A morte de um homem amado; o pranto de uma mulher que falha uma promessa e se julga castigada; uma mãe, uma filha e o cheiro venenoso das acácias; uma mulher que se extravia dentro dos seus sonhos; aquele elevador com alguém preso lá dentro; o futebol, implacável jogo bravo; setenta e cinco rosas cor de salmão, seguras por um laço de seda e embrulhadas em papel de prata; solidariedade machista, conselhos de um velho a um rapaz; uma água-marinha que traz uma mensagem; não cobiçar as coisas alheias; uma teia de enredos, e a Alice que caiu num buraco do qual dificilmente conseguirá sair. Catorze contos extraordinários, de uma das autoras mais consagradas e inquietantes da literatura actual, que nunca deixa de nos surpreender com a acutilância e profundidade da sua escrita.
TEOLINDA GERSÃO nasceu em 1940, em Coimbra. Licenciada em Filologia Germânica e Doutorada em Literatura Alemã, com a tese Alfred Döblin: indíviduo e natureza (1976), pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi Assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Professora Catedrática da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa e Leitora de Português na Universidade de Berlim. Autora de vários trabalhos de crítica literária, recebeu duas vezes o prémio de ficção PEN Clube, atribuído ao seu livro de estreia, O Silêncio, em 1981, e ao romance O Cavalo de Sol, em 1989. Foi também galardoada com o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores em 1995 e, na Roménia, com o Prémio de Teatro Marele do Festival de Bucareste (adaptação da obra ao teatro) com o romance A Casa da Cabeça de Cavalo. Em maio de 2003, o seu livro Histórias de Ver e Andar foi galardoado com o Grande Prémio do Conto 2002 Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores. À edição inglesa de A árvore das palavras (The Word Tree, Dedalus, 2010) foi atribuído o Prémio de Tradução 2012. A ficção de Teolinda Gersão desenvolve, na escrita contemporânea, uma poética romanesca original, abrindo a narração, a que o respeito pelas categorias de espaço, tempo, personagens, intriga confere certa verosimilhança, a uma irradiação de sentidos que decorre de um metaforismo assumido de forma estrutural pela narrativa. Não que as personagens e as suas relações, os temas ou os seres se reduzam a um carácter alegórico: o que ressalta é que por detrás da "história" estão em conflito pulsões humanas universais, frequentemente centradas sobre a dinâmica dos opostos (homem/mulher, caos/cosmos, racionalidade/loucura, entre outros). A ilusão da transparência, obtida por uma ordem sintagmática nítida, pela simplicidade da frase, despojada de tudo o que é acessório, pela redução do número de personagens, pela simplificação da ação, confere, então, às suas narrativas o estatuto de uma escrita mítica, cujo objetivo não é a representação, mas o conhecimento. Ao mesmo tempo, cada uma das suas narrativas, desenvolvendo até à exaustão algumas metáforas centrais (o cavalo, o teclado, etc.), desfibra todo o tipo de alienação social e mental subjacente à rutura dos princípios de harmonia invisível e de unidade íntima do homem com o universo. Como a pianista (e a romancista) de Os Teclados, Teolinda Gersão, diante de um "mundo fragmentário" e "indiferente", onde "as pessoas não formavam comunidades e só havia valores de troca", um "mundo vazio", persiste em tentar desvendar enigmas, como se a escrita e a exigência de rigor fossem "a transcendência que restava": "Aceitar o nada, o mundo vazio. E apesar disso, pensou levantando-se e sentando-se no banco - apesar disso sentar-se e tocar."
Uma estreia com esta escritora, que se revelou bastante satisfatória. Relata, numa escrita cuidada e irrepreensível, a vida tal qual ela é, embora numa vertente mais dark.
Aconselho vivamente mesmo a quem, como eu, não seja grande apreciador (a) de contos.
Os prantos pelas agruras que cabem a cada um, os amores que levam à taquicardia mas também à lágrima no canto do olho e os outros desvarios que contornam a norma para prazer raro de alguém abundam na existência de qualquer um, não sendo tarefa difícil proceder à sua colecção e publicação O vodu inequívoco do amor provocando a morte do amado; a falha de uma promessa com o castigo merecido que não se quer repetir; a transmutação da filha em mãe ao sabor do cheiro enjoativo das acácias; os sonhos que anotados, relatados e comentados, tornam a vida num pesadelo; uma avaria de um elevador tida como sinónimo de disparidades sociais; um jogo bravo que, disputado entre falos embusca de um objecto inalcançável de gozo, recria a ânsia de qualquer ser humano bem como a sua ancestral bestialidade; a deficiência de um coração danificado por um tumor malvado que rouba o físico mas não a mente e a vontade; os agradecimentos indevidos engalfinhados por uma rotura total com uma família simbolizado por um ramo de rosas salmão enviadas para alguém que não quem as devia receber; os copos meio-cheios ou meio-vazios dos bares, colocados sobre o balcão para esquecer os infortúnios amorosos de uma vida vivida entre escarpas íngremes e marés-cheias de emoções; o regresso de um objecto amado oferecido pelo amante mas dado por um desconhecido; um novelo estrangeiro mas digno de aprumo, que ao se desenrolar afasta mas ao se enlear quase sufoca aqueles que por ele passam, uma caridade mascarada de inveja pela pobreza colmatada por qualquer venda ilegal de um bem não negociável… Todos estes pequenos momentos da vida quotidiana, tantas vezes experimentados ou sonhados, culminam com uma viagem de menina a uma terra maravilhosa onde, entre relâmpagos e trovões, loucos riem, gatos passam, vestidos se rasgam, para deleite de uns e embotamento dos outros, sendo a epopeia da infância a obra final de tão vil historieta. O amor tem assim muitos lados e muitas cores, muitas formas e muitas interpretações. No fim de contas, é tão resumidamente o tudo e o nada e como tal é algo que nos acompanha sempre ao longo da vida, podendo estar ou não estar, ser visto ou não ser sentido, na cabeça ou nos pés, no choro ou na loucura.
