«[...] figura portuguesíssima, insinuante, de D. Manuel II. Se houve um rei luso que se perdeu na bruma, esse foi, sem dúvida, o triste exilado de Fullwell Park, o Desejado de muitos portugueses, outro D. Sebastião teimosamente aguardado numa manhã de nevoeiro. Mas nem os próprios, que tanto ansiavam por ele, conheciam bem, como eu pude conhecer, a esbelteza da sua alma, a sua doce melancolia de português saudoso, distante. Viam nele apenas o Rei, o símbolo ainda vivo do seu ideal, a esperança do regresso, mas não conheciam o homem, o seu encanto pessoal, a distinção e a graça das suas maneiras, não sabiam, por exemplo, que D. Manuel fingia viver em Inglaterra, mas que continuava, de facto, a ser rei na nossa maior possessão: na saudade. [...]»
António Ferro é um excelente prosador a quem não tem sido reconhecido o devido valor, em grande medida, devido ao seu apoio a Salazar. Talvez o muito claro e cuidado prefácio desta obra, da autoria do próprio Ferro, lance alguma luz sobre as suas escolhas e sobre o pensamento político que o tornou um republicano nacionalista.
É um pequeno livro que se lê com extrema facilidade, embalados pela prosa certeira do autor, em jeito de reportagem mas prenhe de um estilo muito afinado e sem gorduras exageradas.