Sentir tudo através de uma mão. De duas mãos dadas. Dois desconhecidos de mãos dadas. As mãos de dois desconhecidos a contarem histórias uma à outra, a entregarem-se uma à outra, a rirem-se uma com a outra, a rirem-se muito, a não terem medo uma da outra nem de nada, a não saberem nada uma da outra, nem do que era aquilo nem do que viria depois, a pousarem uma sobre a outra e a esquecerem juntas este cansaço da vida.
Pequenas ficções a partir de «histórias reais», em que universos distintos (que no entanto se podem ver como um todo) são explorados numa prosa clara, sintética, irónica e poética. Uma escrita sensível e contemporânea, sobre o amor, o desejo, o desespero, a procura, o encontro e o desencontro, a solidão, a morte, e também a esperança. Um conjunto de textos excepcionais com títulos sugestivos como, Amor Aflito, A Última Duquesa, Ala G., Anamnese, Mãos, O Clube dos Feridos de Morte, O Homem Proibido, Onde Dormem os Criados, O Homem que Deixou de Ler.
Pedro Paixão nasceu em Lisboa, em 1956, vive em Stº António do Estoril e tem um filho. É doutorado em Filosofia, que ensina na Universidade Nova de Lisboa. Com Miguel Esteves Cardoso fundou a agência de publicidade Massa Cinzenta, que mais tarde vendeu. Com o seu primeiro romance, "A Noiva Judia", inaugurou um estilo que tem vindo a marcar a cultura portuguesa desde o início dos anos 90. Tem somado sucessos atrás de sucessos, entre eles "Viver Todos os Dias Cansa", "Muito Meu Amor", "Nos Teus Braços Morreríamos", "Quase Gosto da Vida que Tenho" e "Amor Portátil".
Em Asfixia de Pedro Paixão, vemos pequenos fragmentos de algumas histórias sobre amor, desejo, sexo, solidão, desencontro, morte e esperança.
Conto ou poesia em prosa? Pedro Paixão é um escritor português que fez muito sucesso em Portugal nos anos 90 e início dos anos 2000, mas que nunca chegou ao Brasil. Com uma prosa fragmentada de frases curtas, o autor escreve várias narrativas com pitadas autobiográfica sobre encontros, relacionamentos, mulheres e doença mental que parecem aleatórios, mas vão se conectando levemente durante a história se é que exista uma.
O primeiro fragmento, Café Tortoni, Buenos Aires, é uma experiência de amor e turismo muito bem construída entre o conto rápido e as sensações. Mas no recheio do livro muitos desses fragmentos sobre angústia parecem meio repetitivos . Depois da página 100, senti que voltam a melhorar. Gostei muito de Vou Comprar o Televisor, sobre a arte, a "beleza" da banalidade dos vícios tecnológicos e alienação.
" O meu almejado afastamento trazia solidão, horas com os olhos agarrados ao tecto, cigarros a arder entre os dedos. Era o castigo. Na rua as pessoas avançavam incógnitas com um ar pesado de cansaço, evitando o contacto visual, enquanto carros buzinavam furiosamente como se tivessem razão para tudo. O mundo tornava-se insuportável, do qual já nem os mais esplendorosos poemas me livravam".
Os melhores fragmentos para mim está no capítulo O Homem Que Decidiu Deixar De Ler em que ficam mais melancólicos e falam muito sobre doença mental e sobre a solidão.
Gosto muito dessa prosa fragmentada onde parecem coisas aleatórias mais ao lermos todos as partes percebemos que elas de algum modo se conectam, apesar de não saber muito bem como, recheada de melancolia e um certo cinismo e cansaço com a humanidade. E mesmo não sendo um dos melhores livros do autor, foi uma boa experiência esse reencontro com esse escritor.