Polêmico, subversivo e implacável da primeira à última página, este livro deu início à fase obscena da autora de Júbilo, memória, noviciado da paixão . Aos sessenta anos de idade, quatro décadas depois de estrear como poeta e inconformada com a tímida recepção de sua obra, Hilda Hilst tomou uma atitude radical. Em 1990, com O caderno rosa de Lori Lamby, resolveu se despedir da "literatura séria" e se dedicar a escrever "adoráveis bandalheiras". A narradora, Lori, é uma menina de oito anos que decide se prostituir, com o consentimento dos pais, e registrar tudo — tudo mesmo — em seu diário. Com humor ácido e autoconsciência brutal, ela relata os desenlaces da sedução e o prazer que o dinheiro lhe traz. Não à toa, a premissa escandalosa rendeu as mais diversas e enfáticas interpretações dos críticos e continua despertando a ávida curiosidade dos leitores. No posfácio a esta edição, a psicanalista Vera Iaconelli destaca como Hilda Hilst, ao questionar nossas certezas e ultrapassar o limite da razão, escreveu uma obra que impressiona pela ousadia e atualidade.
Hilda de Almeida Prado Hilst, more widely known as Hilda Hilst (Jaú, April 21, 1930–Campinas, February 4, 2004) was a Brazilian poet, playwright and novelist, whose fiction and poetry were generally based upon delicate intimacy and often insanity and supernatural events. Particularly her late works belong to the tradition of magic realism.
In 1948 she enrolled the Law Course in Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo(Largo São Francisco), finishing it in 1952. There she met her best friend, the writer Lygia Fagundes Telles. In 1966, Hilda moved to Casa do Sol (Sunhouse), a country seat next to Campinas, where she hosted a lot of writers and artists for several years. Living there, she dedicated all her time to literary creation.
Hilda Hilst wrote for almost fifty years, and granted the most important Brazilian literary prizes.
Tem tanto de bom como de mau e não se consegue parar de ler. Ninguém no seu perfeito juízo lê uma coisa destas sem ficar chocada. O pior é que ainda me ri! Bastante! E aí fiquei mal com a minha consciência. A ingenuidade com que os atos são descritos não pode atenuar a sua gravidade. Devia era atirar o livro pra fogueira, mas quem resiste à tentaçao de saber como isto acaba? Haverá porventura um final aceitável, minimamente saudável para tanta bandalheira? Na verdade até houve; deixou-me de queixo caído e consciência apaziguada. Mas a ilusão é breve, o que aqui foi uma sátira sem grandes consequências, é uma realidade dramática para muitas crianças por esse mundo fora. Talvez a autora quisesse falar sobre isso, talvez quisesse criticar as editoras por darem primazia a determinados tipos de publicações...
Seja como for, é uma leitura sem paralelo, nunca tinha lido nada semelhante e acredito que não seja para todos os estômagos.
Não é uma leitura para todos; diria mesmo que é para muito poucos...
Pedofilia, bestialidade, são algumas das perversidades que constam no diário de Lori Lamby - uma menina de oito anos - cujos pais a obrigam a prostituir-se... A linguagem é obscena, sexualmente explícita mas, simultaneamente, ingénua, inocente e com muito humor. Um texto extraordinariamente inteligente e profundo, sendo mais incómodo no final, quando acaba a "pulharia", e Hilda Hilst nos obriga a olhar para a realidade...e quem olha...
"Todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas." Oscar Wilde
Vamos começar pelos fatos óbvios: eu não estava preparada para a paulada deste livro. Nenhuma entrevista, nenhum comentário, nada poderia ter me preparado para a dor de cabeça que Hilst me traria.
Por indicações de amigas leitoras em um Clube do Livro, me joguei em Fico Besta Quando me Entendem para tentar entender um pouco sobre as visões, o humor e até a frustração de Hilda Hilst sobre o mundo. Creio que se não tivesse me preparado de antemão para essa leitura, ela teria sido bem mais traumática e talvez não teria tido o impacto que teve.
O Caderno Rosa de Lori Lamby é uma espécie de diário de Lori, ou Lorinha como é chamada em momentos mais PUTAQUEOPARIUQUEPORRAÉESSA do livro, no qual ela narra o seu dia a dia (e suas constantes peripécias) como uma prostituta. Mas é agora que vem o pulo do gato: Lori tem apenas 8 anos. E, a impressão que fica, logo num primeiro momento, é que ela seria agenciada pelos pais para homens mais velhos (ah vá!). O pai é um escritor brilhante porém fudido, sem nada no bolso. A mãe é uma fanática por Gustave Flaubert. O editor dos livros do pai é um ganancioso desgraçado. E seus clientes, oh well, vamos evitar esse papo.
