"Qui no se lavora", aqui não se trabalha - disse Victor Civita, pai de Roberto, quando chegou ao Rio de Janeiro em 1949. Em seguida foi para São Paulo e ficou encantado com a cidade, então meio provinciana, mas que lhe lembrava a Milão de sua juventude e onde "sentia cheiro de trabalho". Na época Roberto era um menino de 13 anos, nascido na Itália e desde bem pequeno confortavelmente instalado com a família nos Estados Unidos. De repente, por uma decisão impetuosa do pai, a família se muda para São Paulo. E assim começa a história da Editora Abril, que se confunde com a da própria vida de Roberto Civita, "o dono da banca". Episódios como este pontuam a história bem contada pelo jornalista Carlos Maranhão neste livro fascinante - uma biografia autorizada de RC. Maranhão viveu toda esta história bem de perto, pois trabalhou quarenta anos na editora Abril em diversas revistas (Placar, Playboy, Veja, Vejinhas). Para escrever o livro, Maranhão costumava encontrar-se uma vez por semana com RC para conversar por cerca de duas horas. Esses encontros, todos eles gravados em áudio, tiveram que ser interrompidos antes da hora por causa da morte inesperada de RC, em 2013. Além dessas sessões gravadas, Maranhão também entrevistou dezenas de jornalistas, funcionários da Abril, políticos e membros da família Civita. Li com grande interesse sobre a saga da família desde os anos pré-guerra na Itália e sobre os acontecimentos que levaram à criação de um novo mercado editorial aqui no Brasil, sobretudo com as revistas Realidade e Veja - esta última a maior revista em circulação no país. Fracassos, desavenças familiares e tropeços empresariais ao longo desses anos todos - alguns deles retumbantes - também são contados aqui em detalhes, num mosaico de fatos que refletem muitos dos principais acontecimentos da história recente do Brasil. Há um detalhe que me incomoda na edição deste livro: todos os capítulos têm como título uma data completa - dia, mês, ano. Essas datas, além de não acrescentarem nenhuma informação importante, não ajudam em nada o leitor que quiser encontrar algo no meio do livro. Na minha opinião, faltou criatividade aí. Isto, no entanto, não afeta a qualidade do texto, que é bem cuidado e nos proporciona uma leitura estimulante, que nos faz refletir sobre muitos temas interligados em diversos níveis - como o papel da grande mídia, comprometimento ideológico, espírito empreendedor, iniciativa privada e liberdade de expressão.
A vida de Roberto Civita e a de seu pai – Victor – foi um dos grandes capítulos da vida editorial brasileira por meio da editora Abril. Eu mesmo devo confessar que devo parte da minha formação às publicações do grupo. No início da década de 1980, meu pai assinava a Veja e a Visão (esta última já desaparecida há muito tempo) e eram, as fontes de informação mais acessíveis para um público ávido por conhecimento. Da mesma maneira, ainda criança, ainda nos anos 80, com pouco mais de 10 anos, lembro que fiz a coleção completa da Conhecer, uma das enciclopédias da editora. Ainda em casa, havia várias outras enciclopédias, sendo que algumas também eram oriundas da Abril, lembro do Livro da Vida, Enciclopédia Abril, Grandes Personagens da Nossa História. Todas obras de excelente qualidade. Mas a biografia de Civita se inicia antes, quando a família – judia – abandona a Itália em razão do antissemitismo de Mussolini. Chegam aqui graças ao irmão de Victor – pai de Roberto – que fundara uma editora na Argentina e queria se expandir para o Brasil. Começam editando gibis – Raio Vermelho e depois Pato Donald – e gradualmente vão avançando com o lançamento de outros títulos. Roberto entra na história da editora lá pelo final dos anos 1950 quando volta ao Brasil depois da faculdade cursada nos Estados Unidos. Tem planos de lançar três revistas – graças ao que já vira por lá – uma revista semanal de informação, uma revista de negócios e uma revista para o homem. As ideias se materializam em Veja, Exame e Playboy. Veja, é claro, é a grande estrela da editora, da qual se torna o carro-chefe a partir de meados dos anos 1970. Um parêntese. A figura de Mino Carta é vista com certas reticências. O mito é que seria um editor genial, mas em vários momentos, o autor considera que o período áureo de Veja se deu após a sua saída, quando a revista foi capitaneada por J. R. Guzzo, entre 1976 e 1991. Nem tudo são flores, é claro, especialmente quando após se tornar a maior editora da América Latina, enfrenta o desafio de se expandir para outras áreas que não a de revistas. Fracassa, ainda, em explorar novos nichos que vão surgindo a partir da década de 1990, caso da tv a cabo ou da internet. Além disso, na virada do século, passa a sofrer a concorrência da internet que vai retirando nacos de mercado dos periódicos impressos. Isso, Roberto não soube enfrentar, a despeito de ter conseguido evitar que o grupo falisse em razão de vários investimentos errados. Enfim, livro excelente para se conhecer o mundo editorial dos últimos 60 ou 70 anos bem como a saga do empresário, os seus sucessos e derrotas. Vale a pena.