O confronto entre o Arcanjo Miguel e as tropas revolucionárias de Gabriel devastam as camadas do paraíso. Todas as legiões estão divididas, então, os generais criam uma trégua frágil e delicada. Quando dois anjos são enviados ao mundo dos humanos para a missão de resgatar Kaira, a capitã dos exércitos rebeldes, eles são jogados em tramas de uma conspiração milenar, planos que, se concluídos, revertem o equilíbrio das forças no céu, ameaçando toda a vida humana. É ao lado de Denyel, um ex-espião em busca de anistia, que os celestiais partirão para a jornada através de locais onde demônios e deuses são seus inimigos, numa trilha que os levará às ruínas da maior nação terrena anterior ao dilúvio – o reino de Atlântida.
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Trechos sublinhados: "...Olhou para as montanhas e viu uma figura dourada aparecer na sua frente. O frágil tecido da realidade lançou vibrações no momento em que a aura se condensou, com os contornos se tornando visíveis, para enfim se manifestarem na imagem de uma criatura quase humana. Trajava uma armadura de ouro que o cobria inteiramente. O elmo era na verdade um capacete finíssimo, uma touca metálica que protegia a cabeça, deixando o rosto à mostra. Os cabelos cor de mel desciam soltos pelas costas, onde as duas asas de penas brancas se dobravam num vinco. A silhueta era delgada, com traços serenos. Da cintura, pendia uma bainha metálica, escondendo a lâmina da inigualável Flagelo de Fogo... Observou o vale mais abaixo, reparando na cidade na base do morro. Da rua principal partiam as alamedas transversais, arborizadas com flamboyants. As veredas subiam as escarpas, terminando em pousadas de chalés finlandeses. Os prédios maiores não tinham mais que cinco ou seis andares, e o mais alto era o edifício da Prefeitura, construído em estilo colonial, de paredes brancas e sacadas de ferro. Os sobrados antigos estavam ocupados por órgãos oficiais, enquanto as casas de comércio eram recentes, de concreto e tijolinho. A avenida se ramificava em duas pistas com um canteiro central, e ao fim do caminho, uns dois quilômetros adiante, avistava-se uma imensa pedreira, essencial para o sustento da pequena cidade. Uma ruela ao sul conduzia a uma estrada empoeirada, que cortava o maciço rochoso através de uma fenda, penetrando a seguir na área rural... Dentro do conjugado, um aposento minúsculo e de janelas fechadas, viu três jovens sentados ao redor de um tapete. Um deles era uma mulher, uma moça de cabelos escuros, que segurava um isqueiro em uma das mãos e uma colher na outra. Com as pontas dos dedos queimadas e as unhas escuras, ela acendeu a chama com o polegar, lentamente derretendo uma porção de farelos, que aos poucos foi se diluindo até se transformar em um extrato oleoso. Logo atrás deles, no plano astral, dois demônios se acotovelavam, espremidos como quem assiste a um espetáculo. Sirith os reconheceu. Um era Guth, uma criatura retorcida, de olhos rubros e repleto de perfurações pelo corpo. A tez era esverdeada e, por ser desprovido de genitália, era impossível descobrir o sexo. À direita, deitado de barriga para cima, estava o diabo que chamavam Bakal, um ser magricelo com um imenso buraco no corpo, que atravessava o esterno. O coração ficava exposto, um órgão murcho e necrosado, com veias negras e pregas vermelhas... Os serafins, uma das mais elevadas castas celestes, composta de anjos nobres e altivos, são peritos na manipulação mental e se orgulham da maneira como transformam os inimigos em marionetes. Já os modestos ofanins, ordem à qual Levih pertencia, trabalhavam suas divindades de forma oposta. O controle emocional não afeta a mente, mas os sentimentos - em vez de um autômato, o que se ganha é um amigo, um confrade para a vida toda. A pessoa retém a personalidade e ainda é capaz de pensar individualmente, podendo ajudar o celestial não só em tarefas físicas, mas também por meio de soluções criativas... Os ANJOS