Três textos como três Reis Magos: um conto de Jorge de Sena, "A Noite Que Fora de Natal"; uma carta, "Carta do Pai Natal", que o Pai Natal escreveu à filha de Mark Twain (e que talvez tenha sido, afinal, da autoria do escritor); outro conto, "Os Mortos", de James Joyce. Três textos a rasgar a noite escura, cercados pelo silêncio e pela profunda satisfação que vem da leitura. Pode um livro, de tão amarelo, ser um livro de Natal? Se da noite negra que está na primeira página sair uma voz a anunciar a morte do Grande Deus Pã e esse for um conto de Jorge de Sena, "A Noite Que Fora de Natal"… E se das frias estrelas cintilantes dessa noite cair a "Carta do Pai Natal", que Mark Twain escreveu à filha… E se, noutra noite, que já não sendo ainda é de Natal, James Joyce juntar ao sentimento dos vivos "Os Mortos" e a nostálgica memória deles… Se tivermos tudo isto em papel e pintarmos a vermelho as três faces do miolo, então este é um livro de Natal, o mais belo livro amarelo de Natal.
Jorge de Sena is one of the most important Portuguese poets of the second half of the 20th century, but he was also an outstanding essayist, a fiction writer of indubitable talent, a significant playwright and a tireless translator of the poetry and prose of writers from a variety of languages and periods. His published works extend to more than a hundred titles. It is difficult to understand how a single person could accomplish so much in one lifetime, and not a long one at that, especially if we consider that he worked under the demands of a professional life and raised nine children. In 1959, fearing that he would be persecuted for his involvement in a failed coup attempt against the dictatorship of Salazar, Sena went into exile in Brazil, and later adopted Brazilian nationality. There he added a doctorate in the humanities to his degree in civil engineering. In 1965 he left Brazil with his large family for the United States, where he remained until his death. There is a Portuguese Studies Center named after him at the University of California at Santa Barbara, where he held his last teaching post.
The innovative character and the excellence of his vast body of work are broadly recognized today, but this was not always the case. Sena himself believed that he was under-appreciated in Portugal and, from the vantage of his American exile, he took his revenge in a series of acid attacks against the mediocrity and provincialism of the Portuguese cultural scene. It is no wonder that his poetry provoked a certain resistance. Though he was a ferociously critical poet, he would nevertheless dispense with the primer of social realism, and occasionally display the outer signs of surrealism. However, he was much too cerebral to submit himself to the dictates of the unconscious, or to practice automatic writing. And though he would give voice to personal circumstances, his practice as a poet of witness, both of his own life and the world around him, had nothing in common with the subjectivity and the immersion in psychology so typical of the generation of writers grouped around the influential literary magazine Presença, launched in the city of Coimbra in 1927.
With the appearance in Portugal, at the beginning of the 1960s, of a poetry dedicated to creating a new autonomy for poetic language, one which would favor control, prosodic rigor and metaphoric density, it was natural that certain characteristics of Sena’s poetry, such as his frequent use of registers more typical of prose, were seen as symptoms of weak technique. But it is curious to note that what tended to alienate him from the successive poetic currents of his times is exactly what the young and influential Portuguese poets of today find so attractive in him.
As an essayist, Sena is an important reference, both when it comes to Luís de Camões and to Fernando Pessoa. He also wrote a novella, dozens of short stories and one powerful novel, Signs of Fire, which presents at once a fresco of Portuguese society during the period of the Spanish Civil War and a detailed portrait of the education of a poet. He will also be remembered as the translator of hundreds of poems by a variety of poets, and of the novels and plays of such authors as Molière, Lautréamont, Poe, Chestov, Brecht, Faulkner, Hemingway, Graham Greene, Malraux and Eugene O’Neill, among many others.
Três textos sob a temática natalícia, que guardei para ler entre a véspera e a manhã de Natal. Infelizmente gostei bastante do texto do Joyce, o que abala um pouco o meu ódio de estimação por esse pavãozito insuportável.
Leitura em vésperas de Natal. Apesar de normalmente não procurar leituras temáticas, este ano decidi fazê-lo, pois o conceito e o design deste pequeno livro atraíram-me.
No primeiro conto, Jorge de Sena leva os leitores à época do Império Romano e a uma mítica noite em que corre a notícia da morte do Deus Pã. Interessante, mas pouco memorável.
O segundo trata-se de uma carta do Pai Natal, que Mark Twain terá escrito à sua filha, com instruções e recados sobre como ela deve proceder para receber os presentes, incluindo conselhos para que continue a ser uma boa menina. Engenhoso e a mostrar as vantagens de ter um pai escritor, criativo e com imaginação.
