Ultra Carnem expande em muito a mitologia criada por Cesar Bravo, dando detalhes assustadores sobre a infância e a obra maldita de Wladimir Lester, o estranho menino pintor. Além disso, o autor mostra até onde vai a fome de um homem desesperado pela fama ou por uma vida mais digna por direito. A caminhada segue sem pudores expondo a fragilidade de cada um de nós. Por fim, o leitor fica com a sensação de que nós, humanos, não devemos bancar o esperto. E que não existe a possibilidade de enganarmos o céu e o inferno.
Nascido em 1977, em Monte Alto, São Paulo, foi apenas recentemente que Cesar Bravo deu voz à sua relação visceral com a literatura. Durante sua vida, já teve diversos empregos — ocupando cargos na indústria da música, na construção civil e no varejo. É farmacêutico de formação. Bravo publicou suas primeiras obras de forma independente, e em pouco tempo ganhou reconhecimento dos leitores e da imprensa especializada. É autor e coautor de contos, romances, enredos, roteiros e blogs. Transitando por diferentes estilos, possui uma escrita afiada, que ilumina os becos mais escuros da psique humana. Suas linhas, recheadas de suspense, exploram o bem e o mal em suas formas mais intensas, se tornando verdadeiros atalhos para os piores pesadelos humanos.
Quem é fã de livros de terror/horror certamente não irá se impressionar com Ultra Carnem.
[Essa resenha pode conter possiveis spoilers]
A primeira parte do livro, que conta história do menino cigano, é extremamente bem construída e até evoca imagens assustadoras. Foi um grande gatilho para atiçar a curiosidade e colocar minha expectativa lá em cima pro que viria a seguir. A escrita do autor estava magnifica e as cenas foram narradas com maestria. Nas partes seguintes os problemas começaram.
Primeiro o uso de termos como “o travesti” e “quase-mulher” me incomodaram bastante. Cheguei a comentar no twitter e o autor me respondeu que se tratava do ponto de vista do personagem e que aquilo retratava o preconceito que ainda existe nos dias de hoje. Achei ótimo que o autor se propôs a esclarecer o assunto, porém no livro quem utiliza os termos é o próprio narrador, narrando o ponto do vista do personagem, mas ainda assim não ouve nada que contrabalanceasse esses termos preconceituosos e nenhuma justificativa realmente válida além de “é o ponto de vista do personagem”. Já dava pra entender que o cara era um hetero escroto antes mesmo dos termos aparecerem – não contribuiu anda para a construção do personagem.
Quando Lúcio aparece, na hora percebi de quem se tratava. Não foi surpresa nenhuma a revelação posterior. Porém a trama tomou um rumo inesperado, e fiquei bastante curioso em como aquelas histórias se entrelaçariam.
Achei a curva de evolução de Marcos, na parte seguinte, bastante interessante também. A motivação dele me pareceu legitima, mas o “mistério” também não foi nenhuma surpresa pra mim. Me incomodou levemente o fato do autor tentar utilizar os impulsos sexuais do personagem para torna-lo mais humano (ou mais animal), achei exagerado e pouco convincente.
Eu até estava gostando do livro até essa parte, apesar das ressalvas feitas nos parágrafos anteriores. Mas a ultima parte do livro foi o que fez tudo desmoronar pra mim. Me senti lendo o roteiro de um filme da sessão da tarde. NADA ali foi assustador. Situações extremamente exageradas, como a perna da garçonete quebrando, Lúcifer se transformando, além dos diálogos que soavam cliché contribuíram para que minha expectativa fosse reduzida a zero. No entanto, o livro não perde seus méritos por isso. O final não me agradou, e a motivação da maioria dos personagens (inclusive de Lúcifer) me pareceu bastante banal. Mas a escrita do autor continuou excelente ao decorrer da história.
Acho que o maior problema foi que eu comecei a leitura esperando o medo. E no final eu estava rindo com as situações que me pareciam absurdas.
Ainda assim, é um livro bom que talvez funcione melhor pra quem está iniciando nesse mundo de literatura de terror/horror.
O livro é dividido em quatro contos que se conectam através do personagem principal do primeiro conto. O enredo dos contos é um pouco superficial, sem grandes pretensões de mensagens e divagações filosóficas. Trazendo uma série de conceitos religiosos misturados. O ritmo narrativo é acelerado, levando a finais previsíveis. O clima e a atmosfera são prejudicados por esse ritmo o q também contribui para personagens rasos e muito caricatos, incluindo as grandes figuras como demônios e o próprio diabo. Sendo meu preferido o do terceiro conto pelo seu desenvolvimento com mais dualidade moral.
