Assusta-me muito o fato desse livro receber ótimas críticas até hoje. Sim, eu entendo que a humanidade é obra de seu tempo e, posto que o livro foi publicado em 1875, é entendível que tenha sido aclamado e virado um clássico do Romantismo brasileiro na época. Agora, continuar achando-o incrível sem fazer as devidas críticas é no mínimo estranho, para não dizer problemático.
Isaura, que em teoria é a personagem principal (olhe só... é o título do livro), pouco fala. A história é quase que inteiramente contada (e definida) por homens brancos e ricos, aos quais ela fica a mercê (ora sofrendo "investidas devassas", ora sofrendo por amor). Pouco se sabe do seu ponto de vista.
Ademais, ela é extremamente objetificada e sensualizada. Em MUITAS passagens do livro é dito que ela não merece a senzala (e, sim, o respeito da alta sociedade) porque "tem modos", é branca e é linda. Ou seja, indiretamente justifica os tratamentos terríveis na senzala, já que as outras não tinham essas "qualidades". Se ela fosse preta como Rosa, por exemplo, provavelmente seria também taxada de agressiva, "fácil", invejosa e má. A importância posta nos atributos físicos de Isaura, podo-a num nível superior às outras, é revoltante.
Também é cômico, se não fosse trágico, o esforço hercúleo do autor em traçar Álvaro e, em parte, a mãe de Leôncio e Malvina como "brancos bons", ou "brancos salvadores", na ideia de que "se não fosse por eles, Isaura estaria arruinada". Bom, se não fosse pelos brancos, essa escravidão em massa não existiria... para começo de conversa. É como se o branco fizesse "um favor" à escrava, dando-lhe o mínimo do mínimo. Enfim, hipocrisia sem tamanho.
Por último, o fim do livro é extremamente previsível (a la romantismo - o qual eu, particularmente, não gosto). Fim que só foi possível - novamente - por ela não se parecer com as outras escravas. Acho que esses clássicos devem ser lidos com uma visão muito crítica e com muito cuidado, justamente para não romantizarmos (de novo) o sofrimento das mulheres e da comunidade preta.