Os Pescadores é um livro do escritor português Raul Brandão, publicado em 1923. Trata-se de um conjunto de crónicas que retratam o difícil modo de vida dos pescadores portugueses, desde o Minho até ao Algarve, detendo-se nalgumas comunidades piscatórias como Caminha, Póvoa de Varzim, Leixões, Murtosa, Mira, Nazaré, Peniche e Olhão, entre outras.
Ao longo da obra, Raul Brandão descreve paisagens, gentes e situações, sendo evidente a simpatia que nutre pela difícil vida de trabalho dos pescadores. Nesses retratos, não se esquece de utilizar as falas típicas e os dizeres pitorescos, aliados a descrições quase poéticas de grande beleza,num estilo de impressionismo pictural.
Raul Germano Brandão (Foz do Douro, March 12, 1867 – Lisbon, December 5, 1930) was a Portuguese writer, journalist and military officer, notable for the realism of his literary descriptions and by the lyricism of his speech. Brandão was born in Foz do Douro, a parish of Porto, where he spent the majority of his youth. Born in a family of sailors, the ocean and the sailors were a recurrent theme in his work.
Brandão finished his secondary studies in 1891. After that, the joined the military academy, where he initiated a long career in the Ministry of War. While working in the ministry, he also worked as a journalist and published several books.
In 1896, Brandão was commissioned in Guimarães, where he would know his future wife. He married in the next year and settled in the city. Despite living in Guimarães, Brandão spent long periods in Lisbon. After retiring from the army, in 1912, Brandão initiated the most productive period of his writing career. He died on December 5, 1930, age 63, after publishing a profuse journalistic and literary work.
Published works:
1890 - Impressões e Paisagens 1896 - História de um Palhaço 1901 - O Padre 1903 - A Farsa 1906 - Os Pobres 1912 - El-Rei Junot 1914 - A Conspiração de 1817 1917 - Húmus (1917) 1919 - Memórias (vol. I) 1923 - Teatro 1923 - Os Pescadores 1925 - Memórias (vol. II) 1926 - As Ilhas Desconhecidas 1926 - A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore 1927 - Jesus Cristo em Lisboa, with Teixeira de Pascoaes 1929 - O Avejão 1930 - Portugal Pequenino, with Maria Angelina Brandão 1931 - O Pobre de Pedir 1933 - Vale de Josafat
There are traditions and customs of some people that are not usually lost, such as religious, gastronomic, or sports traditions. Concerning the Portuguese people, the fishing tradition is very accentuated. It gained notoriety during the time of dictatorship, where misery thrived. Several types of Portuguese fishing are analyzed here, such as line fishing and offshore fishing. Several fishing sites in Portugal were thoroughly explored, from the north to the south of the country. (Foz do Douro to Sagres) As an esteemed biographer of the human condition, he navigated between two dominant currents of his time: decadentism and symbolism, before later embracing Impressionism. He also cultivated a deep passion for the sea, having served in the army, where he retired as a captain.
Raul Brandão percorreu o litoral de Portugal, de Norte a Sul. Ao longo da imensa Costa vai debruçando-se sobre o mar, a água, as rochas, os barcos, as gentes que vivem do mar, os locais paradisíacos que inspiram poetas e estímula a paixão.
”Quando regresso do mar, venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa. Tomo então apontamentos rápidos – seis linhas – um tipo -uma paisagem. Foi assim que coligi este livro, juntando-lhe algumas páginas de memórias. Meia dúzia de esboços final, que, como certos quadradinhos ao ar livre, são melhores quando ficam por acabar. Estas linhas de saudade aquecem-me e reanimam-me nos dias de inverno friorento. Torno a ver o azul, e chega mais alto até mim o imenso eco prolongado…Basta pegar num velho búzio para se perceber distintamente a grande voz do mar. Criou-se com ele e guardou-a para sempre. – Eu também nunca mais esqueci…”
O livro é uma coleção de memórias, pensamentos, observações e conversas que o autor datou.
Escrito a 5 de julho de 1920
A Ria de Aveiro.
"Mas o que tem para mim um grande encanto são os sítios ignorados da ria, onde a água cismática encharca, embebida no céu e refletindo meia dúzia de ervas e dois barcos encalhados. Água esquecida ou pedaço do céu translúcido?...Acolá, um borrão azul empoçado diante de uma trincheira verde. E este azul entranha-se na terra baixa e empapada, infiltra-se no subsolo, reaparece em fios e charcos. É inesperado e imprevisto. Não se sabe onde vai ter. Estou na terra ou na água? É um lago ou um rego? Uma vela navega entre campos verdes. É um saleiro. Ao longe, na vasta planície retalhada, correndo a par de um biombo de pinheiros, outro barco desliza sobre a erva tenra dos arrozais.”