Quanto ao terceiro conto, "Os Mortos" de James Joyce, li-o e já escrevi sobre ele em meados de 2022. O nome do conto evoca os que são recordados numa festa que se passa numa requintada casa em Dublin. Um bom exemplo de que nem tudo o que Joyce escreveu é difícil e pouco compreensível. É, de longe, o melhor conto deste livro.
Tanto Mark Twain como Rudyard Kipling, dois dos mais célebres autores de língua inglesa do final do século XIX, início do século XX, atingiram boa notoriedade com estes contos centrados em animais. Ainda que ambos tenham sido bem recebidos, sobre o conto de Rudyard Kipling foram feitas algumas interpretações demasiado exageradas na vertente colonialista.
A célebre rã saltadora do condado de Calaveras apresenta-nos um apostador compulsivo que não consegue deparar-se com possibilidade nenhuma em que não aposte. Ao vislumbrar um possível companheiro para uma aposta, apresenta-lhe a sua rã, que decerto será capaz de ultrapassar qualquer outra, e logo inventa uma possível competição entre rãs.
Neste seguimento, deixa para trás a sua própria rã, enquanto procura outra para o companheiro da aposta. Quando retorna e testam as rãs, a sua revela-se quase incapaz de saltar.
Adaptado para ópera, e constituindo um episódio no filme As Aventuras de Mark Twain, a história ridiculariza o espírito do jogo do apostador, demonstrando que, toda a sua disponibilidade (ainda que interesseira) o deixa vulnerável a ser alvo de trapaças por parte de terceiros. Não que ele seja totalmente inocente – até porque os animais que cria, de aspecto quase vulgar, são capazes de feitos surpreendentes.
Já o conto Rikki-tikki-tavi de Rudyard Kipling centra-se na bravura e reconhecimento de um mangusto que, recolhido e tratado por uma família, os recompensa protegendo contra as cobras de espírito vingativo. O conto é apresentado sob o ponto de vista do mangusto, um animal corajoso e simples, que conhece bem o seu lugar entre a família, reconhecendo-lhe autoridade.
Começando como um animal recolhido mas suspeito pela sua qualidade de desconhecido selvagem, o mangusto ganha o seu lugar junto da família ao demonstrar-se de confiança e protector, lutando sucessivamente com as ameaças que se apresentam.
História movimentada, empática e simples, de premissa linear e estrutura clássica, Rikki-tikki-tavi encanta exactamente por nos apresentar uma personagem humilde e corajosa que, reconhecendo o seu papel, o executa com desenvoltura, sem mostrar dúvidas ou incertezas.
Este livro amarelo da nova colecção da editora Guerra e Paz centra-se nos animais enquanto elementos causais de duas boas histórias, mas de construção bastante diferente. De realçar a composição gráfica que constitui um elemento de grande destaque na edição da colecção livros amarelos.
"A Noite Que Fora de Natal", de Jorge de Sena, é o primeiro conto e o meu preferido. Consegue ser cómico, o que requer perícia e talento, principalmente com as críticas que o autor faz, ao mesmo tempo que nos dá a perceção do glorioso Império Romano, na altura em que o Cristianismo surgiu.
Por um lado, temos o Marco Semprónio, que considera essa religião de "um só Deus" um disparate. Fiquei com a ideia de que a personagem a compara a uma epidemia invasora, contaminando a própria Roma. O outro romano revela-nos o oposto, isto é, a filosofia típica cristã, o que delineia um contraste espetacular, enquanto os dois falam sobre o antigamente...
O segundo conto, "A Carta do Pai Natal", de Mark Twain, é o mais pequeno do trio. O que lhe falta em tamanho, existe redobrado em descrições leves e momentos de humor e afeto. Uma carta do Pai Natal a uma criança, retocando aspetos como a compaixão para com os desfavorecidos e a humildade.
"Os Mortos", de James Joyce, é o último e o maior conto deste belo livro amarelo. O enredo localiza-se numa era extremamente elegante, caracterizada por grandes costumes, respeito e integridade. A maioria do conto passa-se numa ceia anual, eximiamente preparada pelas tias de Gabriel, personagem cuja perspetiva nos acompanha até ao fim. Também observamos o lado contraproducente da sociedade da época, marcado por preconceitos, uma forte ligação ao passado e uma certa apatia generalizada. O conto e o próprio livro acabam com Gabriel a dar-se conta de quão banal e vazio tem sido o seu casamento, em oposição ao romance que a sua esposa viveu quando era jovem: "Um homem havia morrido por ela." O conto é apelativo e aliciante, uma vez que encontramos de tudo um pouco e, esse pouco, é bom.
Por outras palavras, fiquei a conhecer a esbelta coleção de capa amarela. O que penso deste volume? Acho que é uma magnífica coletânea de contos natalícios, que nos consegue surpreender na maneira como aborda o tema festivo. Foram, sem sombra de dúvida, dos contos mais cativantes que já tive oportunidade de ler.