Acho quase impossível, diria totalmente impossível, ficar imune aos excessos putanescos trazidos por Hilda nessa obra - o primeiro título de sua tetralogia erótica (ou boca do lixo como achei mencionada em alguns locais). Pior do que isso é perceber que estes mesmos excessos saem da boca de uma garota de 8 anos. Se Hilda queria chocar, conseguiu.
Mas o brilho da engenhosidade de Hilda Hilst está no seu final: em meio às histórias descabidas de Lori, apelidos bizarramente absurdos para partes do corpo e um jumento, encontra-se uma crítica ferrenha ao universo editorial, a ganância. Hilda viveu na pele o que é escrever para um universo que não a entende. Ela vivenciou o que é ouvir editoras dizendo que ela não vendia e que os leitores não a entendiam. Como alguém que já teve a oportunidade de trabalhar no universo literário, a crítica de Hilst vem muito a calhar.
Sendo assim, fica a dica: não desista deste livro no primeiro apelido bizonho que você ler. A crítica e a fala de Hilst são espetaculares e no final tudo se encaixa como um quebra cabeça social que nem em nossos mais malucos sonhos conseguiríamos associar. Se quero ler Hilda Hilst de novo? Com certeza. Mas quero evitar outro soco no estômago como esse, se possível rs.
Não sou ninguém para dizer o que define ou não um bom autor, mas, para mim, um autor que me chama a atenção costuma ser:
- Diferente. Seja na narração, diálogos, perfis das personagens, tema ou até mesmo no "tom" usado. Um autor que nos mostra algo que não vimos em mais nenhum. Quase de certeza que Hilda só há uma.
- Ousado. Que tenha o atrevimento de escrever o que quiser, quando quiser e sobre o que quiser. Que ultrapasse os limites sem pensar se haverá julgamentos.
- Provocador. Após ultrapassar os limites, que desafie o leitor a ultrapassar os dele também, apreciando a sua obra sem ceder a lugares-comuns.
A capelinha era uma construção caindo aos pedaços, cheia de bancos duros, e onde o padre Mel falava sempre aos domingos. Ele se chamava padre Mel porque as beatas diziam que ele falava tão doce que as palavras pareciam mel. O nome verdadeiro dele era Tonhão. Padre Tonhão. Bem, voltando ao meu pau.
Eu quando não consigo escrever fico igual o pai da Lori
Esse livro é muito interessante pelo fato de colocar o leitor em uma posição extremamente desconfortável desde a primeira página e segurar essa tensão até os momentos finais. Alguém já deve ter abordado a questão da atividade de escrita, da vida do escritor, dedicação, dinheiro. O tema central - as relações sexuais da menina Lori Lamby - abre para questionarmos a exploração infantil e o quanto a mente de uma criança é vulnerável. Embora o caderno rosa seja um compilado de coisas que a menina leu/viu/ouviu e, felizmente, não vivenciou, de certa forma mostra como ela foi exposta a um ambiente perverso e o quanto a angústia de seus pais por questões de dinheiro acabaram gerando uma ansiedade grande nessa menina. Tenso demais, muito tenso.
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Sinceramente não sei como avaliar um livro desses. Me encontro em estado de pêndulo, oras achando o que li em um fôlego só tenebroso, oras achando genial.
"Gosto muito da Lori Lamby e ela colaborou para me deixar mais conhecida. Graças a Lori muita gente procurou meus outros textos." Contra os padrões sociais comuns,marchar,marchar*
Dificílimo de escrever sobre a experiência que é essa leitura. Hilda não mediu palavras para deixar sua crítica ao mercado editorial e refletir sobre a moralidade imposta ao sexo. Acho que o livro não tem a intenção de nos alertar sobre pedofilia ou prostituição infantil, ainda que os condene, ele usa desses fatos já sabidos como instrumento de choque e reflexão. Primeiramente uma reflexão sobre os tabus do sexo. Se pudéssemos descobrir o sexo através dos olhos ingênuos de uma criança, caso existisse a possibilidade de anular as experiências traumáticas que isso causaria, conseguiríamos ver o sexo sem os tabus impostos pelos adultos. E é isso que Hilda faz, com sua linguagem infantil muito divertida, nós somos expostos ao sexo pelo que ele é fisicamente. É um prazer narrado como seria narrado o prazer de um sorvete, aqui é da carne apenas e não atribui significados além.
"Não sei por que as histórias para criança não tem o príncipe lambendo a moça e pondo o dedinho dele maravilhoso no cuzinho da gente"
"... então acho que o sexo deve ser bem isso de lamber, porque lamber é simples mesmo."
Mas me confunde se é irônico ou não, Hilda realmente acha que é simples? Ela associa até o Outro ao sexo em Obscena Senhora D., acho que ela tem uma perspectiva existencialista do sexo e associa-o ao divino ao mesmo tempo.