Brandão fala sobre a vida dos pescadores, a imensidão de homens que perdiam a vida no mar, as mulheres que ficavam viúvas, ainda jovens e outras com crianças pequenas para sustentar, sem idade para ir para o mar. As famílias queriam-se numerosas porque o mar é guloso.
A própria paisagem só depois que a perdi é que a entendi bem, talvez porque a amo mais.
Há gente "que traz o mar nos olhos". Raul Brandão homenageou essa gente de costumes simples e vida eternamente sacrificada que, costa fora, vive e morre no mar. De Caminha a Sagres, o escritor detém-se fotograficamente ou deixa as suas impressões de determinados locais e momentos. Regista também a sua forte ligação com o mar e o imenso respeito e amor pelos pescadores e suas famílias.
Este é, sem dúvida, de entre todos os livros que li este ano, o "meu livro do ano". Belíssimo .
Sem dúvida a minha leitura mais surpreendente de 2021 até agora. Não conhecia absolutamente nada a respeito da obra de Raul Brandão e graças a coleção Essenciais da Literatura Portuguesa, que saiu nos jornais durante 2020-2021, acabei tendo a oportunidade de conhecê-la.
Este livro, apesar de curto, é uma obra incrivel que, além de ser um tributo aos pescadores e ao mar português, pode ser vista como um maravilhoso exemplo de literatura de viagem.
Raul Brandão nasceu na Foz do Douro, era descendente de uma família de pescadores e dedicou este livro a seu avô, que morreu no mar. No livro, Brandão nos leva de Caminha até o Algarve e oferece um retrato da vida dos pescadores e suas famílias nas diversas colônias piscatórias do país. Ele fala desde aspectos técnicos a respeito dos barcos e equipamentos de pesca ao papel das mulheres dentro da comunidade. O drama das mulheres que não sabem se o marido vai voltar do mar e a pobreza de muitas vilas de pescadores também são apontadas na obra. Brandão também faz algumas críticas a modalidades predatórias de pesca e a industrialização da industria pesqueira que vai tornar, num futuro proximo, extinto o pescador artesanal no país.
A prosa poética de Raul Brandão, com suas belas descrições da costa portuguesa, das pessoas e até mesmo dos peixes, sem dúvida, me conquistou. Seus relatos de conversas com as mais incríveis e pitorescas personagens do universo piscatório português são fascinantes.
"É saudade, mas não é só saudade. Isto vem de muito fundo. (...) Esta paisagem- mar, rio e céu - entranhou-se-me na alma, não como paisagem, mas como sentimento."
Documento de inquestionável valor etnográfico, "Os Pescadores", de Raúl Brandão, é uma crónica, polida por vezes, pelo matiz da poesia, das comunidades piscatórias de Portugal, no final do século dezanove e início do vinte. Começa em Caminha e termina em Tavira. Da região norte, retenho a citação de um escritor estrangeiro, que o autor emprega para a caracterizar: "Estranho país este, onde os bois lavram o mar..." De Sesimbra a entre-ajuda dos pescadores, que continuam a pagar à viúva e aos órfãos, de um companheiro morto na faina, o seu vencimento. E da minha região, o Algarve: a pesca da sardinha no barlavento, e do atum no sotavento. Curioso também o facto das algarvias, muito bonitas na opinião do autor, e apesar de ser proibido, ainda usarem o bioco no início do século vinte.
Prachtig portret van het leven als visser aan de Portugese kust in de jaren 20. De liefde voor de zee is voelbaar. Wel veel herhaling. Geeft een extra dimensie aan het lopen van de Fishermen's Trail.
"Het landschap begreep ik pas goed nadat ik het kwijt was, misschien omdat ik er toen des te meer van ben gaan houden"
"Sst, zachtjes; in elk landschap zit altijd een god verborgen..."