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já li coisa mais nova do césar bravo e acho que ele melhorou em alguns aspectos, principalmente na diversidade de personagens e, em certo ponto, dos cenários apresentados (isso nos livros novos, porque em ultra carnem parece que estou vendo as mesmas pessoa em tempos diferentes).
colocar a lucrécia como protagonista final me pareceu o equivalente à cena “girl power” em um dos filmes dos vingadores (não vou lembrar qual), uma tentativa de enfiar uma mulher que não fosse só objeto sexual/interesse amoroso ao longo de toda a trama. ainda vou descobrir como articular o que me incomoda exatamente na forma como esses personagens são apresentados, mas por enquanto me reservo às duas estrelas para um livro que, sinceramente, não parece ter pretensão de ganhar mais do que isso. o plot (falando nele por inteiro) não é algo chocante, nem a linha do tempo muito empolgante. talvez um filme comunicasse melhor as histórias desse autor, porque as palavras se tornam cansativas depois de um tempo.
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O livro é divido em 4 partes distintas, mas que se conectam de uma forma brilhante. Esse é o primeiro livro do César Bravo que leio e adorei a escrita do autor. O uso de capítulos curtos faz você pensar que está lendo mais rápido, e quando dá por si, já tem terminado uma parte inteira. Classificando as partes por ordem dos que mais gostei fica assim: Parte 1, Parte 4, Parte 3 e Parte 2. Mesmo tendo gostado mais de um do que de outros não significa que algumas partes sejam ruins, muito pelo contrário, juntos eles formam um livro maravilhoso. Vale muito a pena ler. Já quero ler mais obras do César.
Livro muito bom, realmente superou minhas expectativas. Só torci o nariz (um pouco) para o "casting", ainda que o autor se preocupe em fechar os buracos fica uma sensação parecida com o filme "The Omen"...
As quatro histórias são bem construídas, os diálogos sempre interessantes e o narrador é de uma sutileza muito agradável. Também não se pode negar o "terror" do livro, algumas partes dão medo mesmo (rs), outras são desconcertantes e muitas são engraçadas. Tudo isso acompanhado por um trabalho gráfico impecável da editora.
Livro muito bom, de narrativa muito bem construída e com um bom plot. A escrita do autor é fluída e, por vezes, visceral, trazendo a tona algumas das coisas mais podres da essência humana.
Cesar Bravo conta uma história dividida em quatro partes, cada uma envolvendo um personagem diferente, mas todas relacionadas com Wladimir Lester, protagonista do primeiro conto. Em sua história, é estabelecido que ele é uma criança cigana que consegue fazer quadros e esculturas com poderes sobrenaturais.
A impressão que tenho nos dois primeiros contos é que Cesar Bravo acha que sua história é mais séria do que realmente é. Ele parece confundir cenas chocantes com cenas assustadoras, e pior do que isso, as cenas chocantes não chocam. Acho que o terceiro conto tem um tom mais acertado, a história é mais despretensiosa e as cenas chocantes chegam a ser engraçadas, o que pelo menos chega a ser divertido. No entanto, quando a história tenta colocar piadas, é quando sinto o maior desconforto, elas não funcionam, não são engraçadas e chegam a ser incômodas, principalmente quando são repetidas. Já o último conto me pareceu ter sido escrito as pressas com o objetivo de dar um final a todas as outras histórias (a pressa é bem perceptível quando vemos uma personagem ser apresentada como Mariana, ser chamada assim durante uma página inteira, e no parágrafo seguinte, seu nome se torna Amanda e segue assim até o final). Eu não odeio a ideia do inferno funcionar como um esquema de pirâmide, isso me fez rir enquanto lia. Mas o enredo do capítulo é maçante e contradiz a si mesmo quase o tempo todo.
Em nenhum dos contos temos personagens mais profundos do que a primeira impressão que temos dele. Isso seria justificável se fossem contos curtos, mas todos são desnecessariamente longos. Grande parte dos personagens secundários parece agir de certo modo porque é como o roteiro deve se desenvolver e não porque o personagem tem certa personalidade (por que um policial aceita esperar dias para interrogar uma pessoa que tem relação com as vítimas de certo acidente?). Personagens simplificados podem funcionar em uma história memorável que consiga compensar esse ponto fraco, coisa que também não acontece aqui. Mais de metade do livro, inclusive, não contribui nem para a história e nem para o desenvolvimento dos personagens e poderia ser retirado.
