"Por trás de um olhar imóvel e de um silêncio desconcertante, o marechal Floriano definiu o período mais turbulento da nossa República. Mas o marechal de ferro oculta o sonhador casado com a própria irmã e obcecado por Napoleão Bonaparte. Nascido em Alagoas, Floriano é a figura de maior importância política nos primeiros anos da República. Nas páginas deste romance, passado e presente se intercalam de forma espantosa. Acompanhamos não só um Floriano Peixoto humano e o nascimento da República, como os acontecimentos turbulentos do presente, por meio de uma antiga cozinheira que segue, de perto, as manifestações de 2013 e seus desdobramentos políticos. Um livro poderoso sobre a construção de nossa nação."
JOSÉ LUIZ PASSOS é autor de cinco romances e vencedor do Grande Prêmio Portugal Telecom, atual Oceanos, com O sonâmbulo amador. Também publicado pela Alfaguara, O marechal de costas, sobre Floriano Peixoto e os protestos que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff, foi finalista dos prêmios São Paulo de Literatura e Jabuti. Vive entre o Recife, Austin e Los Angeles, onde, entre outras coisas, escuta vinil e dá aulas de literatura brasileira.
Na Cinelândia, palco dos protestos que se sucederam às Jornadas de Junho de 2013, o monumento a Floriano Peixoto o retrata oportunamente de costas para a bandeira brasileira. A figura do Marechal, primeiro vice-presidente e segundo presidente do Brasil, é o elo histórico no qual José Luiz Passos se apoia para traçar um paralelo entre o nascimento de nossa República (que, não custa lembrar, começou com um golpe) e o abalo que o impeachment da presidenta Dilma Rousseff ocasionou em suas estruturas. Embora, a meu ver, o elo funcione historicamente, sendo tentador e até muito interessante examinar o percurso da nação no turbilhão dessas duas temporalidades, ele não me parece tão eficaz narrativamente. O suposto parentesco de Floriano com a personagem da cozinheira, situada na outra ponta da história, é um elemento muito frágil para justificar um paralelo que, salvo em alguns momentos da "4ª fase" (o livro é dividido em cinco: Gênese, Juventude, Campanha, Revolução e Paraíso), me soou um tanto arbitrário e sem correspondências que tensionassem as duas narrativas. É muito pertinente o retrato desta elite econômica e intelectual que acompanha os protestos entre espiadas na televisão e idas cautelosas à praça pública ("pelas avenidas principais que devem estar menos perigosas"). Gostei da caracterização do pai e filho advogados, do professor universitário agregado e de todo esse núcleo no qual a cozinheira se insere como uma espécie de metonímia do "povo" - a égide democrática, de quem emana o poder e a quem o poder é negado -, porém, no mais das vezes, esses personagens ficaram para mim como títeres movimentados no enredo para pontuar os discursos da Dilma que, a despeito de sua relevância histórica, ficaram meio fora de contexto pra mim ao lado dos excertos romanceados da biografia do Marechal.
Gostei bastante. Sinto falta de mais romances históricos e acho que esse merecia mais leitores. Achei que funcionaram bem os paralelos floriano/dilma, que tinham chance grande de virarem uma tosquice, o que não aconteceu (os trechos sobre napoleão acho que são piores). Especialmente interessante o trecho sobre a Revolta da Armada e essa figura do coitado Silvino de Macedo. Aprendi também que se diz 'assentar praça', graças à escrita bem fina desse Passos, sem nunca ser chata. O Caetano deve saber, mas canta 'jorge sentou praça na cavalaria' mesmo assim. O primeiro faz muito mais sentido, é claro.
Nesse romance histórico de José Luiz Passos, publicado em 2016, somos lançados em camadas de tempo que se sucedem intermitentemente. Em uma dessas camadas, um personagem desponta como protagonista: Floriano Peixoto (1839–1895), primeiro vice-presidente do Brasil, que assumiu a presidência com a renúncia do Marechal Deodoro da Fonseca, permanecendo no cargo entre 1891 e 1894. Em outra camada, uma cozinheira anônima, cuja narrativa nos faz crer ser uma possível parente de Floriano Peixoto, convive com um advogado, um professor e outros personagens, com os quais observa os destinos do Brasil no calor da hora dos acontecimentos de 2013. A pressão das ruas, as inclinações e jogadas políticas, a crueldade e os impasses, as distâncias que marcam as classes sociais, tudo isso vai sendo tecido pela história que acaba por sugerir pontos estreitos de contato entre nossa república em sua emergência e o fim a que se chegou com o governo de Dilma Rousseff. Napoleão Bonaparte, idolatrado por Floriano Peixoto, desponta pelo livro, costurando o feixe que se estende de 1891 a 2013. Tanto em um tempo como em outro, as inconsistências do sistema legislativo, a assunção à presidência sem nova eleição, as encruzilhadas políticas e econômicas, tudo isso acaba por ser o material sobre o qual Passos nos mostra a vida, as lutas, as ações e os discursos que constroem para nós a imagem de Floriano Peixoto e o cenário político no qual ainda estamos imersos. A Guerra do Paraguai (1864–1870), a Revolta da Armada (1893), as idas e vindas entre vida pública e privada, a paixão pela meia-irmã, sua esposa, e a traição política que se realiza ou está sempre a espreita, são temas que dirigem a escrita e quanto aos quais somos levados a nos deter, pensando sobre seus significados e implicações, motivos e consequências, sobre o que se forja em discurso oficial e o que repousa como resto, junto aos vencidos pela história, quase esquecimento. “A gênese do passado está no presente, não o contrário”, dizia Napoleão Bonaparte, como lembrado na resenha do livro feita por Mariana Filgueiras. Assim, se a escritura acaba por nos revelar que o tempo está sempre presente, dali talvez possamos encontrar no passado a chave para um futuro que insiste em se colocar para o Brasil sempre um pouco mais além.
Um romance histórico que parte de uma figura ímpar como Marechal Floriano para traçar um paralelo com o Brasil atual. Considero que o livro carrega uma pequena confusão narrativa, talvez fruto do excesso de informações que o autor possuía sobre o personagem, mas sua prosa fluída contorna a falta de ritmo que por vezes domina as obras do gênero.
Good concept. This book requires some effort to construct its meaning. It may not be an enjoyable reading, but it stays with us and sheds light on our (Brazilian) democracy.
First we have the parallel stories of Floriano Peixoto and a contemporary female cook that comes from the same city as him. We are being asked to compare the two moments in history, Floriano’s military education and career, his ascension to power first as vice-president and later (as the president was forced to resign) as an authoritarian president. This marks the beginning of our republic and echoes through the book as we are again facing a president being deposed, a vice-president taking power in what looks to be a democratic process but may be a new authoritarian incarnation.
But things are more complicated than just two stories. Peixoto is in the past and the past is problematic. The author does not reconstruct his life in a realistic style. He gives us meaningful moments; and he uses the fragments of the voices that constructed Peixoto’s biography and straightforward fantasy in order to create his own version. Some surprising things are based on facts, like the president’s notebook full of his drawings of vaginas, but I doubt the man could fly. On the other hand, the present setting does not allow for fantasy. Here we have one solid point of view that brings us different perspectives, deeply marked by their class and social relations. We even have an intellectual’s and president Dilma’s actual speech. Everything selected to compound meaning.