O poema haiku não inferioriza nem zomba, não se serve do intelecto, valoriza as coisas pequenas, valendo-se da surpresa e de um reduzido vocabulário, começa ainda antes da primeira letra da primeira estrofe e acaba muito depois da última sílaba da terceira estrofe. É poesia despersonalizada, já quase fora da linguagem comum, nasce no silêncio, atravessa, como um relâmpago, o olhar do contemplador e regressa ao silêncio; e enquanto existiu pareceu durar o tempo de um movimento respiratório. Resultante em grande parte da contemplação da beleza e comportamentos da natureza, este estilo poético assume-se como fenómeno que transcende o pessoal, é puro presente, é um momento suspenso, eterno em si mas que não volta a acontecer. Nele, desaparece a separação observador/observado, para dar lugar à ausência de ego, à manifestação do sublime. No final da breve leitura do poema, o leitor arrisca-se a ser percorrido por um calafrio que não poupará nenhuma célula do seu corpo; talvez o seu olhar se semicerre e se suspenda no seio de um horizonte para além do horizonte visível; talvez assome ao canto dos seus lábios o movimento de um sorriso somenteperceptível pelo olhar puro das crianças e dos animais. imóvel contemplo a lua e os outros pensam que sou cego
Known Japanese poet Matsuo Basho composed haiku, infused with the spirit of Zen.
The renowned Matsuo Bashō (松尾 芭蕉) during his lifetime of the period of Edo worked in the collaborative haikai no renga form; people today recognize this most famous brief and clear master.
Cheguei a Matsuo Bashõ, poeta japonês, através de um romance alemão, "Die Kieferninseln" de Marion Poschmann. E foi, na verdade, uma boa experiência e uma interessante descoberta.
A poesia de Bashõ é simples. Natural. Sem grandes artefactos. E é, ao mesmo tempo, profunda. Sensível. Observadora.
Tendo-se tornado no poeta mais famoso do período Edo no Japão, Bashõ escreveu sobre a natureza e sobre a vida. Criou uma forma de poesia, o haiku, e este livro é um livro de haikus. Ao que parece reune quase todos os poemas do japonês. E é também uma lufada de ar fresco, uma "limpeza" à alma. Fica-se mais leve, mais solto, (ainda) mais atento à magia das pequenas coisas e dos momentos que, apesar de rápidos no tempo, não perdem em intensidade e em significado.
“O eremita viajante” é, certamente, um dos livros mais bonitos que li nos últimos anos – e não me refiro apenas ao conteúdo, esta edição de capa dura da Assírio&Alvim é realmente um regalo para os sentidos. A consistência e a suavidade da capa, a delicadeza dos traços do desenho e das suas cores, os padrões azuis e brancos que envolvem a poesia criam um objecto que potencia a serenidade que os haikus de Matsuo Bashô suscitam. O livro acompanhou-me ao longo de duas semanas, seguiu-me em viagens breves, seguiu-me em subidas à Serra; foi lido no silêncio da Natureza, na confusão dos transportes públicos, e em qualquer um desses cenários nunca falhou na tarefa de me unir profundamente às sensações e emoções que cada haiku traduzia – o entusiasmo revelou-se tão forte que a leitura foi acompanhada de uma parafernália de notas, onde registava os haikus que mais fortemente me tocavam.
A introdução é brilhante, apresenta de forma simples e descomplicada a origem e evolução do haiku, e presta-se a dotar-nos de um olhar compreensivo da vida e obra do autor: leia-se antes ou depois dos haikus em si, sugiro que a introdução não seja descurada, uma vez que enriquece enormemente o entendimento que podemos fazer dos poemas. Os pequenos poemas de três versos (com a métrica sonora de 5-7-5 sílabas) derivam da poesia haikai, e correspondem à primeira estrofe dos mesmos (hokku): os poetas utilizavam os hokkus para sugerir as estações do ano e as temáticas dos poemas, fazendo com que estes três versos funcionassem um pouco como a matriz, como a síntese de todo o universo incluído no poema. Ora, mergulhar na poesia de Matsuo Bashô (“Bashô” significa bananeira, um nome artístico adoptado pelo poeta) fez-me sentir que isso é atingido na perfeição, três estrofes conseguem ser mais evocativas e construir a mais detalhada das imagens e das sensações sem a necessidade de recorrer a descrições exaustivas. Os haikus funcionam mesmo como imagens, como um fragmento do tempo/lugar, como fotografias que imobilizam pedaços do tempo, pedaços únicos e isolados que jamais se repetirão (agora que escrevo e que reflicto sobre isto não posso deixar de pensar em Roland Barthes: na verdade o próprio Matsuo Bashô é citado a respeito da morte e da forma como a morte está contida em todos os haikus já escritos, em todos os poemas que foram escritos no passado)… mas que podem, no entanto, ser evocados. E que podemos sentir na pele enquanto os lemos. Um rápido exemplo:
“O Outono está no fim, e desejo ver as coloridas folhas das cerejeiras. Entrei pela Montanha de Yoshyno, mas as minhas sandálias de palha magoaram-me os pés; fiz uma paragem para descansar, pondo de lado o bastão de caminheiro.
folhas pelo chão e no meu chapéu de tiras de madeira bate a luz que desce da cerejeira”
(1685 - Outono)
A primeira frase, escrita em prosa, é um apontamento do autor, uma descrição do contexto; o haiku é como se fosse o destilar dessas sensações e imagens: nas três frases temos o chapéu na cabeça do caminhante, o material e a leveza dele, a subtileza que é sentir as folhas caídas (outono), a luz a descer pela cerejeira (a ideia de trajecto, de cadência, a luz que desce - também me transporta para uma ideia de cansaço, de outono, de final, de paragem, de descanso).