Da crítica aos editores, parte principal, Hilda externaliza suas angústias. Ela transmite metalinguisticamente suas frustrações em não ser lida, em não ser publicada e em não ganhar dinheiro com sua obra. O pai de Lori diz que se esforçou tanto em trabalhar a língua, coisa que Lori não entende, mas que os editores querem na verdade são bandalheiras.
"Eu também ouvia o senhor dizer que tinha que ser bosta pra dar certo porque a gente aqui é tudo anarfa, né papi?"
É também uma crítica a nós, leitores brasileiros? Por que comecei Hilda por suas bandalheiras? Me interessa o resto de sua obra? E o que me interessa nelas? É muito mais que literatura erótica, ou é literatura erótica de difícil reflexão. Queria alguém pra desvendar comigo as pequenas historinhas do fim, o que ela quer passar com a história da mosca Muská? aaaaaaaa
Como sempre Hilda com o seu discurso dinâmico e inteligente nos prende às páginas do livro. Não poupa críticas aos editores e escritores que ainda sabendo que escrevem e publicam porcarias, seguem em frente em busca do dinheiro por meio da presença de um público que prefere a literatura de má qualidade.
Dos livros da tetralogia obscena de Hilda, o Caderno Rosa foi o que menos me encantou, mas ainda assim vale a pena a leitura que pode ser feira em uma manhã na praia, no sofá ou na varanda de casa.
Aqui Hilda Hilst nos passa uma mensagem através de uma história que choca, perturba e causa ânsia de vômito. Saí da leitura sem saber o que pensar e, ao mesmo tempo, pensando mil coisas. Para Hilda e seu protesto, cinco estrelas.
PAI AMADO QUE QUE ISSO… Pior que por mais horrível e perturbador que seja, eu ainda dei risada em alguns momentos e depois fiquei me sentindo UM LIXO por ter dado risada, mas o livro brinca justamente com essa coisa de trazer uma personagem carismática e inocente (É UMA CRIANÇA, AFINAL DE CONTAS) contando coisas tão serias…
PS: Esse é o meu primeiro livro da Hilda, agora vou terminar o resto do “Pornô Chic” — a versão em ebook do “Caderno…” era PÉSSIMA, ai descobri que tinha sido “reimpressa” nesse livro Pornô Chic. Então vou juntar as duas coisas e já aproveito pra ler mais da autora!
a escrita de hilda é muito boa e isso contribuiu para que eu ficasse de veras incomodada lendo o livro. a temática é extremamente pesada e isso me faz considerar que o livro não é pra todo mundo.
um livro difícil de dar nota, definitivamente não é para todos, é para quem tem estômago, aqui como diz na apresentação Hilda brinca com o texto e com as palavras, com a narração, com a forma de escrever. apesar de todo choque e perturbação traz críticas e reflexões valorosíssimas, principalmente no que tange o mercado editorial e a recepção de certas obras. o posfácio do e-book que li foi a realidade triste e chocante.
duas citações do posfácio escrito por Yuri V. Santos:
“Mas, coitada, ela não conseguiu deixar de ser genial e escreveu uma literatura erótica que, se escandaliza, assim o faz no sentido bíblico e não no comum. Ou seja, no caso de Lori Lamby, é a súbita verdade da inocência infantil, por traz de tantas aparências sórdidas, que nos faz arregalar os olhos e ficar sem saber onde colocar as mãos. A verdade espanta”.
“Talvez você não saiba que um escritor, em média, recebe apenas 10% do preço de capa. Isto faz com que qualquer um que não seja um best seller fique sem ter como se dedicar ao trabalho que a vida lhe impôs. (Nenhum verdadeiro escritor decidiu sê-lo simplesmente, o buraco é mais embaixo.) Precisa arranjar bicos. Tem que matar a própria fome. Imagine então quando, além da própria, há a fome de oitenta cães. O número atual, aqui na chácara de Hilda, é este.”
como falar desse livro? na minha opinião é indispensável fazer uma pesquisa pré-leitura sobre a história da autora e da obra. mas isso não facilita a experiência. é um conto nojento, muito desconfortável — e também paradoxal: não tem como não odiar ler isso e nem como questionar a genialidade de Hilda.
para mim, este livro não é sobre pedofilia. os abusadores de lori pouco se parecem com pedófilos reais, tampouco lori se parece com vítimas reais. a parte disso, o assunto principal da obra cresce nas entranhas do mesquinho e do supérfluo: os terrores e os desgotos das mulheres escritoras do século 20.
“Ó papi e mami, todo mundo lá na escola, e vocês também, falam na tal criatividade, mas quando a gente tem essa coisa, todo mundo fica bravo com a gente.”
Eu não sei nem o que dizer depois de ler isso e até as últimas 5 páginas estava ciente que seria incapaz até de dar qualquer tipo de nota para o caderno rosa.