Mas o que mais me incomoda em todo o livro é como Cesar Bravo nos diz como devemos nos sentir em cada cena. Ele nunca deixa um personagem ou acontecimento falar por si só. Ele precisa nos avisar que aquela cena deve nos deixar com raiva ou triste ou animado. Como exemplo disso, eu posso tomar uma cena da parte 2, onde depois do protagonista ter um dia cheio, no único momento em que ele volta para o hotel e não tem que lidar com pessoas ele recebe uma ligação. O momento mais conveniente possível para que o celular dele tocasse. O livro, no entanto, não quer que a gente goste da personagem que está ligando para ele, então ele precisa dizer como esse era o pior momento para uma ligação, dada a quantidade de coisas que o protagonista precisa fazer. Eu já não acho que o livro é bem escrito, acho que várias construções de frases são estranhas, não gosto do estilo da narração que parece querer chamar atenção demais, reconta coisas que já estão bem estabelecidas, entre outras características ruins. Mas me dizer como devo me sentir em uma cena me faz acreditar que o autor não acredita na própria capacidade de escrever.
Ultra Carmen é um livro que falha em tudo que se propõem. Quando tenta ser engraçado ele é incômodo, quanto tenta ser assustador ele é (no melhor dos casos) engraçado, quando tenta ser profundo ele é contraditório. Além disso, ele é culpado do pior dos crimes, não entretém. Como um todo, acho que a história se aproxima mais de uma comédia mal feita do que de um terror que não funciona. Com pelo menos 200 páginas a menos e menos esforço para ser assustador, é possível que ele fosse mais divertido, talvez conseguisse até ser um livro tão ruim que é bom. Mas para criar algum tipo de terror, muito mais mudanças precisariam ser feitas.
Você percebe o quão sujo é quando se vê "torcendo" por personagens tão corrompidos como os apresentados pelo autor brazuca Cesar Bravo. Nesta obra recheada de elementos infernais, a linha que separa a transgressão da perda de humanidade é perigosamente tênue.
A história segue o legado do menino pintor, o cigano Wladimir Lester, que através de suas obras e artefatos sombrios, perpetua-se ao passar dos anos como lenda e sinal pernicioso de degeneração. O impacto do seu legado afetará diabolicamente a vida dos habitantes de Três Rios.
A trama episódica divide-se em quatro contos e segue um enredo (quase) linear separado por algum espaço de tempo entre as histórias. Cada uma apresenta, em minha opinião, pontos fortes e fracos, sempre com um evento determinante para próxima.
No primeiro conto, "O Abandono", conhecemos Wladimir Lester e sua tinta misteriosa sendo abandonado aos cuidados do padre Giordano. A atmosfera do conto persuade pela representação do terror/horror, mas carece da perspectiva de um protagonista empático.
"Gênese", narra a obsessão de Nôa em sua difícil jornada em busca da tal tinta de Lester. É bom justamente no que o primeiro não é, ou seja, possui um protagonista mais empático. No entanto, em alguns capítulos a narrativa torna-se repetitiva.
"O Pagamento", narra a mudança de vida de Marcos Cantão após seu pedido para a "Ciganinha" uma escultura ultra capciosa. O terceiro conto é o melhor do livro: bem escrito, divertido, cínico, visceral e viciante, seu ponto fraco é possuir muitos termos e representações questionáveis (o que pra alguns pode passar despercebido).
Por fim, "O Inferno", apresenta "a casa" do diabo e retoma a busca por Lester e sua tinta tendo como protagonista a Lucrécia. Há aqui uma ótima descrição do inferno, tanto física quanto estruturalmente, mas reserva pouco tempo pra fazer sua protagonista agir, tornando a personagem pouco ativa, em boa parte do conto.
O personagem central do livro é Lester, mas a maior parte dos outros acabam se tornando peças importantes ao seu legado no momento em que se corrompem.
Na minha leitura, este é o tema da obra: a degeneração humana.
Vale de tudo pra conseguir o bem desejado, até mesmo se entregar ao diabo. Todos os meandros desembocam no aviltamento dos mais fracos de espírito.
Este material dantesco me lembra muito as histórias do Clive Barker no que se refere a estilo. A forma visceral como descreve seu universo é um deleite para os que são ávidos por este tipo de narrativa. O forte aqui não é assustar, deixar com medo, mas sim chocar e deixar o leitor desconfortável com seu ótimo trabalho de descrição e ambientação.
