Criada em uma rígida família alemã, Gisela sofre por se sentir exilada em um mundo comandado por sua avó, a temida e autoritária matriarca Frau Wolf. Dividida entre a obrigação de seguir as duras normas da educação alemã e a vontade de ser como as outras crianças, admirando a mãe, uma 'intrusa' que tenta se integrar na família 'germânica', a menina cresce ambivalente, censurada pelo olhar crítico da avó e sentindo-se à sombra da prima, a preferida e perfeita Anemarie. Em 'A Asas Esquerda do Anjo', Gisela conta a história de sua família, seus segredos - escondidos metaforicamente em uma portinha no porão; as mortes dolorosas e o anjo que guarda o mausoléu dos Wolf; os anseios e a culpa que a impedem de viver uma relação amorosa; a busca incessante pela aprovação em um lugar onde ela jamais seria igual aos outros.
Lya Luft was a Brazilian writer, a novelist, a poet, a prolific translator (working mostly in the English-Portuguese and the German-Portuguese language combinations) of German descent. She was also a college professor of linguistics and literature.
"Eu sabia: a carne exigia cumplicidades terríveis. Ser boa dona de casa significava entrar na cozinha, mexer em coisas desagradáveis, preparar, calcular, acertar, ouvir reclamações, suportar olhares de desaprovação. Correr para agradar a um marido, a uma família. À noite, na aparente quietude do quarto, outras obrigações aguardavam as mulheres: dessas, especialmente,eu não queria saber."
A asa esquerda do anjo (1981), de Lya Luft
Lembro uma fala de uma professora incrível que tive na graduação em Letras. Na ocasião, falávamos de Balzac; de como Balzac, em vida, se considerava monarquista e reverenciava a aristocracia. Suas obras, plenas em esmiuçar a corrupção e podridão existencial dessa mesma aristocracia francesa, parecem apontar um dedo de acusação para seu autor: a quem dar ouvidos, você (a origem da minha existência literária), ou eu, sua literatura (o que de fato perdurará na humanidade?)
Pra mim, a resposta é: a literatura. Assassino o autor e fico com a sua literatura, que é o que importa.
Pois bem. É assim que penso quando falo de Lya Luft. É conhecida, para quem mora no RS, a importância de Lya. De fato, li dois de seus livros na adolescência (As Parceiras e Reunião de Família) e lembro de ficar abismada com os tons góticos, perturbadores, sensuais e profundamente sensíveis para as questões que aportam as experiências disfóricas de mulheridade (claro, ainda restrito a uma vivência de personagens brancas e de classe média/alta).
A especialidade da literatura de Lya Luft, no entanto, é de esmiuçar as farsas que sustentam esses monólitos da corrupção da classe alta, branca e patriarcal do Rio Grande do Sul.
A autora votou em Jair Bolsonaro em 2018. Escreveu, por anos, colunas na revista Veja, textos ancorados no forte sentimento antipetista. Em 2020, disse que se arrependeu do voto e o justificou com o argumento de que "queria outro Brasil". Pois bem, que Brasil, Lya?
Quando voltamos o olhar para a sua obra, vemos questões que colocariam essa Lya, um dia bolsonarista, no vazio articulatório.
No caso da obra aqui analisada, A asa esquerda do anjo, é precisamente as facetas de brasis que a narradora, Gisela (ou Guísela, em alemão), ancora sua divisão existencial: oriunda de uma família com origens alemãs, ela pondera sobre qual seria a sua identidade. Sua mãe, reprovada pela matriarca alemã e avó da narradora por ser "brasileira" e não falar alemão, nasce em um estado de sol, de calor - em oposição às geadas, ao vento cortante do Sul. A divisão entre Gisela e Guísela, alemã ou brasileira, mulher boa ou mulher transviada, fogo ou gelo, permeia esse livro agoniado, bruto e, por que não dizer, corajoso.
Gisela é acossada pelo estreitamento da moralidade dessa família "alemã", cujos vértices apontam para a submissão da mulher, para o entendimento de que há uma superioridade no "sangue puro", dos alemães, e no "sangue sujo", dos brasileiros. Gisela é abatida por essa família, recusa a existência e vive entre a ansiedade, a repulsa, o desejo e presencia o decair físico e moral de sua família.
Pertubados, encontramos a narradora-personagem no momento de parto de um ser monstruoso, que rasteja do seu esôfago para a boca. Para que esse parto aconteça, ela rememora sua existência dentro da Familie Wolf.
O fato é que as obras de Lya sempre pertubam, incomodam, despertam um vislumbre interessado na corrupção dessa famílias ancoradas no sentimento de superioridade em terra brasilis. Suas obras, ao contrário dos pensamentos particulares da autora, são extremamente críticos. A escrita da autora, além disso, é pungente.
Essa obra, dentre tantas da melhor fase da escritora, coloca a bolsonarista Lya em absoluto silêncio frente as temáticas que sua narradora esmiúça em perfeitos tons góticos.
Nessa contradição entre autora e obra, vemos que seus textos ficcionais (falo de seus livros publicados entre os anos sessenta, setenta e oitenta, quando sua força ficcional pulsa, e não em, por exemplo, Perdas e danos (2003), que considero a fase mais fraca da autora) entregam uma profunda análise existencial interessada em personagens mulheres, sempre ambivalentes, perturbadoras, insubmissas.
No final, são as obras que ficam.
P.S: Avaliei o livro com 3.5 estrelas. Como não temos essa opção aqui, achei melhor apontar as quatro estrelas, porque pra mim ficam mais pertos da avaliação do que apenas três estrelas.
O arrastar doloroso do tempo na vida daquela que nunca teve coragem de amar; assim poderia ser definida a história de A Asa Esquerda do Anjo. Denso, lírico, visceral e desconcertante. Faz-nos pensar nos monstros que cultivamos dentro de nós e que nos ocupam a tal ponto de não sobrar espaço para a totalidade da experiência da vida.
Esse livro me chamou a atenção quando vi um cara no Twitter dizendo q este livro é q despertou a vontade de ler. E continuo curiosa sobre como um livro tão pesado e mórbido tenha deixado uma pessoa com vontade de ler mais. Talvez seria a esperança de encontrar algo melhor. O livro não chega a ser ruim, mas...me passou uma energia pesada, não há redenção, conclusão ou o que o valha
me fez pensar demais no "denial of death" do ernest becker e como o corpo feminino demanda sempre um retorno à natureza e, por isso, à morte. como é impossível para a mulher escapar do físico para o simbólico totalmente.
Eu encontrei esse livro quando procurava rasgos alemães na literatura brasileira e fiquei com um livro curioso. Não acontece muito, mas ao mesmo tempo acontece bastante na mente da Guísela. Achei muito curioso o discurso da identidade da protagonista que se sente incapaz de amar ou tem medo. Pode ser que se arrepende dessa decisões… mas o protagonista verdadeiro é o fantasma de Annemarie, a menina perfeita. A coisa da nacionalidade e questão alemão em geral também interessante.
narrativa pesada, (propositadamente, suponho) confusa, angustiante. alguém falou aqui e concordo, é um livro bastante corajoso, pela abordagem quanto a morte, sexualidade, diferenças étnico-culturais. Só achei um pouco perdido em alguns aspectos, principalmente quanto ao "parto" - pareceu um elemento grotesco sem contexto.
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