"De rivier is geen rivier meer - is lucht geworden, en we roeien in een rood stof dat voortdurend transformeert. Nu is de wereld paars, violet, is de wereld een droom die geleidelijk vervluchtigd en door de nacht verzwolgen zal worden. De paarse tinten hebben alles gesmoord en het landschap vervaagd. De wereld bestaat niet meer - de wereld is alleen nog licht"
Geralmente fazemos uma distinção entre os acontecimentos anónimos e ocasionais do mundo natural e os aparentemente familiares e previsíveis acontecimentos da vida humana. Nestas descrições, que oscilam entre pinturas realistas e naturalistas das paisagens da costa portuguesa, ambos os mundos se fundem. De tal modo que a tal previsibilidade humana se esvanece, dissolve-se nas tais névoas matinais que pairam sobre o mar, nas luzes sobre os charcos de água salgada que restaram das tempestades e até nos próprios esforços para empurrar o barco para o mar. Se a entrega e o comprometimento com a vida tem sempre um preço a pagar, então para estes homens e mulheres esse preço é alto – estão absolutamente expostos e sujeitos aos temperamentos dos mares e dos céus. É por isso que as emoções dos pescadores portugueses e das suas famílias são tão inconstantes quanto o estado do mar (na verdade as emoções humanas afiguram-se mesmo como estados do mundo natural), que conhece tão bem os momentos de tranquilidade como os de tempestade e caos.
E no entanto, todas estas impressões das paisagens não deixam de ser mais uma série de expressões particulares que montam um ponto de vista Humano sobre a costa portuguesa e os elementos que a compõem. O autor que contempla estes cenários, que se num primeiro momento é o próprio escritor, num segundo torna-se o próprio leitor (aquele que contempla), projeta sobre eles uma certa dose de tragédia e melancolia que não pode vir de uma mera observação das tempestades e dos acontecimentos naturais. Isto é, no fundo esta acaba por não ser apenas uma perspetiva (científica?) ou completamente naturalista/realista pois a melancolia e a tragédia não brotam apenas nos momentos em que as paisagens e os acontecimentos transmitem tais emoções. Tanto a melancolia como a tragédia impregnam o texto, independentemente do estado do mundo natural, e isso deve se ao facto de que estamos perante o imperfeito e distante olho humano a contemplar estas paisagens. Ou seja, a tragédia não está na rudeza e no horror do mar e dos estados do mundo natural em si, mas na consciência que o autor tem (e que é projetada no ato de contemplação) da desgraça e da angústia daqueles cuja própria existência depende da total entrega e submissão às vontades ininteligíveis e incontroláveis da natureza. O que no fim acaba por ser uma espécie de lamento por aqueles que se entregam à vida da sobrevivência (neste caso no mar), à vida em geral. Um lamento que acaba por tingir todo o olhar sobre a costa portuguesa. E no fundo, estas pessoas trágicas que habitam ou habitaram as praias portuguesas, são tão indispensáveis para as paisagens como a luz e os azuis - sem eles não se arrancava a textura e a cor, a beleza destas paisagens e da vida junto do mar. É como se os pescadores fizessem parte do mundo natural, apenas servindo a natureza, a vida biológica. E a própria natureza manifesta se pujantemente através das vidas dos pescadores, tal e qual como se manifesta no mar, no vento, no azul... é isso que é este livro - uma composição do tecido e da substância da Costa portuguesa. Será que há uma perspetiva em que a diferença entre a manifestação dessa substância, por um lado através das paisagens naturais e por outro como manifestações “humanas” é quase nula? Qual é a diferença entre um choro da mãe que perdeu o filho no mar e o choro do vento a soprar no mar escuro e agreste? Essa diferença, se é que existe, é anulada.
E até a própria cultura, os costumes e os maneirismos de um povo, o que são senão uma vontade materializada, que tal como a da natureza, também é ininteligível e totalmente anónima? Os nomes de família que vão passando de geração em geração, os modos de vender o peixe, as canções, as técnicas de pesca, as cores das casas.... tudo isto não deixa de ser um resultado também ocasional e imprevisível de uma vontade que, apesar de se manifestar em seres humanos, não deixa de ser uma vontade abstrata e natural. Toda a cultura das praias e do mar português também resulta da tal submissão e entrega total à vida no mar. Tudo o que compõe a Costa portuguesa, desde os homens às paisagens, parece ser conduzido por esta vontade abstrata natural de sobreviver no mar, que é poeticamente representada neste livro.
Raul Brandão leefde tijdens de laatste decennia van de 19de eeuw en de eerste van de twintigste. Met Os Pescadores schreef hij een klassieker in de Portugese literatuur die inmiddels meer dan 100 jaar oud is en voor het eerst naar het Nederlands vertaald werd.