Prantos, amores e outros desvarios foi a minha estreia com a autora portuguesa Teolinda Gersão que, a título de curiosidade, publicou o seu livro de estreia (O Silêncio) um ano antes de eu ter nascido. Este não é o seu único livro de contos, mas é o mais recente e o que decidi adquirir, e foi mesmo por aqui que comecei.
O primeiro impacto foi bastante positivo. Confesso que esperava uma escrita mais complicada (e isto não é uma crítica, atenção), por isso fiquei agradavelmente surpreendida ao encontrar textos de fácil leitura mas nem por isso desprovidos de complexidade e camadas. A maior parte dos protagonistas destes contos são mulheres e a ideia que fica é que é neste registo que Teolinda Gersão é mais bem sucedida.
O primeiro conto, Pranto e riso da noiva assassina, explora uma mulher obcecada por ter sido abandonada por aquele que ela elegeu como o amor da sua vida; a história não parecia muito original, de início, mas a verdade é que o seu final a eleva a todo um outro nível. O mesmo acontece, por exemplo, com As mimosas, onde se explora a relação entre uma mãe e uma filha e onde os limites temporais parecem esbater-se.
Não posso dizer que esta coletânea inclua um conto que não tivesse gostado de ler, apesar de, como é natural, alguns se terem destacado. Ainda que a maioria se foque em emoções humanas e relações amorosas ou familiares, não posso dizer que tenha descortinado um fio condutor nestas histórias que me permita afirmar que o conjunto é maior que a soma de todas as partes. O texto mais sintomático deste aspeto é o que encerra o livro, Alice in Thunderland, que reconta, pelas palavras de Alice Lidell, a sua relação estranha com Lewis Carroll e a natureza da inspiração do autor na escrita do seu livro mais famoso. Não é que tivesse sido uma história desinteressante, mas pareceu-me desenquadrada das histórias que a antecedem.
No final de contas, Prantos, amores e outros desvarios pareceu-me uma boa introdução à escrita de Teolinda Gersão. Fico muito curiosa por conhecer a sua faceta de romancista.
Este é o primeiro livro de Teolinda Gersão que leio. É um conjunto de contos desconcertantes, que nos deixam sem chão, pela inquietação das histórias e o seu fim pouco esperado. Os meus preferidos são o conto da mulher que considera ter morto o amando, o da mulher perdida nos seus sonhos, o futebol, os conselhos do velho a um rapaz, a água marinha e a vingança de Alice. São mulheres e alguns homens, muito sós, e no final, no seu destino, há ironia subtil e justiça poética.
Adorei alguns contos, que me pareceram realmente maravilhosos, geniais. Li-os e compreendo porque TG tem ganho tantos prémios literários, nomeadamente com este livro. Quanto a outros, não os achei melhores do que amadores, ou que pelo menos não deveriam estar nesta selecção, faltando-lhes algum elemento de surpresa.
(Afinal, deve ser assim mesmo a experiência de ler um livro de contos. Duns gostamos, e doutros nem tanto.)
Em geral, este livro proporcionou-me uma leitura calma e agradável, e só por isso já valeu a pena! Fiquei com vontade de ler mais da autora.
Este foi o segundo livro de contos desta autora que li este ano. Gostei muito do primeiro e gostei muito deste também. Podemos dizer que este é uma versão mais macabra da vida _ veja-se o conto das vizinhas ou das 75 rosas _ mas se pensarmos bem não é tão fora da realidade, o pior é que a realidade é dura! Teolinda Gersão escreve muito bem, é culta, inteligente mas nada pretensiosa, pelo menos nestes livros de contos. Fiquei com vontade de ler mais.
Confirma-se a minha opinião: Teolinda Gersão escreve mesmo muito bem! Um conjunto interessante de contos, alguns deles bastante surpreendentes. Li com especial prazer o "Alice in Thunderland", conto que nos leva numa viagem que atravessa a vida da Alice real, a da ficção e a do reverendo Dodgson/Lewis Carroll.
Teolinda escreve com simplicidade sobre a vida, sobre o dia a dia, sobre problemas de todos nós, transversais, mas do mundo pessoal e interior. Este livro preencheu as lacunas dos meus dias antes de o folhear. Foi o primeiro livro que li da autora e estou muito curiosa para ler mais.
Contos de amores, prantos e dores, bem escritos como é costume de Teolinda Gersão. Uma bela prenda de Natal, mesmo com as pequenas coisas más que nestas histórias se passam.