A estrela que dança
A poetisa judia-alemã Else Lasker-Schüler (1869 - 1945), figura vanguardista de Berlim desde 1890, que, da poesia ao teatro, do desenho ao romance experimental, foi contemporânea ao circuito artístico cultural de inovação estética na pintura chamado Secessão Berlinense. Sensível às mudanças históricas, em 1909 escreveu sobre reivindicações trabalhistas na peça épica Die Wupper, publicou poemas e cartas, a partir de 1910, no nascedouro do expressionismo alemão, a revista Der Sturm (A Tempestade) editada por seu segundo marido, Herwarth Walden. Mãe no primeiro casamento e de experiência literária pregressa entre os ainda jovens escritores da revista, o romance experimental epistolar "Meu Coração" teve na Der Sturm a primeira publicação dividida em duas partes, a terceira parte, que finaliza a última carta, apareceu em formato livro alguns anos depois.
O conjunto de missivas à Noruega endereçadas a indiscrição do marido e seu amigo Kurt, tem por descrever e comunicar o clima cultural da boemia dos cabarés teatrais e cafés literários de uma Berlim que não existe mais. Entre realidade e fantasia, as personagens reais dos círculos artísticos da revista são tratadas de maneira ficcional, metamorfoseando amigos em apelidos e caricaturas, nessa sátira poética do cotidiano, a autora parodia dificuldades e acontecimentos diários sob a especialidade de uma de suas personas literárias, Amanda, O Príncipe, Tino von Bagdá, Creso, Príncipe de Tebas. Acima dos cinco sentidos, Else Lasker-Schüler também inverte o procedimento dando tratamento real às suas personagens fictícias. Por pretexto literário, nunca houvera correspondências à Noruega, nesta obra dedicada a ninguém, a proximidade gélida do fim de seu casamento.
Todavia, nas mãos da escritora, o gênero literário romance-epistolar conhecido por adocicadas comiserações internas, com ela, revira-se de ponta cabeça. "Meu Coração" ojeriza essa característica do gênero de amor burguês revelando o seu exuberante retrato mental de mulher moderna, desapegada e de alma vanguardista colorida por situações externas refletidas em brincadeiras de imaginação, liberdade e poesia. Else Lasker-Schüler se refugiou na Palestina, e faleceu pouco antes de terminar a Segunda Guerra Mundial. Orgulhosa de sua cultura judaica, perambulava as noites de Berlim usando anéis e vestidos dervixes, artisticamente sinestésica, como nesse romance-epistolar autobiográfico, vivia da sua arte enfrentando a pobreza com boemia. Hoje, a revista Der Sturm, que lançou o expressionismo em oposicão ao impressionismo, é item cativo de museus internacionais, a memória deste veículo traz na escritora o curto período em que o expressionismo era uma arte mais caótica do que amplamente trágica.
(Yuri Ulrych)