Apesar de já ter lido uma série de livros sobre minimalismo e temas a ele normalmente associados (como organização), gostei muito de ler este Menos é Mais. Peguei nele na altura certa, pois nos últimos anos, os meus ânimos minimalistas têm andado um pouco adormecidos, e isso tem-se reflectido de forma negativa a vários níveis.
Gostei da forma como o livro está organizado, com uma introdução ao tema, seguida de dicas práticas aplicáveis aos vários espaços da casa, depois lidando com os diferentes tipos de objectos, os restantes membros da família, e, por fim, fazendo um enquadramento mais geral do minimalismo como movimento contra-corrente do consumismo generalizado a que se assiste hoje e das implicações mais vastas que pode ter.
Gostei particularmente de algumas passagens, como aquela que usa as viagens para ilustrar a liberdade que se consegue ao transportar menos bagagem:
“Pense em como seria chato carregar duas ou três malas pesadíssimas durante as férias. Faz séculos que você está ansioso para essa viagem e, quando desembarca do avião, mal pode esperar para explorar as paisagens. Não tão rápido — antes você precisa esperar (e esperar e esperar) que as malas apareçam na esteira de bagagem. Depois, precisa arrastá-las pelo aeroporto. É provável que você siga direto para o ponto de táxi, porque manobrá-las no metrô seria quase impossível. E nem pense em tentar pegar lugar no city tour que está começando — você tem de ir primeiro ao hotel e se livrar desse fardo gigantesco. Quando você finalmente chega lá, desmaia de cansaço.
O minimalismo, por outro lado, o deixa ágil. Imagine viajar apenas com uma mochila leve (...) Você chega ao destino, desce do avião e passa pela maré de gente esperando pela bagagem. Depois entra no metrô, pega um ônibus ou anda em direção ao hotel. No caminho, experimenta todas as visões, sons e aromas de uma cidade estrangeira, com o tempo e a energia para saborear tudo. Você tem a liberdade e a flexibilidade de um pássaro para se movimentar por aí — pode levar a mochila a museus e a pontos turísticos e guardá-la num armário quando for preciso. Diferente do primeiro cenário, você começa com tudo e passa a tarde vendo as paisagens em vez de arrastar suas coisas de um lado para o outro. Chega ao hotel energizado por sua experiência e pronto para outra.
Quando não estamos mais acorrentados às nossas coisas, podemos saborear a vida, nos relacionar com outras pessoas e ser participativos em nossa comunidade. Ficamos abertos a experiências e mais capazes de reconhecer e aproveitar as oportunidades. Quanto menos bagagem carregamos (tanto física como mentalmente), mais podemos viver!”
E entre muitas outras passagens interessantes está também esta:
“Quando nos identificamos com marcas e nos expressamos através das coisas materiais, perdemos a noção de quem somos. Usamos bens de consumo para projetar determinada imagem de nós mesmos, comprando basicamente uma máscara para exibir para o mundo. Além disso, estamos tão ocupados cuidando das nossas coisas — correndo de um lado para o outro, comprando isso e aquilo — que encontramos pouco tempo para parar e explorar o que realmente nos anima.
Quando viramos minimalistas, nos despimos de todo o excesso para revelar nosso verdadeiro eu. Temos tempo para contemplar quem somos, o que achamos importante e o que nos faz realmente felizes. Saímos do casulo e abrimos as asas como poetas, filósofos, artistas, ativistas, mães, pais, companheiros, amigos. O mais importante é que nos redefinimos pelo que fazemos, pelo modo como pensamos e por quem amamos, e não pelo que compramos.”
Claro que agora que as lojas põem à nossa disposição frutas da América ou África do Sul durante todo o ano, roupas da Índia e ferramentas da China ao preço da chuva, não é fácil resistir e optar por produtos locais, explicar aos miúdos porque é que não compramos aqueles morangos tão apetitosos que apareceram no supermercado em Dezembro, ou comprar as cadeiras ao artesão local pelo dobro do preço das do Ikea… Mas concordo com a autora, quando ela diz que vale a pena tentar.