Brandão bereisde intensief de vissersdorpen uit zijn streek en schreef er nadien dit lyrische, doorleefde en gedetailleerde verslag over. Zo biedt 'De vissers' een unieke inkijk in een leven dat al verdwenen was nog voor wij geboren waren, proef je als lezer de zilte zeelucht op je lippen en leer je figuren kennen die door de sluiers van de tijd al lang verhuld waren. Het is bijna onvoorstelbaar hoe hard en eenvoudig het leven toen moet geweest zijn aan de Portugese kusten: er was alleen leven mogelijk als er vis gevangen werd, dus gingen vissers dagelijks de zee op, als het weer het toeliet. Elke familie had vaders, zonen of grootvaders verloren op het water, maar keuzes of andere opties waren er niet.
Fascinerend en beklijvend in zijn kern, maar ook een beetje vervelend omwille van de vele herhalingen en soms technische stukken. Mooi voor wie van Portugal, vissen of een blik in het verleden houdt. Niet onmisbaar.
Genoten van de beschrijvingen 100 jaar geleden van het leven van de vissers in Portugal. Van Porto tot Olhão. Netten, boten, vissen. Het licht op het zand, de schubben. Poeder van de maan. Bloed van tonijnen. Sardines, sardines, sardines.
Twee observaties. Brandão beschrijft de ondergang van het oude vissersleven. Vele dorpen zijn al leeggelopen. De visgronden verdwenen. Opgeblazen door sleepnetten en dynamietvissers. De diversiteit van de gemeenschappen, geschapen uit nood en vis. Weg. Ergens schrijft hij ‘dat de vissers met de ogen dicht meer kennis hebben, dan de geleerden met al hun techniek.’
Laatst las ik ‘Zout op mijn huid’ van Benoîte Grout. Een romance tussen een Bretonse visser en een franse vrouw in de jaren 50-60. Ook hier stond, in de coulissen weliswaar, de teloorgang van de visserij centraal. Hoe de visser uiteindelijk op een varende industriële moordmachine bij de Seychellen vaart. Non-stop draaien de machines. Hij mijmert hoezeer hij het vissen mist. Met een boot, met de mannen, met de harpoen, of de lijn. In contact met de zee, de vis.
NB. Prachtig verzorgde uitgave, mooie foto’s, een kaart had niet misstaan. Of een korte inleiding over vis en vistechniek, van een visser o.i.d.
“Quando regresso do mar venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa. Tomo então apontamentos rápidos - seis linhas - um tipo - uma paisagem (...) Estas linhas de saudade aquecem-me e reanimam-me nos dias de inverno friorento. Torno a ver o azul, e chega mais alto até mim… Basta pegar num velho búzio para se perceber distintamente a grande voz do mar. Criou-se com ele e guardou-a para sempre. - Eu também nunca mais a esqueci…”
“Esta nossa terra portuguesa vai pela costa fora sempre de braços abertos para o mar, estreitando-se amorosamente contra si.”
"(...) esta paisagem - mar, rio e céu - entranhou-se-me na alma, não como paisagem, mas como sentimento."
Também as minhas vivências e memórias felizes no litoral se “entranharam na alma”. Estas acumulam-se desde a infância e acompanham-me, onde quer que esteja. Identifico-me com estas palavras ditas por José Saramago “Ser emigrante não é deixar a terra, é levar a terra consigo”.
O marcador do livro da edição que li (2024) é muito bonito.
A picture of the coast of Portugal, written using the poetic prose of Raul Brandão. A beautiful overview of the Portuguese coastline, from Caminha to Olhão, the way of living and the connection of those who live for and from the sea, from birth to death.
The author takes us into a journey to his observations through several beaches, where he can immerse us into the extensive descriptions of sensations tailed by the colors, sounds and smells of the sea, and the conversations and way of living of fisherman and woman. The reader can, almost, feel the wind and smells from the sea in his face.
In 1923 kwam dit boek uit, Brandao beschreef het verdwijnende Portugese vissersleven en samenleving als een schilder. Hij schijft in kleuren en beelden komen daardoor tot leven.
Wat vooral treffend is dat hij toen al waarschuwde voor overbevissing en de kleiner wordende visstand. Hij gaf ook oplossingen die nu nog steeds zouden kunnen helpen, er is niet veel mee gedaan.