são seres perceptivos ao mundo espiritual, mesmo quando encarnados em seus avatares. Eles podem ver e sentir os universos além, e nesse particular os ofanins são especialmente versados. Parte do trabalho da casta consiste em caminhar no plano astral, tentando consolar e libertar as almas perdidas. Os fantasmas são criaturas um tanto complexas. São espíritos de humanos mortos que, por reterem suas pendências vitais, acabam, às vezes inconscientemente, presos à terra. Em geral, são atormentados por seus próprios conflitos, numa espiral de autopunição que os impede de seguir adiante. Alguns fantasmas podem ser recuperados, e esses são os alvos primários dos ofanins. Outros sofrem traumas tão chocantes que 'enlouquecem', repetindo sistematicamente as mesmas ações que praticavam no instante da morte - daí chamá-los de sombras. Alguns, mais sinistros, potencializam suas angústias em vez de buscar redenção, tornando-se perigosos e violentos - são os espectros... Os hashmalins são os senhores da Gehenna, controlam o purgatório e as prisões angélicas, localizadas na segunda camada do paraíso. Oposta aos ofanins, a ordem é capaz de infligir dor, dominar a escuridão e manipular tanto os espíritos quanto o tecido da realidade. São sem dúvida criaturas de grande poder e de igual perversidade - alguns dizem que essa natureza é o que lhes permite sobreviver e atuar em uma dimensão tão sombria... A forma que adotamos é igual para todas as materializações. A não ser que o corpo seja destruído, o que obrigará o celeste a construir um novo avatar... Esqueça essa besteira. Não existe vida após a morte para nós, ou qualquer coisa parecida. Se nosso espírito for destruído, é o fim... A alma encerra a verdadeira energia imortal. É o que permite aos homens exercerem o livre-arbítrio e regerem o próprio destino. Os anjos, apesar de poderosos, estão limitados pela natureza de suas castas. Fomos concebidos com um único propósito. Embora possamos governar as nossas escolhas, não somos capazes de nos adaptar nem de nos reproduzir. Esse era o presente que muitos alados desejavam, e assim passaram a invejar os terrenos... Gabriel, o Mestre do Fogo, era a ponte de ligação dos arcanjos entre o céu e a terra. Também chamado de Mensageiro, atuava como vigilante, arauto e assassino. E foi justamente o contato com os seres carnais que o fez enxergá-los como parte da criação do Divino. Gabriel decidiu que abandonaria o ódio aos mortais, mas para isso teria de desafiar seu comandante, Miguel. Começou assim uma segunda batalha no paraíso, com os esquadrões se dividindo entre os novos rebeldes e as tropas legalistas. Miguel estacionou seu exército no Quinto Céu, enquanto Gabriel se exilou na primeira camada... No princípio dos tempos, quando o mundo era jovem, antes das guerras angélicas, antes mesmo da primeira rebelião, o Quinto Céu era o ponto de união dos arcanjos, os grandes líderes escolhidos por Deus para governar a terra e o universo. Aqui ficava - e ainda fica - o Vale de Yahweh, uma imensa cidade projetada pelos serafins, com seus castelos de ouro e platina, templos de pérola e marfim, catedrais de puro mármore e torres de até cinco mil metros de altura. Nas plataformas sobre os edifícios e mais acima, entre as nuvens, deslizavam esquadrões de lutadores alados, guerreiros prontos para a batalha, treinados para defender o paraíso contra qualquer ameaça ou invasão. No centro dessa cidade-fortaleza se elevava o Palácio Celestial, uma estrutura pentagonal em forma de estrela, com uma enorme cúpula no meio. O domo de cristal abrigava a bancada dos arautos, agora vazia, e o trono dos gigantes, que de tão reluzente chegava a ofuscar. O altar de Miguel se consagrava no topo, seguido pelas cadeiras de Lúcifer e Rafael, no segundo nível, e Gabriel e Uziel, na tribuna mais baixa. O arcanjo Gabriel, o Mestre do Fogo, aterrissou na escadaria diante do pórtico, encolheu as asas branquíssimas, removeu o elmo e o enfiou debaixo do