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249 pages, Mass Market Paperback
First published January 1, 1990
Riacho Doce me foi apresentado como um romance mais fraco do autor, como se o mesmo só mostrasse excelência quando escrevia sobre o que vivera. Ora, ao terminar a segunda parte do livro me perguntei se o enredo da primeira parte não poderia ser relevado, considerando que, o que me pareceu ser mais importante lá, são as lutas internas da personagem Edna e os conflitos situacionais assistidos pela aprovação da Velha Elba. Não vou negar que momentos de descrições genéricas sobre um país nórdico e sua gente típica beira o constrangimento quando observado que não foi uma criança que imaginou e escreveu tais cenas, mas o que o autor tece ali, vai além. Edna vive um conflito afetivo com sua professora e a imagem que trespassa dela para uma boneca que é composta, aos olhos da criança, de características físicas semelhantes à da amada professora. Ali, Edna atinge o ápice de sua luta e experimentar a sensação de . O reflexo da Velha Elba com a Velha Aninha na parte seguinte não foi de fantástica construção, mas o trânsito do enredo em situações de plano mais baixo, médio e alto, faz a graça da narrativa.
Além do conflito em núcleo relativamente pequeno (aqui pode se entender o conflito pelas variações do querer, do agir e do enfrentar), José Lins do Rego trouxe um momento histórico do estado do Alagoas muito interessante, a exploração do petróleo. Os relatos trazidos como notícias (já que ficam no fundo do enredo), aguçou a minha curiosidade, já que .
A história é composta de uma maneira que me fez imaginar que sabia o final e mesmo assim, fiquei para ter as imagens da praia, das águas, do vento nordeste, da vegetação e até mesmo das chuvas, pintadas lentamente, à própria maneira de José Lins do Rego. A ligação de Edna com as águas do mar é por vezes tida como parte exclusiva de seus anseios carnais (não sendo eles inteiramente sexuais, mas também, parte da aparente eterna busca do preenchimento de seu vazio interno). O autor conseguiu me fazer sentir o tato da pele ardendo e da areia entre os dedos ao aproveitar uma praia que na maior parte do tempo parece ser isolada ou menos preferida por habitantes da grande capital.
A Vó Aninha (e também a Vó Elba), é pintada na tela do imaginário comum da matriarca possessora e aqui o autor não dá muita profundidade nos motivos do apego da velha senhora com Nô, mas por tão comum, a imagem se faz suficientemente convincente. A cadência de sua expressão é satisfatória e a descrição viva de sua feição e suas constantes rezas me fez enxergar um cômodo de luz fraca e amarela, emitida por velas e uma grande imagem de santo sendo piamente clamada.
O livro traz ainda alguns aspectos culturais legais, como o coco, a chegança etc.
A leitura é válida e como eu disse antes, a baixa, com a antecipação e o (por vezes falso) ápice das vontades no enredo fazem essa viagem até o Riacho Doce muito válida. Daqui eu não saí vazio (sem clichês).