Een prachtige natuurroman, sfeertekeningen van een verdwenen tijd
Taaltechnisch liep het soms een beetje stroef, maar gezien ik dit boek niet in de originele taal kan lezen ben ik niet de persoon die hierover kan oordelen. Daarnaast ben ik niet fan van hoe de vrouwen in dit boek geschetst worden (romantiseert daarnaast ook slavinnen), helaas is dit onvermijdelijk als een man het vrouwelijk lichaam als metafoor probeert te gebruiken.
“Se isto é ternura, a ternura é o que há de melhor no mundo; se é saudade, a morte é o que há de melhor na vida. A própria paisagem só depois que a perdi é que a entendi bem, talvez porque a amo demais. Diante de mim têm desfilado as maiores e mais belas, mas há uma humilde que faz parte integrante do meu ser.”
Adoro estes pequenos livros que carregam em si tanto de Portugal! Lê-se quase sem dar por isso,... e sente-se a viagem pela nossa terra, pelo tempo e pelas nossas gentes.
Publicado em 1923, 𝗢𝘀 𝗣𝗲𝘀𝗰𝗮𝗱𝗼𝗿𝗲𝘀, de Raul Brandão, é um clássico maior da literatura portuguesa do século XX... ...um livro que oscila entre diário e crónica de viagem, acabando por se transformar numa verdadeira obra poética.
Ao longo das páginas, senti-me a seguir a costa portuguesa, da Foz do Douro, passando pela Nazaré, até Sagres, vivendo a dureza do dia-a-dia dos pescadores, participando da sua ligação entranhada com o mar e na poesia que Brandão sabe descobrir em cada gesto simples.
Reparei, em especial, no papel das mulheres... as filhas, esposas, mães, sempre presentes com a sua força silenciosa, a sua entrega inesgotável, a coragem de enfrentar o mar sem nele entrar. Elas são aquele alicerce invisível, que mantêm em pé firme as responsabilidades essenciais para a sobrevivência da família... com amor, revelam sempre coragem, resiliência e dignidade, mesmo quando a dor lhes arranca desabafos como: “- Má raios partam o mar.”
Embora a obra não se foque em personagens individuais, sente-se a humanidade e a solidariedade do povo, percebem-se as injustiças sociais e a exploração a que eram sujeitas, e admirei a força silenciosa que mantém unida a vida costeira.
"Os Pescadores" é um testemunho atemporal da coragem, dignidade e humanidade de quem vive do mar, combinando sensibilidade literária, crítica social e homenagem à herança marítima portuguesa.
Muito bom!! Ficou-me no coração...
E se ainda não leram, diria que é daquelas leituras que todos deviam conhecer...e que fica no coração de qualquer português 😉
Não sei classificar este livro. O Raul tem uma prosa poética, pinta-nos um quadro das paisagens por onde vai passando, de Caminha ao Algarve. O Raul gostava de cores com certeza.
Peguei neste livro com uma mentalidade genericamente curiosa e dei com um testemunho de grande importância etnográfica, sobre a vida dos pescadores e de Portugal nos anos 20 do século passado. Achei até que o Raul estava à frente do seu tempo quanto a citações a respeito das Mulheres (com M grande) e da preocupação com a sustentabilidade da fauna marinha devido à pesca.
Acho que o Raul não estava bem. Quando morrer e for para o Céu, vou dar um abraço ao Raul.
No recuerdo cuantas veces he leído este libro. Llegó a mi por puro acaso en una biblioteca del norte de Portugal , Caminha tal vez , lo que convierte a mi lectura en un proceso donde vida y ficción se encuentran. Son esos mismos paisajes del norte con los que se abre este libro tan visual como literario en su sentido mas estricto, esto es la búsqueda de un lenguaje de un estilo. Brandao escribe como un pintor, la poesía es pintura muda (ut pictora poiesis) como decían los clásicos. Hay traducción al castellano pero sin duda este libro merece ser leido en portugues, vale la pena aprender este idioma para leer a Brandao o a Ruy Belo o también a Helder o a todos los poetas, claro. Este libro es de una enorme actualidad no ha envejecido , esa mezcla de tratado etnográfico y de acuarelas literarias ( no se como se puede explicar esa capacidad de captar en dos frases un matiz de color o de una cualidad de la luz) son muy familares para los lectores que disfrutan con los libros de Nabokov, ahi encontramos ese mismo interes por lo visual. Creo que Brandao llevo al extremo la prosa portuguesa creando un estilo donde lo lirico y lo pictorico se mezclan con lo etongrafico. Por ultimo decir que muchas de las portadas de sus libros han encontrado además fantasticas ilustraciones, algo poco frecuente en las publicaciones de los ultimos años.
