de uma mistura complexa e diversa, um aglomerado de diversas nações distintas dentro de uma só fronteira que chamamos de Brasil.
Comecei a ler por causa do quarto capítulo, especialmente no tocante ao Brasil Caipira, no entanto, o livro se mostrou extremamente interessante do início ao fim. As teses da ninguendade e da diferenciação entre racismo gótico e racismo barroco são bem pertinentes. O gótico é o racismo à moda americana, com um sistema óbvio de apartheid. O barroco é o racismo à moda brasileira, com um sistema de apartheid parecido com o americano, mas não muito óbvio; é mais sutil, sem escolas apenas para negros ou apenas para brancos, mas, ainda assim, com escolas frequentadas apenas por negros e escolas frequentadas apenas por brancos...
"Metido pelos matos, à caça de índios e índias, estas para os exercícios de suas torpezas e aqueles para os granjeios de seus interesses [...] nem sabe falar o português [...] nem se diferencia do mais bárbaro tapuia mais do que em dizer que é cristão e não obstante o haver se casado de pouco lhe assistem sete índias concubinas [...]" —Bispo de Olinda sobre Domingos Jorge Velho, o capitão bandeirante que liquidou o quilombo de Palmares, 1694.
Nesse livro também aprendi algumas coisas interessantes, como o quão comum era falar a língua geral paulista entre os séculos XVI e XVIII, língua essa de base indígena e que posteriormente ajudou a dar luz ao dialeto caipira, e também aprendi que os bandeirantes venderam uns 300 mil índios escravizados para os senhores de engenho do Nordeste do país.
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O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro, é um livro ambicioso e envolvente, uma tentativa monumental de compreender as origens e contradições do nosso país. A escrita é erudita e apaixonada, cheia de panoramas que atravessam séculos, povos e conflitos — e há um prazer real em acompanhar o autor montando, passo a passo, a imagem complexa do que viria a ser o Brasil. Li com atenção e aprendi muito; várias passagens ficaram marcadas, ideias que passaram a dialogar com o que vejo no presente.
Dou quatro estrelas porque, apesar da riqueza, o livro me exigiu demais: a densidade teórica e a abundância de referências pediram tempo e fôlego, e em alguns momentos a leitura ficou mais pesada do que eu gostaria. Gostaria que certas passagens fossem um pouco mais enxutas ou que o ritmo permitisse respiros mais frequentes; às vezes a erudição se sobrepõe à fluidez, o que transforma o prazer em esforço. Também senti falta de uma voz crítica que, de maneira mais explícita, problematizasse algumas das certezas do autor à luz de debates contemporâneos, sem perder, claro, o alcance histórico da obra.
No balanço, é leitura imprescindível para quem quer entender o país: poderosa, formadora e por vezes avassaladora. Me tomou bastante tempo, mas valeu cada página — saí da leitura com a cabeça mais cheia e o olhar mais atento.