«— A quê, senhor Doutor? — Que é isso? regressamos a Coimbra? Não se esqueça de que sou o presidente. Já o Manel segredava que a senhora tinha o espírito de um ministro das finanças e que eu teria muito a aprender consigo — bem, bem, resmungou a velha. E em voz alta: — Senhor presidente? — Que é? — São as meninas… — As meninas? As de Velázquez? — Não, as de Odivelas. — As que comem banana às rodelas? — Então, porte-se bem. — Venham elas, inteiras ou às rodelas, venha a inocência em seu feltro castanho, venham ao presidente que a todas ama, ao meu paternal cuidado. E são muitas? e bonitas?»
Escritor português e professor de Filosofia, Rui Nunes nascido em Novembro de 1947. Licenciou-se em Filosofia pela Universidade de Lisboa e enveredou pela actividade de escritor em paralelo com a de professor de Filosofia, na Escola Secundária Rainha D. Amélia, em Lisboa. Na década de 60, passou pelos jornais, tendo visto censurados muitos dos trabalhos. Com muitas dificuldades, publicou o seu primeiro livro As Margens em 1968, tendo que suportar as despesas da edição. Contudo, a sua actividade literária só assume continuidade a partir de 1976, quando, depois de ter regressado da Austrália, em 1974, publica Sauromaquia. Imprimindo à sua escrita um discurso de características próprias, Rui Nunes não nega a influência de escritores que a vida lhe foi permitindo conhecer, nomeadamente Kafka. Temas como a dor, a doença e a morte são recorrentes nos seus livros. Porém, e apesar desta temática recorrente que flúi na sua obra, o autor assume o acto de escrita como uma forma de sublimar a dor e com preciosos e comprovados (por ele) poderes terapêuticos. Por isso, gosta e tem prazer em escrever. Leitor da obra de Agustina Bessa-Luís, Maria Velho da Costa, Maria Gabriela Llansol e de José Saramago, entre outros. Rui Nunes aprecia também outros géneros artísticos, nomeadamente o cinema (Bergman) e a música (Barroca e Jazz), admitindo que estes podem suscitar-lhe o gosto pela escrita. Premiado, em 1992, com o Prémio do Pen Club Português de Ficção, atribuído ao seu livro Osculatriz, os seus novos títulos foram sempre, saudavelmente, apreciados pela crítica literária. Considerado por Manuel Frias, membro do Júri que atribuiu ao seu livro Grito, em 1998, o Prémio GPRN (Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE)), "uma das estrelas mais brilhantes da constelação literária portuguesa - ocultada, tantas vezes pelas nuvens do fácil e do óbvio", Rui Nunes entende que o sucesso de um livro não se prende com a quantidade das vendas, mas sim com o "espaço de cumplicidade" entre autor e leitor que é capaz de criar.
“Hoje, não só os vivos me abandonaram, também os mortos, por todos desamada, pelos desaparecidos que descobri hipócritas, pelos presentes sitiados em sonhos rudimentares, pelos moribundos que se foram lentos demais ao seu destino e nesse percurso me obrigaram a uma atenção desmesurada, me rarefizeram todos os sinais estrangeiros ao seu declínio, e me tornaram o mundo um sonho, uma névoa, uma miragem, impacientavam-me, esgotada por uma morte que nunca mais acontecia, farta do cancro minado pela vida, da persistência da vida, da persistência da morte que se cumpria ate ao ultimo e visível sinal. O choro. Quando os dias se deixaram soçobrar em todo o tempo, e olhar o relógio se tornou um simples habito, a noite obliquou para regiões indizíveis, às vezes era noite ao meio-dia, num qualquer intervalo nas dores, tempo de silêncio em que o peito se ritmava e um fluxo, num escorrer dócil, lhe vinha da narina esquerda ao canto dos lábios, então um agasalho pleno confortável ocupava os interstícios da vida, e as moscas pousadas nos vidros esfregavam as asas com as suas patinhas, também elas reconheciam esse crepúsculo, enganadas pela quietação, recobrar ânimo para novo sofrer. Eu adormecia. Sei hoje que o amor é a necessidade de dar um rosto a determinadas palavras.”
O primeiro livro do autor Rui Nunes, um livrinho de cerca de 100 páginas e que me "custou" a terminar, porque apesar, ou até porventura por isso, de ser um livro muito bem escrito, talvez a elaborada forma como o autor vai descrevendo situações e personagens, ser difícil integrar essa prosa numa obra coerente. Mais parecem pequenas e rebuscadas crónicas que não me despertaram interesse de maior. Na parte final essa situação atenua-se um pouco com as referências que me parecem óbvias a Salazar.