Diante disso, é importante frisar: a obra não é indicada aos mais sensíveis. Seja pelas descrições viscerais e explícitas, seja pela completa liberdade em utilizar representações questionáveis ou termos hoje taxados de politicamente incorretos. Tudo no universo de "Ultra carnem" é passível de um questionamento moral.
E talvez esta seja a intenção.
O livro trabalha como um "termômetro" pra sua moralidade. Você consegue sentir o quão distante da humanidade esses personagens estão ficando quando tem dificuldade em se conectar com eles. Mas também questiona sua própria moralidade quando, por outro lado, se vê conectado.
Apesar de tais abordagens parecerem inconsequentes para o mundo atual, se contextualizada, casa perfeitamente bem com os tipos de personagens degenerados que o livro trabalha. E isso inclui o narrador que, deve-se lembrar, não necessariamente representa a visão do autor.
Como a célebre frase diz: "Dai a César o que é de César..." E dai ao narrador o que é do narrador!
Posso afirmar, desse modo, que estas questões polêmicas não me tiraram a imersão na história, mas também não passaram despercebidas ao meu olhar crítico e por isso compreendo qualquer questionamento a este ponto. Todos têm o direito (e o dever) de questionar, se assim o quiserem.
É um tema capcioso, beligerante e subjetivo que deve ser questionado ou criticado tanto quanto o leitor achar pertinente.
Dito isso, concluo que apesar de alguns problemas, o saldo foi positivo pra mim.
Fico à espera de minha próxima leitura duma obra de Cesar, o Bravo.
2,5 pra esse,,, Isso não é de maneira alguma uma crítica ao terror nacional, muito pelo contrário, achei a história bem interessante até, queria que se aprofundasse mais em certos aspectos, alguns personagens me irritaram profundamente (todos) e esse último conto me parece um pouco forçado… assim ne, quem sou pra questionar uma mulher no poder? Mas uma mulher no poder do inferno? Queridinha do próprio Lucifer? Ai já foi demais pra mim.. mas é isso ne, bjos lucrecia sucesso ai no seu trabalho subterrâneo..
Primeiro contato com a escrita do Cesar e posso dizer que estou maravilhada. Foram 4 histórias conectadas entre si e extremamente macabras, o que eu adoro.
O único conto que me deixou meio distanciada foi o terceiro, mas entendi que a ideia era um gancho para o último. O livro tem um sentido, um rumo, uma ideia que se fecha. Incrível.
O livro é bom.. tipo, você começa a ler e não quer mais parar. Tem partes que sao de fato beeem pesadas e tlw hora você pensa: não vou ler isso a noite (não leiam a noite se você tiver muitos pesadelos). Mas o final deixou a desejar... Eu esperava que não fosse tão previsível.
As três primeiras partes são incríveis! To completamente apaixonada, maaaaaaaas a última parte é bem chata e sem lógicas, sem final impactante como nas outras :(
A julgar pela capa, eu estava esperando algo bem sangrento e nojento. Mas o que eu recebi foi um terror com uma pegada filosófica.
Uma coletânea de 4 contos que se conectam através do protagonista do primeiro conto, e, no final, as histórias se cruzam e o resultado é sombrio. Algumas partes deram um certo medo, confesso, mas outras foram apenas tristes e viscerais, pois evidenciaram o que há de pior na natureza humana.
Mesmo sendo um livro de terror, é perceptível a graciosidade da escrita de Cesar Bravo. Gostei bastante da escrita assertiva e autêntica. Além de medo e tristeza, senti anseio, desejo, espanto, estranhamento, alegria, confusão, raiva, horror, nojo… Foi literalmente um mix de emoções.
Bravo errou levemente no enredo, visto que é um pouco raso. A narrativa é acelerada, pois Cesar é bem objetivo, o que ajuda na fluidez da leitura, mas prejudica de forma moderada na criação da atmosfera. O final foi um pouco previsível e com um nível de terror baixo. Estava quase chegando na fantasia. De qualquer forma, achei deveras interessante o pequeno passeio aterrorizante e filosófico.
Tive pesadelos durante todo o período de leitura desse livro, houve um momento em que pensei em abandonar por esse motivo. Mas no fim é um livro de contos que se interligam e que criam um desfecho bem bacana, recomendo para quem gosta de ter noites mal-dormidas.