Este é um livro que me é difícil de classificar. Já conhecia o autor, e das suas descrições sobre a Pesca do Atum. Mas descobrir a prosa deste autor foi para mim uma verdadeira revelação. Raul Brandão olha para o mar como um mestre zen. É um local que pode satisfazer todas as vontades, mas é como uma deusa hindu, da mesmo forma como dá, também tira. E é com essa base, mais a memória da morte do avô no mar, que o escritor faz uma jornada pelo litoral continental português descrevendo-nos os costumes, os hábitos, as artes de pesca. Ao mesmo tempo tenta "retratar" as paisagens marítimas, recorrendo às suas "aguarelas literárias". É uma história de contacto com a Natureza, ou melhor um dos seus representantes, o Mar e a forma como este Elemento talhou as vidas das famílias de lés a lés que escolheram-no para o seu sustento. É uma obra literária, mas não tem histórias de ficção, de forma que pode ser entendido como um trabalho etnográfico sobre a vida marítima. Vou começar agora a ler a sua sequela, As Ilhas Desconhecidas.
" (...) factos insignificantes impressionaram-me para sempre a retina e a alma. Muito tempo perdi-os no tropel da vida, impõe-se-me hoje com um relevo extraordinário. Vejo outra vez tudo; as fisionomias, as coisas, a cor e a luz. (...) São nadas que farão sorrir os outros. São efectivamente nadas... E no entanto reconheço que essa foi a melhor parte da minha existência, minuto único de saudade em que a luz se suspende e o universo se entranha sempre na alma. É a própria vida com um encanto que não torna, é o abrir dos olhos para uma manhã deliciosa (...). Tudo é novo e esplêndido. Embriaga o ar que se respira e o primeiro sonho que sonhamos."
3.5 Foi a primeira leitura de Raul Brandão e deu para perceber o seu fascínio pela pobreza e pelo sofrimento que a mesma causa. A sua escrita realça todos os sacrificios que os pescadores fazem, em pequenos contos/relatos que são sempre compostos por longas descrições sobre a paisagem. Se fosse um pintor, nenhum pormenor ficaria de fora. Todo o livro me pareceu um longo monólogo, o que por vezes me aborreceu bastante mas, em termos de experiência de leitura, não foi de deitar fora.
This book always leaves me feeling a bit sad. Both my grandparents were fishermen at a point in their lives and from what I've heard, life at sea was as difficult as Raul Brandão describes it. This is one of the best Portuguese books I've ever read.
Adorei este livro. É um belo e poético passeio por toda a costa de Portugal, narrando os costumes e a dureza da vida à beira-mar, mas sem romantizar a pobreza e as tragédias do mar. Há muito em comum com as coisas que os meus avós me contaram da vida naqueles anos desta margem do Minho, na Guarda.
Li Os Pescadores como parte de uma antologia de Raul Brandão (A Vida e o Sonho). Parece-me que já conhecia metade do livro, visto praticamente todo o museu marítimo ou de pescas em Portugal incluir nas suas exposições citações de Raul Brandão; mas não diminuiu isto minimamente o prazer de ler este fantástico livro.
Os Pescadores são uma excursão pela costa portuguesa em busca do pescador português e das suas características. Para alguns, o valor deste livro será etnográfico, uma vez que documenta as técnicas de pesca utilizadas de norte a sul do país (daí estar em tanto museu de pesca), mas estas eram para mim as partes menos interessantes do livro. As estórias dos homens e mulheres do mar, as líricas descrições das paisagens e os pensamentos ruminantes do autor são sem dúvida aquilo que dá o brilho a esta obra. Deixo abaixo os parágrafos finais do livro, para mim a melhor passagem de todo a obra:
A costa portuguesa conta cerca de novecentos e quarenta e três quilómetros. No decurso de tão vasta distância assiste-se ao regaço do areal da terra a envolver o mar, num abraço por vezes fraterno, tempestuoso, chamativo e afogueado. Esta separação física que consuma as diferenças entre terra e mar assistiu à mocidade de Raul Brandão, natural da Foz e assim intimamente um filho pródigo do mar. No lugar da divisão entre terra e mar, o autor vê, antes de tudo, um imenso e esplendoroso pórtico: o acesso a variadas realidades que tão lucidamente confidencia nesta sua obra “Os Pescadores”.
