Este livro não pode ser lido de uma só vez. Tal como as Mil e Uma Noites, está construído como um emaranhado de histórias dentro de histórias. Os narradores são cinco pescadores da Cruz Quebrada que trabalham de momento como arrumadores do Lidl. Mas, na realidade, eles correspondem a cinco arquétipos históricos que aguardam o Segundo Regresso, que deverá ter lugar na madrugada seguinte. Com a ajuda do Professor Eleazar Melkievstein, que dedicou a sua vida ao estudo do mito do Judeu Errante, todos estes homens tentam explicar a Ana Maria, uma mulher que mora ali perto, não só as várias histórias do Judeu Errante mas também as suas próprias histórias. Neste percurso, Ana Maria descobre que no século XV foi uma das noviças das Agostinhas, conheceu o Judeu Errante e com ele viveu uma bela e trágica história de amor que nunca chegou a cumprir-se. É depois da concretização física desse amor na Cruz Quebrada que se anuncia, por fim, o Segundo Regresso e se descobre quem são os Eleitos que podem testemunhá-lo.
CLARA PINTO CORREIA nasceu em Lisboa, a 30 de Janeiro de 1960. Licenciada em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e doutorada em Biologia do Desenvolvimento pela Universidade de Buffalo (EUA). Foi jornalista no semanário O Jornal e coordenadora da secção de ciência do JL. Estreou-se com Agrião! (1983), seguindo-se entre outras Adeus, Princesa (1985), O Sapo Francisquinho (Prémio “O Ambiente na Literatura Infantil”, 1986), Anda Uma Mãe a Criar Filhos para Isto e Não Podemos Obrigá-los a Amarem-se, E Se Me Tivesse a Bondade de Dizer Porquê? (1986), crónicas de parceria com Mário de Carvalho, Campos de Morangos para sempre (1987), Portugal Animal (1991), Ponto Pé de Flor (Prémio Máxima de Literatura, 1990), Domingo de Ramos (1994), Mais Marés Que Marinheiros (1996), Mais que Perfeito (1997), Mensageiros Secundários (2000), A Arma dos Juízes (2002), A Primeira Luz da Madrugada (2006) e Não Podemos Ver o Vento (2011). Morreu a 9 de Dezembro de 2025, em Estremoz.
Confesso que este foi um livro que despertou em mim sentimentos contraditórios. Por um lado achei interessante o conceito: uma espécie de alegoria sobre a evolução do pensamento humano, em particular na sua vertente científica. Esta abordagem não de todo estranha ao facto, descrito numa das orelhas do livro, da autora ter prestado provas de agregação precisamente na área de História da Ciência na Universidade de Lisboa. A lenda do Judeu Errante confunde-se com num misto de superstição e religião, característico da religião cristão em crescimento no primeiro milénio. Um pensamento científico que se misturava ele próprio com a religião e da qual se divorcia no advento do séc. XX. O Homem religioso e o Homem científico deixam de ser a mesma pessoa com o segundo a criticar o primeiro pelo caminho que a Humanidade seguiu então. O confronto do professor Eleazar Melkievstein com Louis Pasteur é a imagem disso. «Vocês cegaram o mundo», foi a acusação dirigida por Eleazar a Pasteur, que mais a frente diz «Louis, meu pobre Louis, onde foi que te perdeste, sabes ao menos a que distância deixaste o teu coração?», numa alusão ao desprendimento da ciência a essência humana e religiosa, pretendendo assim o homem ocupar o lugar de deus.
No entanto, a fórmula adoptada para contar esta história, uma reunião de carácter cabalístico na praia da Cruz Quebrada entre funcionário do Lidl que não são mais do que os eleitos para testemunharem o Segundo Regresso e..., bom... sinceramente "vou ali e já venho". A ideia explorada é no mínimo estranha e bizarra - muito bizarra! - e que sinceramente, no meu entender, não funciona. Funcionários do Lidl? Funcionários que são seres que reencarnaram ou viveram vidas longuíssimas? O Lidl como modelo do sistema que oprime o Homem? Ou seja, o amontoar de absurdos é tal que fiquei acabei por ter dificuldades de ler o livro.