braço. Encarou os vigias nos minaretes, cada qual numa das cinco pontas da estrela. Dois generais querubins - eram chamados de Ablon e Apollyon - defendiam a entrada. O primeiro era o soldado preferido do arcanjo Miguel, a quem ele havia presenteado com o comando da Legião das Espadas. O segundo era o braço forte de Lúcifer, um brutamontes sem consciência ou escrúpulos, mas admirável quando estourava o combate, um verdadeiro mirmidão de crueldade e dureza. Os oficiais volveram suas lanças e o portão se abriu imediatamente, revelando um corredor em formato ogival. Gabriel seguiu por vários metros até a rotunda. Encontrou Miguel apoiado no trono, trajando sua armadura de metal prateado, com o capacete de queixada pontuda e a espada recolhida à bainha. Os cabelos negros estavam presos num rabo de cavalo, demonstrando feições masculinas e cicatrizes que subiam do pescoço à cabeça. Perto dele, Lúcifer, a Estrela da Manhã, ocupava sua própria cadeira, vestindo apenas uma toga alinhada. Os olhos eram de um azul muito profundo. As melenas louras estavam atadas em trança, e a presença refletia um charme fabuloso, irresistível. Tinha o corpo delgado, o rosto fino e a pele macia, mas a postura era magnífica, encobrindo a autoridade do onipotente Miguel... Filosofia é para os seres humanos. Somos anjos, apenas executamos as tarefas que nos são ordenadas. Nossa própria existência neste universo é ilógica, um disparate. Seria uma contradição tentar encontrar um motivo... Segundo os malakins, a membrana teria se formado a partir da consciência coletiva da humanidade, agindo como uma barreira psíquica. Trata-se de uma cortina involuntária que os mortais teriam desenvolvido para desacreditar tudo aquilo que não compreendem e com o qual não conseguem lidar. Por isso nossos poderes não podem ser conjurados onde a película é espessa. É o motivo pelo qual o tecido se adensa quando nos aproximamos das cidades e dos centros urbanos... Sua mente não foi apagada. Eles aprisionaram uma alma em seu avatar. Na prática, nossos avatares são iguais a qualquer objeto material. Os efeitos dessa investida psíquica variam segundo a força de vontade do alvo. Algumas vítimas resistem, outras não aguentam e morrem, e as que sobrevivem sempre ficam atrapalhadas, pelo menos por algum tempo. No seu caso, creio que o espírito humano dentro de você bloqueie suas memórias, dificulte o acesso à aura e a impeça de se desmaterializar... Nada é impossível. Depois de tudo que já viu, não sei como continua a usá-la. - Ele retomou a narrativa. - Yamí era um dos reinos antediluvianos, que encontrou sua majestade antes da grande inundação que devastou Atlântida, Enoque e tantas outras cidades-Estado pré-cataclísmicas. O dilúvio universal foi a terceira e última grande hecatombe, enviada pelos arcanjos para aniquilar a raça mortal... O universo inteiro é consciente. - Dessa vez ele não falava só para demonstrar sabedoria. - Existem vários níveis de consciência, a dificuldade está em se conectar a elas. A sensação que você está provando é própria de sua casta e obviamente aflorou aqui, onde o tecido é suave... Os vértices são áreas demarcadas em que os mundos físico e etéreo se cruzam. São interseções planares e funcionam como bolsões, onde tanto criaturas materiais quanto seres etéreos podem se encontrar. ⎯ O que seriam essas criaturas etéreas? Fantasmas? ⎯ Fantasmas são almas atormentadas, eternamente presas ao plano astral. O plano etéreo é o refúgio dos antigos deuses humanos. São entidades dotadas de grande poder, mas incapazes de se materializar. Muitos vértices foram criados no passado, justamente para permitir a interação dessas divindades com seus sacerdotes tribais. Hoje são raríssimos, já que não resistem ao menor abalo no tecido... Certos vértices só se abrem em determinadas horas do dia, ou em ocasiões especiais, como o alinhamento dos astros. Outros necessitam de chaves místicas... Os celestiais não têm alma, como os seres