De norte a sul de Portugal, com paragens por estações emblemáticas como Caminha, Varzim e Sagres, Raul Brandão regista diálogos, tradições e acontecimentos da vida de quem faz do mar o seu trabalho. Homens e mulheres, numa mesma força, desafiam as forças do mar. A apreensão surge quando os barcos se lançam ao mar e se estendem por tempos intermináveis em alto mar tenebroso e astuto, na procura dos seus frutos. A felicidade extravasa quando no alvor os barcos aportam nos areais, carregados de peixe pronto a estender na praia e a vender. A brisa marítima assumia-se numa tonalidade tétrica quando os barcos não regressavam ou quando regressavam incompletos. A morte e o mar, mas também o mar e a vida. É nesta segunda premissa que o autor percorre a costa marítima de Portugal, o seu sempiterno lar: simples, humilde e generoso.
Mesmo esquecendo o século que me separa de Raul Brandão, pouco de nós se encontra. O mar do autor apenas sazonalmente, no calor tórrido do estio, penetrou na minha primavera. As serras e as montanhas são hoje o meu abrigo, à semelhança da relação entre o autor e o mar. Encontramo-nos na má gestão de que o mar e as serras têm sido mártires nos mais recentes anos, encontro espoletado pelas histórias do autor. Incêndios, desflorestação, superexploração dos mares e mau controlo das espécies marítimas são alguns dos exemplos que conduzem as riquezas do nosso país a um ignóbil statu quo de inação. Como referiu o autor: “nós só temos um sistema bem organizado: o da destruição”.
Poesia em forma de prosa. Um elogio à força e tenacidade dos Homens & Mulheres que se quebram uma vida inteira pela costa portuguesa pela obrigação de nos trazer o pescado. De louvar que para a altura em que foi escrito, esta homenagem às Mulheres dos homens que está várias vezes explícita pelo livro tem mesmo de ser realçada. Viúvas ou casadas, mas quase sempre sem verem os maridos; deixadas a cuidar dos filhos onde a isso poderiam juntar ter que ir buscar os maridos à taberna onde sorviam o ganho da jorna; ou ainda sós ou menos bem acompanhadas mas a trabalhar por homem e meio, para cuidar da família até que um dias os filhos poderiam seguir o caminho dos pais água adentro. Um retrato da pobreza que ainda se esconde à nossa vista nos dias de hoje, mas que o turismo camufla. Em suma, um adorável (embora a espaços uma escrita extenuantemente descritiva de peixes e barcos) primeiro mergulho em Raúl Brandão.
Incrível retrato do Portugal de antigamente. Uma versão sóbria do On The Road de Jack Kerouac. Uma divagação pela costa, apresentando os costumes e descrevendo fielmente os traços característicos de cada terra, desde as águas gélidas de Vila Praia de Âncora às águas mediterrânicas de Olhão. Um relato conciso, quase jornalístico, também romanceado mas nada fantasiado. Uma óptima introdução a um dos escritores mais singulares e menos falados da escrita clássica portuguesa. O chamado herdeiro português, dos escritores russos, Raúl Brandão é um escritor que merece mais destaque no panorama nacional português. Um livro que recomendo, leitura leve mas não leviana. Ideal para ler à beira mar, numa das inúmeras terras costeiras narradas por Raúl ao longo da sua odisseia. Tive o prazer de ler no paredão da praia do Relógio da Figueira da Foz, um trecho que descrevia aquela mesma zona, junto ao farol e a pescadores, como não poderia deixar de ser.
O que eu adorei neste livro foi perceber o esforço e a força de vontade de Raúl Brandão em querer preservar a história de um povo de um país. Infelizmente, só temos a história dos pescadores, e não dos labradores, dos operários de fábrica, dos anónimos que fizeram o nosso país. Este livro é como fazer uma viagem no tempo, descobrir como viviam os pescadores e quais as técnicas ancestrais que usaram. Como descendente de poveiros, fiquei emocionada com este livro. Mas recomendo a leitura não só a quem reside ou descende de pessoas da costa, mas sim a todos os portugueses que querem saber mais sobre a cultura do nosso país, sobre o que já se perdeu e o que ainda se pode preservar. Um livro muito interessante cheio de poesia nas palavras, que termina de uma forma épica, no mítico cabo de Sagres.