embora eu faça parte de uma família que, religiosamente, é bastante plural, nunca fui letrado em nenhuma religião. ainda assim, como brasileiro, fui a diversas igrejas cristãs de diferentes confissões, e foi nelas que a figura de jesus começou a se impor a mim não como doutrina, mas como símbolo e mistério. desde cedo, experimentei diante dessa vida aquilo que os românticos chamariam de sublime.
em minhas investigações ao longo dos anos sobre essa personagem, que provavelmente é o maior herói de toda a literatura grega — se lembrarmos que todo o novo testamento foi escrito em grego —, deparei-me com a passagem mais expressiva que já li em toda minha vida: jesus, sozinho no monte das oliveiras, com o rosto voltado para a terra (isso é muito importante simbolicamente), a alma “aflitíssima” e “angustiada”, confrontado pela iminência da própria morte (mt 26:36-39). o que há de trágico nessa cena não é apenas a proximidade do seu destino, mas o fato de jesus conhecê-lo plenamente e, ainda assim, vivê-lo com a fragilidade de quem hesita, sofre e pede. demasiadamente humano.
as cenas de getsêmani também alcançaram um beethoven de 32 anos (quase a idade de jesus) que, ciente da perda irreversível de sua audição, escrevia o famoso testamento de heiligenstadt e, logo em seguida, dava forma musical aos versos de franz huber em christus am ölberge. nessa obra, o compositor encontra em jesus não o deus triunfante, mas o homem esmagado pelo destino, aquele que aceita sem deixar de tremer. o oratório torna audível a angústia de quem ama a vida e, por isso mesmo, sofre diante de sua perda iminente — tal como beethoven.
jesus revolucionou a maneira como os humanos se relacionam com o mundo e consigo mesmos, não por força ou conquista, mas por um gesto paradoxal: amar onde seria esperado o ódio, servir onde haveria poder. “amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam” (lc 6,27) não é apenas um mandamento moral, mas uma ruptura trágica com a lógica do mundo. o mesmo se dá na humildade com que lava os pés de seus discípulos (jo 13,3–7) e na delicadeza com que se aproxima da mulher samaritana (jo 4,1–27), gestos que só revelam toda a sua radicalidade, principalmente quando situados no tempo e na cultura em que ocorreram.
uma das melhores leituras que ja fiz. agora é encarar a bíblia inteira 😁
5/5⭐️