humanos, e para eles não há vida após a morte. Se o espírito angélico for destruído, a energia da aura regressa ao contínuo do cosmo, como uma força flutuante e impessoal. Talvez por isso sejam tão persistentes, lutando até o último suspiro por sua existência. Para os celestes, a fé não é essencial - eles não precisam acreditar: eles sabem, fazem, executam, eles são anjos, mensageiros de Deus. E foi assim que Yahweh os criou, não para saborear as incertezas terrenas, mas para servir ao Criador, sem vacilos ou falhas... As paredes internas haviam sido erigidas a partir de um único bloco de pedra e estavam talhadas com hieróglifos cujo sentido o querubim sabia decifrar... Quando a raça humana começou a se desenvolver como civilização, surgiram os heróis. Homens e mulheres fortes e sábios que, por suas façanhas, eram tidos como modelos inabaláveis. A adoração a muitos desses ídolos não só continuava após sua morte, mas crescia. Agraciado pela força inquestionável da fé de seus seguidores, o espírito desses campeões ganhava poder. - Ele se sentou no chão. - Retidas no plano etéreo justamente por essa ligação, tais divindades passaram a ser chamadas de deuses e se tornaram objeto de veneração. Quanto mais eram adoradas, mais poderosas ficavam. Naturalmente isso não agradou os arcanjos, que se consideravam entidades supremas. Irritados, eles juntaram taram suas tropas e iniciaram uma série de incursões militares cuja missão era varrer do mundo espiritual esses espíritos divinizados. E assim tiveram início as Guerras Etéreas... A aparência dessas construções, ao contrário do que muitos imaginariam a princípio, nada tinha de semelhante aos grandes castelos da Europa. Eram feitas de um mineral cinzento e seus traços compunham uma incrível mistura das arquiteturas pré-colombiana e indiana, como seriam mais tarde conhecidas. O edifício principal lembrava as pirâmides astecas, mas em vez de quadrado era cónico, portanto muito mais alto e delgado... A julgar pelos monstros que defendiam diam a floresta, a arconte esperava encontrar outra criatura esquisita, mas Andirá era uma mulher em todos os traços, com longos cabelos negros cortados em franja, pele morena e olhos castanhos tão claros que imitavam o brilho do âmbar. O corpo era jovem, esbelto, os seios fartos e firmes, ocultos por uma tira de couro, e sobre os quadris vestia uma saia de tecido, que descia à altura dos joelhos. Um bracelete dourado chamava atenção como a única jóia que possuía. O rosto estava pintado com tinta vermelha, desenhando listras retilíneas na testa e sobre as pálpebras... Lúcifer se deteve. Rafael estaria blefando? O que pretendia ao estimular a ação de seu próprio carrasco? Por que não o enfrentava, por que não resistia?... Se o universo é uma sucessão de processos que se repetem, por que continuamos lutando?... Não temos alma, portanto não somos capazes de gerar novas almas. Esse é um dom humano. O óvulo seria fecundado, mas o feto nasceria morto. A reprodução entre celestes e terrenos, contudo... A porta revelou um salão muito amplo, alto e espaçoso, suportado por três anéis de colunas e um altar de pedra no centro, com um pedestal retangular e comprido, feito uma mesa, de dois metros de extensão. Os atlantes tinham a mesma estatura dos homens comuns, mas as proporções de seus prédios sempre foram avantajadas. Por isso, muitos estrangeiros julgavam ser os atlânticos uma raça de gigantes, pelo tamanho de seus navios e de tudo o mais que construíram... Construiu uma miríade de galáxias, luas e estrelas, até alcançar seu mundo perfeito, um planeta que chamou de Éden, ou, como os arcanjos o nomearam, a Terra. Por incontáveis séculos, o Éden - ou Jardim do Éden - foi o lar dos animais, o canteiro dos anjos, até que, no fim do sexto dia, surgiram os seres humanos, a maior de todas as artes divinas. Encantado com a energia, a força e a capacidade da nova raça, Deus lhe concedeu a alma, concluindo assim seu ministério final..."