Por motivos pessoais (e estou certa de que isto é uma redundância, já que até ao momento não escrevi nada que não fosse uma apreciação pessoal), agradou-me especialmente o reflexo da filosofia zen a partir de 1680, altura pelo qual Matsuo Bashô conhece Buttchô, um mestre budista de quem se torna vizinho. A união desta filosofia às longas viagens e caminhadas, que tão presentes estão nos haikus, permitiu a criação de uma poesia que coloca a ênfase na contemplação do mundo natural, numa apreciação compassiva de todos os seres que nos rodeiam e, sobretudo, na prática da humildade. Foram precisas poucas páginas para que este se tornasse um dos livros mais belos que já li.
É um bocado ingrato dar má pontuação a um livro que devia ser lido na sua língua materna para se poder compreender na sua totalidade. Também creio que esta tenha sido a primeira obra deste tipo da Assírio & Alvim. Como tal, admito que as notas de tradução no fim do livro, em vez de acompanhar cada haiku, se tornaram disruptivas durante a leitura, pela necessidade constante de mudança de página. Não me consigo lembrar com toda a certeza, mas acho que nas obras seguintes, tal não acontece. Por mim, também parece mal, mas assim o vou dizer, que Bashō é o pai dos haikus, mas eu prefiro as obras dos que se lhe seguiram (Shikki, Issa e Buson). Isto porque Bashō se centra muito no eremitério, no zen e nos monges, e os seus discípulos se focam mais na natureza. De qualquer forma, é de aplaudir o trabalho exaustivamente académico presente neste livro, de modo a nos dar um melhor contexto para cada haiku.
Ler Bashô traduzido é, em grande parte, uma fraude. A sua poesia vive das idiossincrasias da língua japonesa, desde palavras com múltiplos sentidos ou simbolismos culturais.
É por isso um pouco ingrato criticar um livro traduzido de Bashõ. Na verdade, raramente estarei a falar da sua poesia, que é de facto uma verdadeira arte, mas sim da tradução e edição.
É um livro de cabeceira, para ler com um olhar académico. Acho que a maior parte das pessoas têm uma ideia muito idealista dos poemas de Bashõ como algo muito inspirador, daquelas citações dignas de serem coladas em letras grandes na parede para garantir um fluxo eterno de zen e positividade. Na verdade, o haiku é um exercício que só de vez em quando oferece esse tipo de "frases inspiradoras". Concentra-se muito mais numa observação poética da natureza, por vezes os mais simples relatos de um momento. Como uma fotografia que se ouve.
Uma compilação da obra completa de Bashõ pede uma versão bilingue. Faltou a transcrição dos poemas originais, nem que fosse apenas para o leitor conseguir ouvir um pouco os sons que se produzem nesta técnica. Também achei as explicações de cada poema de vez em quando insuficientes, ainda que compreenda que cada nota completa ocuparia uma página inteira.
De facto, é muito difícil julgar a poesia traduzida de Bashõ: uma tradução que nem sempre me agradou, mas que objectivamente é simplesmente impossível de acertar. Perde-se tudo na tradução; uma obra que pede demasiada contextualização.
Não obstante, deixo um louvor ao simples facto de uma obra como esta ser publicada em Portugal. Enriquece tremendamente as nossas livrarias.
depois de surgir a ideia de ler haikus para oa minha iniciativa de leitura #perpetuandoaasia (@perpetuando.palavras) optei por esta edição portuguesa de matsuo bashô – “o eremetia viajante”. como não ficar enamorada desta edição? esteticamente é lindíssima! mas, para além disso, a sua organização por joaquim m. palma é brilhante! contamos com uma introdução com a origem e a evolução do haiku, a vida e obra do autor e o seu legado poético. temos, também, notas para praticamente todos os haikus com uma contextualização, as técnicas de composição do haiku, a cronologia da vida do autor e um glossário.
este livro é mesmo um objeto de estudo. perfeito para quem se quer embrenhar mais neste mundo e entende-lo na sua totalidade. foi isso que tentei fazer, no início desta leitura: lia cada haiku e a nota que o acompanhava, no entanto, acabei por ficar desmotivada. queria apenas ler e sentir algo automaticamente, sem estudar demasiado o poema. algo que achei difícil acontecer. terá sido a tradução? talvez. mas acredito que não é culpa de ninguém, apenas do caminho que a palavra japonesa no seu original percorreu até chegar ao português. se qualquer língua, mesmo com uma tradução direta, perde autenticidade no processo de tradução, quanto mais a língua japonesa, vinda de uma cultura tão diferente.
