No verão de 1897, no decorrer de uma viagem de férias pela Inglaterra e França, os irmãos Cavafy, John e Constatinos, aproveitam os últimos dias de suas aventuras parisienses antes de partirem para Marselha para apanhar o navio que os levarão de volta à Alexandria. Constantinos tem então cerca de 34 anos.
Junta-se a eles, Nikos Mardaras, conhecido de John de há muito tempo em Alexandria. A Constantinos, não lhe interessa a companhia de Mardaras, por lhe parecer presunçoso e bastante afetado por seus interesses pela alta-sociedade parisiense, não obstante seja o secretário não pago do poeta Jean Moréas. Foi a Moréas que Constantinos enviou dois de seus poemas para apreciação. Em visita clandestina ao apartamento do poeta, Constatinos percebe o seu envelope em cima da mesa de correspondências, aberto, e com os dizeres em tinta vermelha: Expressão fraca Arte pobre.
E é desse enredo inicial que se desenrola a história contada em "O que resta da noite" (Τι μένει από τη νύχτα).
Outras camadas serão adicionadas à história, como a breve paixão de Constantinos pelo jovem dançarino russo que se hospeda no mesmo hotel; Madame de, uma figura que parece uma interseção entre o alto mundo parisiense, alguns vanguardistas e o mundo do ocultismo surgido na França nos fins do século XIX; as várias recordações da vida em Alexandria junto à Gorda (sua mãe); e um lugar sempre citado por Mardaras, localizado nos arredores de Paris chamado de "A Arca" e frequentado sobretudo pela alta-sociedade (le tout-Paris) e por artistas, onde acontecem as coisas mais inimagináveis.
De início, achei a escrita de Sotiropoulos repetitiva, como se sempre precisasse voltar a um ponto anterior para relembrar e para fixar. E, no entanto, quando a leitura já ia pela metade, percebi que na verdade se tratava de uma forma de expressar o pensamento do poeta Constatinos Cavafy, que para reter pensamentos e ideias para os seus poemas, inclusive para fixá-los e trabalha-los mentalmente, voltava à momentos pretéritos. Cavafy, para escrever um poema, quase sempre chegava a produzir diversas versões do mesmo, até chegar à forma que acreditava acabada, em que o poema atingia sua glória própria. Não é a toa que são tão belos.
Trata-se de prática de criação que nos pode parecer estranha hoje, haja vista os recursos tecnológicos e a facilidade com que temos de não fixar informações em razão do excesso delas. Vale lembrar que o poeta russo Osip Mandelstam criava mentalmente seus poemas, linha por linha, repetindo-os à exaustão, e somente quando sentia que o poema estava concluído é que se dignava a sentar e escrevê-lo. O resgate na escrita da forma de memorização e trabalho de Cavafy acabou por se tornar ao fim uma forma de percepção do poeta, uma homenagem.
Há passagens que são sublimes, entre as quais cito aquela em que, em seu quarto de hotel, Constatinos revê dois de seus poemas que tem por base a Ilíada. Trata-se de "O funeral de Sarpédon" e "Os cavalos de Aquiles". Em outro momento, apaixonado pelo jovem dançarino russo, o poeta se vê no escuro perante a porta do quarto de hotel em que acredita que o jovem se encontra com sua amante e onde vive mentalmente uma intensa fantasia erótica contando apenas com um fio dos "macios testículos" do dançarino. E por fim, a cena final em que o valete do hotel vem buscar sua bagagem:
"Diante dele, um menino de cabelo arenoso, muito leve, com uma marca de nascença em seu
rosto. De onde se encontrava, a marca na bochecha do menino parecia uma ilha, uma inexplorada
ilha, um trecho de terra seca que se espalhava ainda mais quando o menino sorria e seus olhos pequenos e tristes se acendiam."