relacionei-me com alguns dos haikus na sua estética, no entanto, no seu todo, não ressoaram em mim. ainda assim, achei interessante explorar um pouco da poesia de bashô, tão ligada a conceitos poéticos e filosóficos como sabi (evocação da beleza pela solidão e pelo efémero), wabi (o conforto através de uma existência modesta, a beleza presente nas coisas mais simples) e karumi (a leveza que surge com a ausência do ego). são poemas profundamente visuais, que nos conectam à natureza e aos seres vivos. funcionam mais como o início de uma ideia, deixando espaço para que nós, leitores, tiremos as nossas próprias conclusões. eu cá não cheguei propriamente a lugar algum.
Poesia não é a minha praia, mas tinha bastante curiosidade sobre esta forma poética. Nunca tendo lido haikus, esperava que estes me cativassem por serem tão curtos.No entanto, pelo contrário, para mim pecam por serem curtos. Percebi que os haikus, embora pejados de significado, não têm o ritmo e musicalidade e rima que me cativa na poesia, em parte por natureza, em maior parte por tradução.
Além disso, como estes haikus pertencem a uma cultura, país e período nessa cultura com o qual nunca tive contacto ou qualquer tipo de conhecimento, muitas vezes os haikus não me transmitiam significado nenhum. Valeram-me a introdução e as notas explicativas.
imóvel contemplo a lua e os outros pensam que sou cego
ouvindo a queda de granizo como se este meu corpo fosse uma velha árvore
no mesmo dia nasceram Buda e um pequeno veado
Escrito em Amatsu Nawate, onde os ventos frios voavam do lado do mar. o sol de inverno congelou a sombra do monge sobre o cavalo
uma lareira — chá e biscoitos e cinco pessoas sentadas
um grilo debaixo do elmo — música aprisionada
a minha voz magoada é vento de outono treme a sepultura do poeta
quantas vezes terão batido as asas da borboleta por sobre o muro de terra?
amoreira já com frutos — para a borboleta que os suga é este o seu vinho de eremita?
o meu saké é branco o meu arroz é escuro e neste mundo há flores
ao vento de outono os frágeis ramos e as finas tiras de papel escarlate
esconde-se o cuco mas os apanhadores de chá conseguem ouvi-lo
leva chapéu e capa se fores plantar bambu — mesmo que não chova
o cavalo partiu carregado de ramos e regressou com uma pipa de vinho
uma cascata de águas puras — foi daqui que levaste a água com que cozeste as massas?
o luar de verão batendo nas águas da cascata — nem um grão de pó
na penumbra da casa também os pratos e tigelas apanham o ar fresco da noite
No Verão de 1694, enquanto estive em Otsu, o meu irmão escreveu-me perguntando se eu não gostaria de voltar a casa para a Festa dos Antepassados. famílias bengalas e cabelo cinzento — todos visitando sepulturas
trevo a cor do vento plantada ao acaso num jardim
o grilo à noite deita-se na cama do javali
outono — porque será que envelhecer é como um pássaro dentro das nuvens?
crisântemos brancos — nem um grão de pó sobre as pétalas
cascata de águas puras — dispersas por sobre as ondas agulhas verdes de pinheiro
como uma menina a lua crescente vai cedo para a cama
escrito por Matsuo Basho, esta coleção de haikus é uma jornada poética pelas paisagens e reflexões do japão do séc.XVII. o autor leva-nos a explorar montanhas, rios e aldeias através desta forma de poesia breve e profunda. cada haiku capta um momento na natureza ou na vida quotidiana, revelando a beleza e efemeridade do mundo ao nosso redor, e foi isso que mais gostei.
gostei muito dos temas gerais desta coletânea: as estações do ano. sentimos uma conexão com a natureza através das palavras de Matsuo Basho, que nos convida a compartilhar as suas meditações sobre a vida e as descrições deliciosas de cada estação. não é surpreendente que os meus haikus favoritos estejam relacionadas com o outono ou inverno, mas na verdade há para todos os gostos.
quando lido num ambiente propício e com atenção, conseguimos também refletir sobre a nossa própria jornada interior e lembramo-nos de apreciar os pequenos momentos da vida.
‘o eremita viajante’ é uma jornada de autoconhecimento e contemplação da beleza fugaz do mundo, enriquecida pela linguagem delicada e poderosa do haiku.
não posso deixar de mencionar a introdução deste livro, onde conhecemos a história de Matsuo Basho e aprendemos sobre a construção de um haiku. foi muito giro e interessante.
recomendo muito a quem goste de poesia, pois já tem a sensibilidade suficiente para gostar de (pelo menos) alguns destes haikus. recomendo também a quem não lê ou não gosta de poesia, pois encontram aqui uma forma diferente e, por vezes, simplista de refletir sobre as maravilhas efémeras da vida.
Uma curiosa entrada na poesia Japonesa dos anos idos de 16xx O no fim do livro esta uma magnifico glossário e um trabalho de explicação sobre os poemas, estados de alma do poeta.